Na sessão de encerramento da conferência promovida pelo Bloco de Esquerda sobre “Agricultura e mundo rural - o futuro da Política Agrícola Comum (PAC)”, que decorreu neste domingo, o coordenador da comissão política do Bloco anunciou que o partido vai propor no parlamento que as grandes distribuidoras não possam pagar aos produtores abaixo do custo de produção. Francisco Louçã disse ainda que “também não poderá haver contratos sem se especificar os prazos de pagamento”, referindo que se trata de “um desafio direto a quem manda na economia do país” e citou os casos de Belmiro de Azevedo e Soares dos Santos, “que atuam em Portugal com os pseudónimos Continente e Pingo Doce, respetivamente”.
Francisco Louçã garantiu ainda que o Bloco voltará a apresentar a proposta para a criação de um banco de terras, lembrando que as pequenas explorações agrícolas mobilizam 50 por cento da produção e 90 por cento do emprego e que “as pequenas produções provam que são mais eficientes que as grandes explorações”. Para Louçã, é necessário mobilizar as terras paradas e que estão disponíveis, com a vantagem para os jovens agricultores, para os proprietários e para a produção nacional.
"Na União Europeia, em cada ano, deitamos foram 89 milhões de toneladas comida não utilizada"
A eurodeputada do Bloco, Marisa Matias, colocou em destaque os desperdícios na cadeia agrícola. “50 por cento da produção agrícola é deitada fora, vai parar ao lixo. Na União Europeia, em cada ano, deitamos foram 89 milhões de toneladas comida não utilizada numa Europa onde 79 milhões de cidadãos não têm acesso a alimentação suficiente”. A eurodeputada propôs a dupla etiquetagem dos produtos, contendo a data limite de venda e data limite de consumo para além de reduções de preços em produtos que se aproximam da data final de venda. “O desperdício está intimamente ligado com o mau funcionamento da cadeia agro-alimentar, concentrada e dominada pela grande indústria e que não funciona.
“Não se pode discutir a Política Agrícola Comum sem falar da distribuição”, defende, “estamos a falar de respostas aos problemas das pessoas”. Existe já a proibição de auto-cultivo de sementes próprias por parte de produtores nalgumas áreas que se vêm obrigados a compra-las às três empresas que dominam o mercado. “Não é este o tipo de resposta que queremos, tem que ser dada resposta a quem passa fome”.
Ao longo da conferência surgiu e foi discutida ainda a ideia de criação de uma Comissão Internacional contra a especulação nos preços agrícolas.
Redator do programa do PSD beneficia do "melhor part-time de Portugal": Cem mil euros por reunião
Segundo a agência Lusa, Francisco Louçã, referindo-se indiretamente às queixas de Cavaco sobre a sua reforma, afirmou: “Nos últimos dias sentimos que há dois portugais, um deles tão pequeno e tão poderoso, dos de cima, que se preocupa somente consigo próprio, de pessoas que só pensam em si”.
E, referindo-se à nomeação de Catroga para a presidência do Conselho de Supervisão da EDP, salientou: “Nestes dias, já assistimos ao redator do programa económico do partido que ganhou as eleições [o PSD] beneficiar do melhor part-time de Portugal: Cem mil euros por reunião e 700 mil euros por ano, vá ou não vá à sua reunião. Sucessivamente, outras declarações foram demonstrando que quem tem hoje o poder, quem está em cima nesta sociedade, nada se preocupa com os que estão em baixo”.
O coordenador da comissão política do Bloco criticou ainda Passos Coelho: "O primeiro-ministro, com aquele tom afável que o carateriza, virou-se para os representantes da troika, funcionários de segunda ordem do Banco Central Europeu (BCE), da Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional (FMI), e disse-lhes: Não estamos aqui por vós, senhores da troika, estamos aqui por nós. Mas o que verificamos na economia portuguesa e no primeiro-ministro é que há uma proteção da oligarquia económica que vive do privilégio e que, por isso, acentua a austeridade e a recessão”.