Bloco - A oposição ao medo

05 de julho 2011 - 0:04

Contributo de Pedro Rodrigues

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Treze anos após o nascimento do Bloco de Esquerda sobressaltamo-nos e mobilizamo-nos para discutir o futuro. Não que já não o tivéssemos feito em anteriores ocasiões, como nas convenções, mas nunca de uma forma tão ampla e transversal por parte da militância política do Bloco.

Não que nada de substancial tenha mudado nos últimos anos mas, porque num quadro e num ciclo político complexo, algumas das fragilidades do Bloco tenham sido postas a nu. Algumas delas expu-las quando achei necessário escrever um texto à Convenção de 2009 em que apresentei uma candidatura a delegado numa Plataforma Independente pelo distrito de Aveiro.

Hoje é comummente aceite por todos e todas as camaradas a existência de erros que influenciaram os resultados eleitorais nas últimas eleições legislativas. Neste momento, em minha opinião, não interessa muito saber quais os mais relevantes, até porque essa avaliação não é consensual; também neste caso tenho a opinião que algumas decisões eram inevitáveis (como o apoio a Alegre) e que outras, a serem tomadas, deveriam tê-lo sido de outra forma, como no caso da moção de censura, a não ida à reunião com a Troika e mesmo a reunião com o PCP.

A questão central não são estas decisões, elas são apenas a face visível do problema. O que penso ser mais interessante relevante para o debate são as deficiências, do ponto de vista procedimental e orgânico, na discussão e tomada de decisão política dentro do Bloco.

Do ponto de vista procedimental, tanto na decisão política de apoiar a candidatura presidencial como na apresentação da moção de censura, existe um denominador comum: a subalternidade e a invisibilidade da Mesa Nacional. Se no primeiro caso a decisão política apenas devesse ter sido anunciada após aprovação pelo órgão (coisa que não foi), no segundo caso, apesar de não ser absolutamente necessário a decisão da Mesa (que se realizou no fim de semana anterior à apresentação da moção de censura e, que culminou com declarações contraditórias face aos desenvolvimentos posteriores), esta poderia e deveria ter servido para debater a forma de como ganhar iniciativa política e organizar a luta também no quadro parlamentar. Não era necessário decidir tudo, mas reflectir colectivamente sobre questões prementes e actuais da altura. Sondava-se.

Portanto, o órgão máximo entre convenções para nada serviu, abrindo brechas internas desnecessárias mas, no entanto, justificadas.

Por outro lado iniciou-se um processo de imperceptibilidade da prática e acção políticas por grande parte dos militantes, aderentes, simpatizantes e eleitorado do Bloco, devido às manobras e contra manobras tacticistas (uma espécie de navegação à vista) que existiram até às eleições.

Se os resultados eleitorais não estiveram perto dos que queríamos e necessitávamos tendo em conta os actuais desafios e constrangimentos que a luta social e política se deparam no actual quadro (um refluxo na contestação social e na percepção política do estado do país que só começará a inverter-se quando a dificuldade e a necessidade forem superiores ao medo), é o que temos e é também sobre os quais que temos que reflectir e intervir.

Sabemos que não somos um partido com uma base social numericamente ampla e alargada geograficamente, no entanto, consolidámos uma militância que nos proporciona pensar que temos base para lançar as lutas do futuro, e isso demonstrou-se na boa campanha eleitoral que fizemos, o problema foi o lastro da dinâmica de perda que trazíamos e que a campanha (ainda por cima nas condições dificílimas que foi feita) não foi capaz de inverter.

Portanto, que fazer?

Em primeiro lugar definir uma estratégia e um caminho, e isso faz-se discutindo ideologia (à esquerda somos os últimos a ter receio em utilizar a palavra) política e políticas. A clarificação surge daqui, relegando para o esotérico e pouco relevante a discussão sobre ser-se apêndice de alguém. Só se é apêndice quando não se tem corpo. E nós temo-lo.

Se tivesse que ter uma definição para o Bloco seria algo muito parecido com isto “Assumidamente uma força aglutinadora de correntes anticapitalistas. O Bloco define-se cada vez mais como um projecto socialista centrando a sua acção política nas pessoas, o que implica alguns pressupostos chave: a intransigente defesa dos serviços públicos, dos direitos dos trabalhadores, do direito ao emprego, no desmantelamento do modelo económico rentista, subsídio-dependente, especulador e corrupto, na solidariedade geracional e intergeracional como factor de sustentabilidade de uma sociedade igualitária e em toda uma nova arquitectura de relação recíproca e responsável entre a pessoa humana e o meio ambiente.” Escrevi-o em 2009 e acho que permanece inteligível e actual.

Já do ponto de vista da política e acção política, verificámos o quão expostos estamos ao sermos um partido de eleitores, portanto alargar a base social é condição sine qua non para o sucesso da ajuda à construção de uma maioria social. Faz-se estando presente nos movimentos sociais, não os aprisionando, bem pelo contrário, dando espaço para que eles respirem, cresçam e tenham relevo na sociedade pelos temas que põem em cima da mesa, mas, simultaneamente, transportar para estes a sua inserção e efectividade no debate politico. Politizá-los é uma prioridade e não os deixar cair na demagogia da abstenção, do voto em branco, da anti-política ou em epifenómenos que pela inconsequência ou pela singularidade temporal levam a uma maior descrença de que nada vai mudar, urgente.

Isto na nossa acção fora do Bloco; já internamente teremos que mudar algumas coisas.

Formas pró-activas de discussão política dentro do Bloco têm que ser uma realidade, não só para criar um maior conhecimento, envolvência e camaradagem entre os aderentes, militantes e simpatizantes, mas para criar rotinas, grupos de trabalho, uma coisa importantíssima que são as agendas locais, sendo que algumas delas são concomitantes nos vários concelhos do mesmo distrito, criando e promovendo uma maior autonomia (sim, uma maior autonomia) para que os militantes, aderentes e simpatizantes consigam e realizem a sua acção política de uma forma recorrente e quotidiana sem necessitarem de esperar pela próxima reunião da estrutura e, por fim, para que o Bloco seja visto como um interlocutor por excelência para todos e todas, aqueles e aquelas que se preocupam e manifestam em defesa do bem público e que se possam ver como actores na denúncia e solução.

Claro que todos sabemos que o problema da militância e envolvência política é um problema geral dentro do universo Bloco mas, como noutros momentos da vida política nacional, temos que ter políticas e abordagens pró-activas face aos problemas e ao desafio que é a inserção de grupos de pessoas na vida política (o caso da lei da paridade); como neste caso é impossível decretar (e ainda bem) a presença e o activismo, só nos resta promovê-lo e alargá-lo ao maior número de pessoas.

Aqui o imobilismo é o nosso maior inimigo. À atitude que espera que sejam as pessoas a aproximarem-se e ao esperar pelos acontecimentos propiciadores da abordagem política chamo conservadorismo na acção política e política de baixa intensidade.

Também estas são palavras de 2009, mas neste momento urge-me dizer alguma coisa para que isto seja exequível.

O Bloco tem que se reabrir, ou melhor não se enclausurar. Os Bloquistas (e não utilizo o termo por acaso) têm que perceber e contribuir para o debate, na tomada de decisão e construção do partido, não podendo apenas tomar conhecimento de decisões importantes pelos jornais ou pela televisão e conhecer as suas explicações passado um mês ou dois numa assembleia distrital. Uma base social constrói-se, alarga-se e consolida-se envolvendo a base e pondo-a a participar, não o inverso. Aí as estruturas regionais terão uma responsabilidade acrescida.

Sobre as políticas.

O aparecimento do Bloco constituiu um enorme foco de esperança, que se traduzia não só numa outra forma de fazer política mas sobretudo na necessidade de uma alternativa à esquerda, no pólo social e partidário. E não defraudou. O Bloco cresceu apresentando e incorporando posições sobre questões concretas do quotidiano (aquilo que genericamente se chama costumes ou causas fracturantes), mas também nas convergências que conseguiu na oposição à guerra, na denúncia de casos, pessoas e organizações concretas que fazem da corrupção um estilo e padrão de vida, na dinâmica de alargamento à participação de independentes (por vezes com maus resultados, como agora constatamos, mas isso também é a vida, e se calhar há mais bons que maus exemplos). Por fim – e, porventura, o mais importante - o Bloco não falhava, até podia ser visto como “radical” mas era comummente aceite que onde estavam as pessoas, o Bloco estava lá: não se vendia à partidarite, onde aí são todos iguais.

Hoje partimos de um patamar diferente, não porque o que disse no parágrafo anterior deixe de ser verdade mas, sobretudo, porque fomos derrotados numa batalha importantíssima que foi a não recusa do “inevitável” memorando da Troika. Fomos portadores de uma proposta política que para já foi derrotada pelo medo. E é aqui que teremos que intervir novamente. Provavelmente de tudo o que disse até agora será aqui que muito se joga. Daqui a três anos não sabemos se vamos estar ou não no euro, não sabemos se teremos 15% ou 25% de desempregados, não sabemos se vamos ter três ou três milhões e meio de pobres, não sabemos, mas sabemos que vamos estar pior, muito pior. Portanto, ou a revolta social cresce de forma incontrolável, o que em alguns casos pode ser contraproducente, ou então está enquadrada num amplo quadro de manifestação de ruptura que se concerta socialmente com todos e todas que estão nesta situação. Temos que tentar por todos os meios colectivizar o protesto. Aqui será o movimento sindical a ter que encontrar formas de unificar lutas transnacionais no plano Europeu, com dias e acções concertadas, para que as pessoas se possam rever num amplo projecto colectivo de exigência, renúncia e mudança. Mas também aqui o Bloco deverá tentar ter um papel fundamental; é difícil mas tem que tentar. A convergência com o PCP na luta social interna não só é possível como fundamental, mas desenvolver, dialogar e concertar estratégias com forças políticas Europeias através de fóruns alargados com visibilidade (e com certeza que em diversos países europeus existirão forças políticas disponíveis para isso) que corporizem uma ampla frente política de resistência e transformação.

Quer queiramos quer não, a política para a grande massa da população é, na maior parte das vezes, percepcionada, não é compreendida, e as nossas decisões colectivas mais difíceis são feitas a partir desse pressuposto desconhecido (é triste é, mas é assim).

No actual momento, o pensamento dominante já não vence pelo bem estar, pelo modelo social europeu, pela paz, pela inclusão, pela democracia; não, neste momento vence pelo medo. Pelo medo das pessoas perderem o emprego, o salário, de não poderem pagar as contas, de perderem a casa, de serem atiradas para a pobreza; pelo medo de ter um filho e não saber como se vai proporcionar o futuro. Solução deles: ditadura financeira.

O medo, é este o inimigo; um projecto alternativo só será efectivo quando percepcionar e induzir esperança, uma luz ao fundo do túnel, funcionarem como resposta aos anseios da população.

Em 2008, com a crise financeira, todos nós, a esquerda política e social (no mundo em geral), ficámos a assistir de “cátedra” à espera que tudo se desmoronasse por si só. Não porque o quiséssemos mas porque não estávamos preparados, e, neste momento, após todos pagarmos por esse mundo fora a “solvência” do sistema, responsabilizam-nos pelos gastos que fizemos.

Já disseram que vivemos acima das nossas possibilidades, para tudo legitimar.

Na tomada de posse de governo o Passos Coelho dizia “não podemos falhar, não vamos falhar”.

Amanhã irão culpar-nos de quê?

Para nós falhar é morrer.