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Butler: O futuro da pandemia num mundo desigual

Nestes tempos pandémicos, ar, água, teto, roupas e o acesso à saúde são focos de angústia coletiva. Todos eles já estavam ameaçados pelas alterações climáticas. O facto de alguém viver ou não uma vida vivível não é uma mera questão existencial privada, mas uma questão económica urgente. Por Judith Butler.
Judith Butler. Foto de Andrew Rusk/Flickr.
Judith Butler. Foto de Andrew Rusk/Flickr.

Independentemente de como assimilamos esta pandemia, compreendemo-la como global; ela deixa claro o facto de estarmos implicados num mundo compartilhado. A capacidade das criaturas humanas vivas de se afetarem umas às outras é, por vezes, uma questão de vida ou morte. Como são muitos os recursos partilhados de forma desigual, e são também muitos aqueles que possuem apenas uma pequena ou desaparecida porção do mundo, não podemos reconhecer a pandemia como global sem enfrentar tais desigualdades.

Algumas pessoas trabalham para o mundo comum, fazem-no girar, mas não são, por isso, parte dele. Podem faltar-lhes propriedades ou documentos, podem ser marginalizadas pelo racismo ou até mesmo ser desdenhadas como refugo – são pobres, negras, com dívidas impagáveis que bloqueiam o sentimento de um futuro aberto.

O mundo partilhado não é partilhado igualmente. O filósofo francês Jacques Rancière refere-se à “parte dos sem parte” – aqueles cuja participação no comum não é possível, nunca foi, ou já não é. Porque não se trata apenas de recursos e de empresas em que se têm ações, mas de um sentido do comum, um sentido de pertencer igualitariamente ao mundo, uma confiança de que ele está organizado para assegurar o florescimento de todos.

A pandemia iluminou e intensificou desigualdades raciais e económicas ao mesmo tempo que aguçou o sentido global das nossas obrigações com os outros e com o planeta. Há um movimento numa direção global, baseado num novo sentido de mortalidade e interdependência. A experiência da finitude está associada a uma aguçada perceção das desigualdades: quem morre prematuramente e porquê? E para quem não existe a  promessa social ou infraestrutural de continuidade da vida?

Essa perceção da interdependência do mundo, fortalecida por uma crise imunológica comum, desafia a conceção de nós mesmos como indivíduos isolados e encapsulados em corpos discretos, limitados por fronteiras estabelecidas. Quem negaria, nesta altura, que ser um corpo significa estar vinculado a outras criaturas vivas, às superfícies e aos elementos, incluindo o ar que pertence a ninguém e a todos?

Nestes tempos pandémicos, ar, água, teto, roupas e o acesso à saúde são focos de angústia coletiva. Entretanto, todos eles já estavam ameaçados pelas alterações climáticas. O facto de alguém viver ou não uma vida vivível não é uma mera questão existencial privada, mas uma questão económica urgente, incitada pelas consequências de vida ou morte da desigualdade social: existem serviços de saúde, abrigos e água limpa suficientes para todos aqueles que têm direito a uma parte igual deste mundo? A questão torna-se ainda mais urgente devido às condições de precariedade económica agravadas pela pandemia – que expõe, também, a catástrofe climática em curso como ameaça à vida vivível que é.

Pandemia é, etimologicamente, pandemos: todas as pessoas ou, mais precisamente, as pessoas em todos os lugares, ou algo que se espalha sobre ou através das pessoas. O “demos” são todos, a despeito das barreiras legais que tentam separá-los. Uma pandemia, então, vincula todas as pessoas através dos potenciais de infeção e recuperação, sofrimento e esperança, imunidade e fatalidade. Nenhuma barreira impede a circulação do vírus enquanto os humanos circularem; nenhuma categoria social garante imunidade absoluta para todos aqueles que inclui.

“O político, no nosso tempo, deve partir do imperativo de reconstruir o mundo em comum”, argumenta o filósofo camaronês Achille Mbembe. Se consideramos a espoliação dos recursos planetários para o lucro empresarial, a privatização e a própria colonização como um projeto ou um empreendimento planetário, então faz sentido conceber um movimento que não nos envie de volta aos nossos egos e identidades, às nossas vidas isoladas.

Tal movimento será, para Mbembe, “uma descolonização [que] é, por definição, um empreendimento planetário, uma abertura radical do e para o mundo, uma respiração profunda do mundo em oposição ao isolamento”. A oposição planetária à extração e ao racismo sistémico deve, portanto, trazer-nos de volta ao planeta, ou deixar que ele se torne, como que pela primeira vez, um lugar para uma “respiração profunda” – um desejo que todos hoje conhecemos.

No entanto, um mundo habitável para os humanos depende de um planeta florescente onde os humanos não estão no centro. Opomo-nos às toxinas ambientais não apenas para que possamos viver e respirar sem ter medo de nos envenenar mas, também, porque a água e o ar devem ter vidas que não estejam centradas na nossa.

Ao desmontarmos as formas rígidas de individualidade nestes tempos interconectados, podemos imaginar o papel menor que os mundos humanos devem desempenhar neste planeta Terra de cuja regeneração tanto dependemos – e que, por sua vez, depende de desempenhamos um papel menor e mais consciente.


Judith Butler é professora de filosofia na Universidade da California, Berkeley.

Tradução de Daniel Pavan. Artigo publicado em A Terra é Redonda, em 13 de maio de 2021. Republicado no site da Insurgência. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

 

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