O Bloco
1 - Há muito que não tomava iniciativa. Pelo menos de forma tão directa. Militante durante quase uma década no extinto PSR, passei, por opção, à condição de cidadão não comprometido partidariamente durante os últimos 12 anos. O meu voto, esse, manteve-se por convicção com aqueles que agora interpelo. E aqueles que agora interpelo são muitos: marxistas, social-democratas de esquerda, socialistas, independentes, comunistas, trotskistas, etc.
Desta vez perdemos. Tout court perdemos. Podem aventar-se motivos como o da configuração conjuntural que enquadrou as passadas eleições (sobretudo o medo da vitória da direita e a consequente deslocação de votos do Bloco para o PS) para explicar o declínio do Bloco. Penso que todos concordaremos que se trata de um argumento curto e incompleto. Ao contrário de todos aqueles que afirmam que a ausência da reunião com a Troika, o apoio a Alegre ou a moção de censura foram, em conjunto, os carrascos do Bloco nas eleições, eu prefiro acreditar que existe algo a montante de tudo isto que incomoda potencialmente o eleitorado. Falo de uma certa sobranceria moral e intelectual. Não tanto no seu conteúdo mas sobretudo no tom.
Há um certo tom quase de condescendência perante aqueles que não concordam connosco. É uma crítica reiterada ao Bloco. Feita pela esquerda e pela direita. Não acho que seja totalmente infundada. Tantas vezes ao ouvir os meus camaradas (deixem-me que vos continue a chamar camaradas) me parece que detêm uma fórmula mágica para a resolução de todos os problemas do país que todos sabemos não existir. Voltemos a ter incertezas, não tenhamos vergonha delas e partilhemo-las com as pessoas. Como estamos a fazer agora, neste fórum.
Política de alianças
2 - O Bloco nasceu de uma fusão entre forças políticas que tinham como ponto de contacto o de desejarem uma sociedade socialista, mais justa, equilibrada, anti-capitalista e com uma verdadeira igualdade de oportunidades para os(as) seus(suas) cidadão(ãs). Se nos recordarmos, as clivagens existentes entre PSR, Política XXI e UDP eram assinaláveis em muitos aspectos. Não vejo o que o Bloco seja hoje mais diferente do PCP do que o PSR era da UDP em 1999/2000. É certo que o PCP continua sem se retratar das purgas estalinistas, é certo que quer manter um protagonismo junto de certas franjas da população (diga-se em abono da verdade que em parte merecido), que não desiste de uma série de ortodoxias, mas é certo também que é uma esquerda genuína. Cheia de tropeções, mas genuína. O que nos leva à óbvia interrogação. Porque é que num momento tão particular da nossa história política e económica não se ponderou a sério uma Frente de Esquerdas Unidas? Ou terá ponderado e o eleitorado nem chegou a dela ter conhecimento?
Demagogias
3 – O Bloco diz, não raras vezes, que o Bloco é a esquerda que fala verdade. Eu não acho que seja mentira mas noto já no partido uns laivos de demagogia. Ao dizer, para dar apenas um pequeno exemplo, que o pleno emprego é possível já e agora estamos a fazer demagogia da grossa. Todos sabemos que se hoje fôssemos governo esse objectivo para o qual, inequivocamente deveríamos sempre continuar a tender, não seria alcançável num curto prazo. O Bloco é esquerda de verdade. Se assim é, não nos devemos deixar intimidar pelas demagogias dos outros respondendo-lhes com as nossas demagogias.
O Socialismo dos afectos e os novos movimentos sociais
4 - Não bastam os argumentos da razão. Sou eu quem o digo. Não represento ninguém para além de mim. Talvez roce o patético dizê-lo numa situação como a que atravessamos. Mas insisto. Não bastam os argumentos da razão para que as pessoas queiram estar connosco. O socialismo passa também pelos afectos. E falo da afectividade no sentido mais lato. A esquerda é por definição ruptura, novidade, diferença, sonho, utopia e esperança. Estes atributos baseiam-se na força da lógica, da razão mas não só. Os movimentos sociais que vemos criarem-se a cada dia não se associaram até à data a nenhum partido político. Não penso de resto que venham a fazê-lo. Ainda assim, há reivindicações comuns a esses movimentos e aos partidos de esquerda portuguesa. talvez valha a pena dar-lhes a mão, envolvermo-nos com eles (apesar da relutância de alguns deles em se envolverem com os partidos) e mostrar-lhes que não terão que ter nenhum rótulo colado para merecerem o nosso apoio e, eventualmente, nos darem os deles. Não temos que ser todos marxistas para estarmos do mesmo lado da barricada por um mundo mais justo e equilibrado.
Importa perceber a diversidade, a génese, as expectativas, as reivindicações e também os afectos de toda esta nova gente indignada. Só assim poderemos estar com as pessoas.
Os média
5 - O Bloco já foi apelidado de tudo quanto é depreciativo. O retrato que os média fazem de nós é de um partido do contra. O Bloco não se tem cansado de apresentar propostas e soluções. Mas o que passa nos principais órgãos de comunicação é sempre o discurso do contra. Talvez as nossas propostas possam ganhar um papel de maior preponderância mediática. Para tal, deve haver o reequacionamento do nosso discurso do ponto de vista mediático, tornando-o mais construtivo.