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Boulos: “Temos de construir uma frente ampla da esquerda pela democracia"

Entrevista a Guilherme Boulos sobre a situação política no Brasil e possíveis cenários para as eleições presidenciais de outubro. Por Ana Bárbara Pedrosa.
Guilherme Boulos: "A condenação e prisão do Lula tem o objetivo de o retirar do processo eleitoral", foto do seu facebook.
Guilherme Boulos: "A condenação e prisão do Lula tem o objetivo de o retirar do processo eleitoral", foto do seu facebook.

Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e pré-candidato presidencial pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), fala ao esquerda.net sobre as eleições que irão decorrer dentro de seis meses e as implicações da prisão de Lula da Silva para a esquerda brasileira. A entrevista pode ser lida aqui ou vista, em vídeo, em baixo.

Quais são os cenários possíveis de reconfiguração à esquerda?

A esquerda precisa de estar muito unida para defender a democracia. E, nesse caso, uma bandeira hoje muito importante é a bandeira da liberdade para Lula e de justiça por Marielle. Temos de construir uma frente ampla da esquerda nesse sentido. Ao mesmo tempo, a esquerda tem o desafio de apresentar um projeto de país. Tanto no processo eleitoral, que está sob circunstâncias muito delicadas, mas também para pensar o futuro.

Estamos na maior crise desde o fim da ditadura militar, o nosso sistema político está em ruínas e é preciso apresentar uma proposta de radicalização democrática

O desafio de reorganização e de reconfiguração da esquerda passa por ter muita unidade na democracia e por ter ousadia e capacidade de apresentar um projeto que enfrente o abismo da desigualdade social brasileira e, ao mesmo tempo, aprofunde a democracia. Estamos numa crise democrática, a maior crise desde o fim da ditadura militar no país, o nosso sistema político está em ruínas, falido, e é preciso apresentar uma proposta e um caminho de radicalização democrática, de aprofundamento democrático para o país.

Está a acontecer uma apropriação política dos meios jurídicos?

Historicamente, o poder económico capturou e sequestrou o Estado no Brasil. Agora, além do poder económico, o poder judiciário cumpre o mesmo papel. Diante da crise institucional, que foi agravada com o golpe parlamentar que derrubou a presidente Dilma e colocou no poder, de forma ilegítima, Michel Temer, o poder executivo não tem qualquer legitimidade, o poder legislativo está desmoralizado por uma série de denúncias de corrupção e o poder judiciário aproveitou-se deste vácuo institucional e foi assumindo funções tanto do poder executivo como do legislativo.

Tivemos, ao mesmo tempo, uma judicialização da política e uma politização da justiça, com juízes promotores a agirem como se fossem chefes de partidos políticos

Tivemos, ao mesmo tempo, uma judicialização da política e uma politização da justiça, com setores do poder judiciário, juízes promotores, a agirem como se fossem chefes de partidos políticos. A condenação de Lula é um caso emblemático disso. Lula foi condenado sem qualquer prova e condenaram-no e prenderam-no. Ao mesmo tempo, contra Michel Temer há provas de sobra, há gravações dele no Palácio a fazer acordos nem um pouco republicanos. Há malas de dinheiro de assessores diretos dele a negociarem com empresas, e ele está na presidência da República. Contra o Aécio Neves, que foi o adversário de Dilma na última eleição, há gravações categóricas dele a pedir dinheiro. Todo o país ouviu, teve repercussões internacionais, o Aécio a negociar dinheiro com o dono de uma grande empresa, e é senador federal. É evidente o papel político que setores do poder judiciário têm cumprido, em vários âmbitos. A condenação e prisão do Lula tem o objetivo de o retirar do processo eleitoral.

Neste momento, quais te parecem ser os piores e melhores cenários para estas presidenciais?

A pior possibilidade que nós temos hoje é continuar ladeira abaixo no retrocesso democrático e o Brasil acabar por ir por um caminho, como é o exemplo do México, da violência política, do assassinato e do extermínio de lideranças políticas se tornar quase uma prática quotidiana, e os militares reforçarem a tutela que já têm hoje sobre o Estado brasileiro.

O Brasil arrisca-se a que a violência política, o assassinato e o extermínio de lideranças políticas tornem uma prática quotidiana

Cada vez mais os militares têm tido um papel político ativo. Na véspera do julgamento do habeas corpus de Lula, o comandante do exército, através do Twitter - agora também se dá golpes pelo Twitter - manifestou-se de maneira categórica e ameaçadora, chantageando juízes do Supremo Tribunal. Esse cenário pode deteriorar-se ainda mais e levar a uma destruição completa do pouco que resta de democracia no Brasil. Esse é um cenário grave e isso exige de nós uma frente democrática contra a escalada fascista.

Temos um tipo, o Jair Bolsonaro, que está com bons resultados nas sondagens e que representa o fascismo, representa a mais completa intolerância política, o racismo, o machismo, a homofobia, a apologia da tortura, do estupro. É o que há de pior, uma escória, um criminoso, e isso precisa de ser enfrentado com uma frente pela democracia, antifascista, e pela liberdade de Lula.

Bolsonaro precisa de ser enfrentado com uma frente pela democracia, antifascista, e pela liberdade de Lula.

O melhor cenário é que o movimento social tenha força, que haja uma reação democrática no país, que essa reação signifique também a libertação de Lula, que tenhamos eleições livres e democráticas daqui a seis meses no Brasil, e que os setores que representam projetos à esquerda tenham a capacidade de ampliar a sua capilaridade, a disputa na sociedade e que consigamos fazer com que um projeto de transformação se vocalize e tenha expressão política neste processo eleitoral.


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