Brasil: A foto de Lula, Maluf e Haddad

28 de junho 2012 - 16:27

A busca do apoio de um político da ditadura mostra que o Partido dos Trabalhadores está disposto a entrar num vale-tudo na disputa pela prefeitura da cidade de São Paulo, nem que isso custe o que restou de credibilidade. Por Júlio Valério Neto

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Lula à esquerda, Haddad ao centro, Maluf à direita, na foto tirada nos jardins da mansão deste último. Foto de Mauricio Camargo, retirada do Envolverde.

Quais os efeitos que uma imagem pode gerar num ambiente político mediático? Talvez sejam infinitos, mas um facto recente faz-nos refletir sobre essa questão: a imagem de Lula e Haddad1 ao lado de Paulo Maluf2. A foto regista um daqueles momentos que, para quem tem mais de trinta e poucos anos, apesar de já ter presenciado muita coisa em política, nunca acreditou que pudesse ver. A busca do apoio de Maluf mostra que o PT paulista está disposto a apostar todas as fichas e entrar num vale-tudo na disputa pela prefeitura de São Paulo, nem que isso custe o que restou de credibilidade à legenda. O custo político da foto no belo jardim de Maluf fez-se sentir de imediato, com a renúncia de Luiza Erundina3 ao cargo de vice na chapa de Haddad, embora ela já soubesse anteriormente da aliança PT-Maluf.

Mas qual o poder de uma imagem, como a do trio Lula-Haddad-Maluf, numa corrida eleitoral? A análise de uma imagem no jogo político é algo complexo e muitas vezes, como diz o ditado popular, uma imagem vale mais que mil palavras, seja isso positivo ou negativo, além de ser, segundo o sociólogo e teórico da comunicação Manuel Castells, a forma mais simples e direta de mensagem. Na foto em questão, temos o ex-presidente Lula, que pela sua história sempre se mostrou hábil no jogo político, capaz de alianças improváveis para atingir o objetivo final (e muitas vezes pouco nobre) da política desde os tempos de Maquiavel, alcançar o poder e nele se manter, conseguindo reeleger-se após as denúncias e o bombardeio mediático do caso do mensalão, além de conseguir fazer o seu sucessor, no caso, a presidente Dilma. Tenha-se afinidade com as suas ideias ou não, poucos duvidam do talento político do ex-sindicalista.

No outro lado da foto está Paulo Maluf, velho político paulista, ex-prefeito da cidade de São Paulo, ex-governador do Estado de São Paulo, herdeiro político da ditadura militar (Brizola, dizia “filhote”), exemplo de truculência política e de pouca civilidade democrática, acusado de inúmeros desvios e corrupção, além de procurado pela Interpol. Não obstante, o deputado federal mais votado do Estado de São Paulo em 2006 e o terceiro mais votado em 2010, com cerca de 500 mil votos, além de reverenciado por muitos paulistanos e por moradores da baixada santista, não sendo incomum encontrar pessoas mais velhas e conservadoras saudosas dos tempos de Paulo Maluf, em suma, apesar de tudo, ainda uma força política disputada por muitos, o que levou José Serra a irritar-se pela perda do apoio de Maluf.

No meio aos dois, está o candidato Fernando Haddad, ex-ministro da Educação de Lula e por quem o ex-presidente parece nutrir um afeto político especial.

Uma imposição

O que une Lula e Maluf na foto não é um projeto político ou ideologia, isso seria impossível. Há nos comentários políticos que circularam esta semana a menção a uma possível negativa em ceder a Companhia de Habitação do Estado de São Paulo ao partido de Maluf, o PP, que integra a base de apoio do governador Geraldo Alckmin, o que teria gerado insatisfação e, como consequência, cambiado o apoio ao PT. O pragmatismo na busca por tempo televisivo é bem provável, o que sem dúvida refletiria a atitude calculista típica que domina o meio político brasileiro.

Na tentativa de compreender o que une Lula e Maluf numa campanha, não é possível desprezar as idiossincrasias dos eleitores do PT e de Maluf, pois, em ambos, há uma rejeição recíproca, das quais as consequências da aliança ainda são imprevisíveis, tanto no eleitorado petista quanto malufista, embora seja bastante provável que os homens do marketing e analistas da campanha petista já tenham calculado os seus possíveis efeitos, mas talvez não tenham avaliado o desgaste que poderia ser causado por uma simples foto. Avaliar as consequências que a imagem de Lula, Maluf e Haddad pode ter produzido na disputa eleitoral é possível.

Talvez o primeiro efeito, qualquer que seja a opinião política do recetor, seja o espanto e a indignação. Antigos opositores, pertencentes a partidos com origens muito diferentes, com pouca ou nenhuma afinidade político-ideológica, abraçando-se alegres num belo jardim, como se fossem participar do casamento de alguma sobrinha. Alianças são celebradas em todas as disputas eleitorais, e, nestes tempos confusos em que vivemos, o companheiro de hoje torna-se o inimigo de amanhã e vice-versa, mas em geral são realizadas nos bastidores ou na calada da noite, depois de acordos e conchavos, muito diferente da exposição no caso da aliança PT-Maluf. Segundo a imprensa, a ida de Lula à mansão de Paulo Maluf teria sido uma imposição, sem a qual o deputado do PP não participaria da coligação de Haddad4.

Perda das esperanças

Nos editoriais e nas colunas dos comentaristas políticos dos grandes jornais paulistas e na internet, quase todos foram unânimes em rejeitar a aliança que se materializou na foto no jardim, alguns sobre os arroubos de “eles se merecem” ou de “o crime compensa”, esquecendo-se talvez que Paulo Maluf, na eleição de 2010, apoiou José Serra e, em 1998, a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, e em 2006 já havia apoiado Lula para a reeleição, sem direito a foto, ou que isso rendesse maior atenção ou repercussão nos média.

Embora seja pouco provável que a foto de Lula, Haddad e Maluf tivesse a intenção de trazer algum retorno político (na verdade seu potencial era mais catastrófico), a imagem acabou por atrair o foco e ganhar o espaço mediático necessário para dar visibilidade ao candidato Haddad, a repercussão teria sido outra se a aliança tivesse sido anunciada apenas numa nota ou informalmente. A imagem acabou rendendo e multiplicou-se pelos vários meios. Aguardemos as próximas sondagens de intenção de voto5 para saber qual será o efeito prático na opinião dos eleitores, que, em geral, não se preocupam com os programas de governo ou inclinações ideológicas, mas sim com a identificação que têm com o candidato, e nisso Maluf e Lula são hábeis, mestres daquela arte populista de possuir um eleitorado cativo. O difícil é saber se conseguirão transferir os seus votos para o ex-ministro e realizar a negociação simbólica entre as tendências e os valores políticos dos seus eleitores, tão diversos neste caso6.

O segundo efeito produzido pela foto foi percebido nas redes sociais, como o Facebook. Primeiramente, o tom também foi de espanto e indignação.

Mas, num segundo momento, o tom de chacota e crítica surgiu e a imagem Lula-Haddad-Maluf começou a surgir em novas versões produzidas com o software Photoshop. Uma delas trazia, no lugar de Maluf, o vilão de Guerra nas Estrelas, Darth Vader ou, ainda, numa versão criada pelo site de humor KibeLoco, Lula e Maluf abraçavam o capeta, que ocupava na imagem o lugar de Fernando Haddad. Manifestações criativas e inteligentes, carregadas de crítica.

Diz outro ditado popular que aquilo que os olhos não veem, o coração não sente. Na nossa sociedade mediática, dominada por imagens, esse velho ditado é muito preciso e poderia ser reescrito da seguinte forma “só sentimos aquilo que os olhos podem ver”, situação que se aplica perfeitamente ao caso da foto nos jardins da mansão de Maluf. Temos muito que nos questionar a respeito da atmosfera política em que vivemos, sobre o excessivo tom da realpolitik, que parece ser muito mais uma tentativa insana de se chegar ao poder do que qualquer outra coisa, e a repercussão gerada pela foto de Lula-Haddad-Maluf sirva talvez para mostrar que muitas vezes uma simples imagem, planeada ou não, diferente de um facto por si só, pode ser o acesso direto e crucial aos meios de comunicação e à possibilidade de avaliarmos as tendências ou opções, tanto dos políticos como dos média e, consequentemente, à maneira como tentam atingir o espectador/eleitor. E na política mediática, o acesso aos meios de comunicação equivale a existir, ainda que isso venha com o custo da desilusão política e da perda das últimas esperanças do cidadão.

Júlio Valério Neto é produtor audiovisual, de Andradas, Minas Gerais.

Retirado de Envolverde, este artigo foi publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.

1 Académico e político brasileiro, filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), foi ministro da Educação entre julho de 2005 e janeiro de 2012, nos governos de Lula e de Dilma Rousseff. É candidato à prefeitura (presidência da câmara) de S. Paulo.

2 Empresário, Maluf começou a carreira política nos anos mais duros da ditadura militar, sendo nomeado prefeito (presidente da câmara) de S. Paulo entre 1969 e 1971; em seguida, foi Secretário de Transportes do governo do estado de São Paulo entre 1971 e 1975, e governador do mesmo estado entre 1979 e 1982, sempre sob a ditadura militar. Foi o último candidato à Presidência do partido da ditadura militar em janeiro de 1985, tendo sido derrotado, no colégio eleitoral, depois do histórico movimento das Diretas Já, perdendo para Tancredo Neves. Criou o termo malufismo, e costumava dizer “malufar é trabalhar”. Ler mais sobre o currículo de Maluf adiante neste artigo. (Nota do Esquerda.net)

3 Assistente social e política brasileira, Erundina é deputada federal pelo estado de São Paulo pelo PSB. Ganhou notoriedade nacional quando foi eleita a primeira prefeita do PT em São Paulo, em 1988. Para substituí-la, assumiu a candidatura de vice Nádia Campeão, presidente do PCdoB estadual. O PcdoB tinha lançado para a prefeitura, em candidatura própria, o vereador Netinho de Paula, que desistiu para apoiar Haddad, alegando que polarização da eleição ajudou a convencer o PCdoB. (Nota do Esquerda.net)

4 Maluf escreveria, dias depois: “Quem mudou? O Lula assumiu em 2003 sob a desconfiança de que era um Fidel Castro brasileiro. Achava que ele tinha que ter estágio no governo brasileiro até para o povo se decepcionar com ele. Mas, da maneira que exerceu a Presidência, diria que ele está à minha direita. Eu, perto do Lula, sou comunista.
Eu não teria tanta vontade de defender os bancos e as multinacionais como ele defende. Quando ele tira imposto dos carros, tira da Volkswagen, da Ford, da Mercedes. Quando defende sistema bancário, defende quem? Os banqueiros.
Eu, Paulo Maluf, industrial, estou à esquerda do Lula. De modo que ele foi uma grata revelação do livre mercado, da livre iniciativa.” (Nota do Esquerda.net)

5 O apoio de Maluf a Fernando Haddad foi rejeitado por 62% dos eleitores paulistanos, de acordo com uma sondagem do instituto Datafolha. Quando a aliança foi avaliada por entrevistados ‘petistas’, a rejeição chegou a 64%. E 59% dos entrevistados declararam que não votam num candidato apoiado por Paulo Maluf. (Nota do Esquerda.net)

6 Sondagem do Datafolha nos dias 25 e 26 de junho após o anúncio do apoio de Paulo Maluf a Fernando Haddad revela que este baixou de 8% para 6% das intenções de voto. José Serra (PSDB) manteve a liderança com 31%, seguido de Celso Russomano (PRB) com 24%. A seguir, empatados com 6% cada: Fernando Haddad, Soninha (PPS), e Gabriel Chalita. Em seguida, Paulinho da Força (PDT), com 3% e Carlos Gianazzi (PSOL) com 1%. Os pré-candidatos Luiz Flávio Borges D’Urso (PTB) e Levy Fidelix (PRTB) não atingiram 1%. (Nota do Esquerda.net)