Catarina Martins quer "contratos qualificados" para a geração mais qualificada de sempre

29 de agosto 2021 - 22:37

No encerramento do Fórum Socialismo 2021, a coordenadora nacional do Bloco respondeu ao anúncio feito por António Costa no Congresso do PS, que condena os jovens à precariedade e a um contrato "com a empresa que lhes fica com metade do salário".

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Foto de Ana Feijão

O Fórum Socialismo decorreu este ano em dois locais diferentes, no sábado em Braga e no domingo em Almada. O encerramento da iniciativa contou com as intervenções de Catarina Martins e das deputadas Beatriz Gomes Dias e Joana Mortágua, candidatas nas próximas eleições autárquicas às Câmaras de Lisboa e de Almada, respetivamente.

Em resposta a António Costa, que no Congresso do PS prometeu que quem trabalha temporariamente vai passar a ter um contrato com a Empresa de Trabalho Temporário (ETT), a coordenadora bloquista afirmou que não se lembra de “nada mais triste do que dizer às gerações jovens e precárias que o seu futuro é ter um contrato com a empresa que lhe fica com metade do salário, que lhe nega carreira, que lhe nega futuro. Não, nós não queremos um futuro em que os trabalhadores e as trabalhadoras têm vínculos com ETT, nós queremos que tenham contratos de trabalho a sério e que nenhuma empresa abutre lhe fique com metade do salário”.

“Se esta geração é a mais qualificada de sempre e é, então tem de ter um contrato de trabalho que seja qualificado e é isso que queremos. Que às gerações qualificadas, sejam entregues contratos qualificados”, disse Catarina Martins.

O Governo entregou 64 propostas sobre legislação do trabalho na Concertação Social, mas Catarina Martins questiona: “Sabem quantas destas propostas vão impedir que algum jovem esteja condenado à precariedade? Zero. Sabem quantas destas 64 propostas vão garantir a quem neste momento é precário, deixar de ser precário? Zero. É este poucochinho, de muitas medidas mas poucas soluções, que o Bloco de Esquerda não aceita”.

A coordenadora nacional do Bloco de Esquerda começou a sua intervenção por deixar uma palavra ao Serviço Nacional de Saúde, "que não só está a vacinar toda a população, como só o SNS sabe fazer, como toda a população está a aderir porque são décadas de construção de um elo de confiança extraordinário”.

Catarina Martins também abordou a situação no Afeganistão e referiu “o desespero de uma retirada desastrosa depois de uma invasão desastrosa que daqui a dois dias chega ao momento final”. E considerou a guerra do Afeganistão como “criminosa, que nunca foi explicada, que distribuiu milhares de milhões de euros no negócio da guerra, a quem vive da guerra, a quem se alimenta da guerra, uma invasão e uma ocupação que fez crescer o negócio do ópio e a corrupção e que incapaz de garantir a escola, de garantir os direitos, de garantir a emancipação”. Por isso, “quem apoiou esta invasão criminosa tem de responder por todo este crime”, defendeu.

Beatriz Gomes Dias propõe um pelouro dedicado às questões de igualdade e cidadania

Beatriz Gomes Dias, candidata do Bloco à Câmara Municipal de Lisboa, começou por referir que o partido “faz a diferença nas autarquias porque onde o Bloco de Esquerda está, as pessoas estão no centro da política”.

“Sem o Bloco em Lisboa não era possível ter refeições saudáveis nas escolas públicas, manuais escolares gratuitos, uma redução histórica do preço dos passes dos transportes, a regulação no alojamento local, o investimento sem precedentes em apoio às pessoas em situação sem abrigo. Algumas destas medidas que se iniciaram em Lisboa por iniciativa do Bloco tornaram-se medidas nacionais”, vincou a candidata bloquista.

Beatriz Gomes Diaz acredita que a política aplicada pelo PS em Lisboa “tem colocado no centro da sua ação os interesses de uma minoria, deixando de fora a maioria da população” e acrescentou que “sabemos também que a desigualdade é agravada pelos diferentes fatores de discriminação, as discriminações em função do género, da pertença etnico-racial, da orientação sexual ou expressão de género, da nacionalidade ou estatuto migratório, da capacidade e da idade combinam-se criando forma específicas de discriminação”.

O Bloco propõe “um pelouro exclusivamente dedicado às questões de igualdade e cidadania para combater todas as formas de discriminação, propomos também a elaboração de um plano municipal de combate ao racismo, a garantia de apoio de emergência para vítimas de violência de género, a implementação de um programa de apoio à habitação específico para pessoas com deficiência, a contratação de mediadores socioculturais e de intérpretes de língua gestual portuguesa para os serviços do município, a dinamização de um grupo municipal LGBTI+. Estas são algumas das propostas do Bloco para tornar Lisboa uma cidade livre de discriminações e eliminar as barreiras colocadas pelas múltiplas discriminações”.

Joana Mortágua: “Quem governa com a direita, acaba por governar como a direita”

Joana Mortágua, candidata do Bloco à Câmara Municipal de Almada, local que recebeu o segundo dia do Fórum Socialismo 2021, focou a sua intervenção no problema da falta de habitação, “já que é uma prioridade conhecida da nossa candidatura aqui em Almada: «Uma Casa, Uma Causa»”.

A candidata do Bloco considera que, neste concelho, “se anda há anos a ignorar uma mistura explosiva que é aquela que junta milhares de pessoas sem habitação digna e um crescimento descontrolado da especulação imobiliária”.

A falta de resposta tornou-se tão evidente que “a Presidente Inês de Medeiros quis sacudir a água do capote e fazer um pequeno número político dizendo que o Bloco de Esquerda recusou o pelouro da habitação há 4 anos. O PS sabe bem o porquê, tanto que em 4 anos nunca questionou essa decisão”, disse Joana Mortágua.

Depois de criticar o acordo estratégico entre PS e a direita, em Almada, que segundo a candidata, deu um poder nunca visto à direita no concelho em quase 50 anos de democracia, sublinhou que “a habitação não aparecia no programa eleitoral do PS em 2017. Porque é que nós recusamos esse pelouro há 4 anos? Eu recorro muitas vezes a um fado com uma letra de Álvaro de Campos e música de Mário Laginha em que um homem promete a uma mulher chamada Margarida o amor, promete-lhe a sua vida e no final do poema pergunta à Margarida «o que farias tu se afinal estas promessas não passassem de poesia?», a Margarida responde «então filho nada feito, fica tudo sem efeito, nesta casa não se fia»”.

“Quem governa com a direita acaba a governar como a direita”, vincou Joana Mortágua.