Bloco, logo penso

01 de julho 2011 - 0:10

Contributo de Nuno Casimiro

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Sou eleitor do BE desde o seu início, que me apanhou mais ou menos nas primeiras eleições em que pude votar.

O BE materializava uma forma distinta de organizar partidos e era assumidamente um espaço onde se podia discutir. Para além disso, defendia umas ideias muito simpáticas e justas. Era, em resumo, civilizado, moderno e sério. E, embora pareça continuar a sê-lo, à medida que foi crescendo o número de votos, uma parte dos bloquistas e do seu discurso (nas diferentes plataformas em que aparece) transformou-se em bloqueiros, no sentido em que o BE se profissionalizou como partido. Não há mal nisso. Aliás, o banqueiro anarquista prova bem que para se fazer alguma coisa é necessário misturar-se com os maus, usar-lhes a roupa e os hábitos, ser o pior de todos. O BE não fez exactamente isso e, provavelmente, sofre também por aí, por não se ter transformado em mais um, mas também não ter conseguido preservar uma imagem de absoluta distinção face aos demais. Chegámos então ao grande desaire das últimas eleições depois da grande euforia que foi o resultado anterior. Estou em crer que esta derrota começou exactamente nessa penúltima noite eleitoral ou nas suas redondezas, no momento em que o Francisco Louçã assumiu claramente que o BE não seria solução de governo e se manteria "apenas" como a consciência crítica e o dedo acusador. Embora fazendo propostas construtivas e concessões inevitáveis, a partir desse momento, o BE passou ao papel exclusivo de velhote dos Marretas, aqueles dois bonecos que se sentam no primeiro balcão para o vilipêndio tranquilo de quem jamais se sujará subindo ao palco. Sendo certo que com os resultados dessas eleições, e em virtude do estado da arte no PS, o BE não teria mais opções ao longo da legislatura do que continuar a defender sozinho as suas ideias, mostrando-se alerta para o que de mal se iria entretanto verificar, a recusa prévia para a conversa (que se repetiu com a famosa reunião com a troika) baptizou o BE dos últimos 2 anos, por muito que a realidade até possa ser diferente ou, pelo menos, tenha condicionantes importantes e para as quais ninguém olha.

Ao mesmo tempo, como nos bons velhos tempos, esperava-se do BE que mantivesse a reflexão e o espírito crítico dentro e fora do parlamento, associando-se a tudo o que da sociedade civil emanasse e pudesse enriquecer a luta (não nos equivoquemos: a democracia é uma luta. E é permanente).

Acho que relativamente a esta parte, as coisas até não correram mal, e o BE conseguiu desenvolver um trabalho amplo e muito competente na AR, prestando contas e implicando os principais interessados e destinatários finais das políticas defendidas. Pese embora a qualidade desse trabalho, o rótulo de "radical" ficou tatuado desde muito antes e os verdadeiros radicais - os do ataque sem freio à sociedade e ao estado - são considerados renovadores, gente corajosa que implementa as "reformas necessárias".

Pessoalmente, esperava que o BE pudesse ter demonstrado no parlamento que é mais do que um partido, que poderia ser aí o braço burocrático de um movimento mais amplo que se revê e conta de alguma forma com o grupo parlamentar. Seria sempre uma tarefa difícil e ainda mais com os companheiros (teoricamente) de esquerda PCP e PS. Mas a ideia que passou, lá está, foi a de que as convergências foram sempre forçadas e mal assumidas.

A recusa pública e prévia de aproximação ao socretinismo traduziu-se numa posição de força que, na prática, só poderia tomar-se se o partido tivesse deputados suficientes para contestar decisões do governo. E, mesmo assim, soaria a empertigado. O tempo apenas demonstrou que o socretinismo era de facto uma corrente sem pontos de contacto com a esquerda mas, uma vez mais, a imagem que ficou é a de que não tinham interlocutores válidos à esquerda.

Quanto à tão desejada colaboração séria com o PCP, imagino como seria difícil tal coisa, dada a estrutura ultra profissional e ao mesmo tempo expansionista e esclerosada do PC enquanto partido. As reacções deste aos resultados das eleições de Junho são lamentáveis e claras a este respeito.

Mas o caminho foi-se fazendo, transparecendo a ideia de que só nas vésperas do último domingo eleitoral é que foi possível esse encontro forçadíssimo entre as direcções de ambos os partidos.

O que fica desta legislatura são dois ou três momentos penosos que apagam o trabalho mais que meritório do grupo parlamentar na AR e de toda a estrutura do BE fora dela. Falo, evidentemente e sobretudo, do apoio ao Manuel Alegre e do anúncio da moção de censura (não da moção, propriamente dita). Relativamente ao primeiro, o lado de opção estratégica quase se consegue disfarçar, mas relativamente ao segundo - ou melhor, à forma como se aplicou o segundo - já é mais difícil. Isto é, a moção fazia todo o sentido, estava bem sustentada e era o que havia a fazer. Mas nunca da forma como foi feita. Nunca sem o acordo prévio com o PCP (que até tinha aparentemente levantado o tema de forma suave) que posteriormente pensou se apresentaria uma moção "sua". E nunca com o aspecto de performance para mostrar que eram mais do que os velhotes dos Marretas, indo mais longe que o apupo e atirando uns legumes aos comediantes ao mesmo tempo que mantinham a imagem de quem jamais subirá ao palco. Tanto assim foi, que até se disse aos deputados do PSD - os que podiam viabilizar a moção – que também eles estavam no barco dos censurados (o que, sendo verdade, não parece ter grande sentido na circunstância do anúncio).

Falamos portanto, de estratégia: o BE foi fazendo maioritariamente as coisas justas, mas apresentando-as mal ou, no caso do apoio a Manuel Alegre, fazendo algo sem sentido (Alegre, enquanto deputado, poucas vezes demonstrou ser de esquerda ou merecedor de confiança como presidente). E a questão primordial mantém-se: sendo certo que é impossível procurar falar de esquerda com socretinos, não é intelectualmente sério nem politicamente objectivo partir do princípio da recusa. Exactamente o mesmo que se passou com a ausência da reunião

com os capatazes do BCE, CE e FMI.

Posto isto, que fazer?

Desde logo, parece-me importante que a pressão interior e exterior subsequentes aos últimos resultados eleitorais não suponham enveredar por um cego afã de modificações sem sentido. Há um notável trabalho realizado nos últimos anos que não pode estar à mercê de resultados eleitorais. Dito isto, deixo 4 aspectos que julgo relevantes para evitar os erros cometidos e melhorar a intervenção. Outros âmbitos mereceriam destaque e, sobretudo, um olhar atento ao que é hoje o voto de protesto para se perceber até que ponto o BE oferece uma resposta aos desafios da sociedade contemporânea. Não obstante, esse é um diálogo para outras muitas páginas. Para já, 4 trilhos mais ou menos pessoais:

1. Dentro do BE (sobretudo as estruturas que dão a cara pelas decisões) tem de se assumir que há duas esferas que não se tocam: a realidade e a imagem que é transmitida para / absorvida pelos cidadãos. Assumindo isso, pode-se gerir de forma bem mais profissional o que se diz do BE. Por exemplo, pode-se evitar malentendidos, reduzir comentários indelicados e que estão mesmo a pedir para ser truncados e usados como slogan, etc.

Importaria, sobretudo, que a pluralidade e liberdade de discussão não fossem usadas pela comunicação social como sinónimos de fragilidade. Ao mesmo tempo, não se pode optar por um caminho típico de determinados comités centrais, por exemplo, aprovando a apresentação de uma moção de censura que parece ter sido contestada por parte significativa do partido, invocando que foram seguidos os preceitos estatutários. O bom senso deve prevalecer sobre as possibilidades estatutárias e uma moção de censura não pode ser decidida por uma minoria de representantes de um partido. No caso concreto, esta parece ter sido a ideia que passou para os cidadãos e, em particular, para os eleitores do BE. Outros poderíamos evocar, mas este parece-me sem dúvida o mais marcante na trajectória dos últimos dois anos.

2. Conscientes então de que há o trabalho de pensar e agir, por um lado, e o outro labor que consiste em conseguir que a comunicação social em geral aborde as questões de forma não prejudicial ao BE, há que definitivamente mudar a imagem de relutância face ao poder. O BE fez toda uma campanha voltada para a apresentação de alternativas ao futuro a que nos condenam, depois de dois anos a propôr caminhos diferentes na AR, e continua a aparecer como deliberadamente de fora. O BE não pode ser bengala de ninguém, mas não pode ser visto como dizendo "eu agora vou-me sentar aqui neste canto e dizer-vos o que estão a fazer mal e como é que deveriam fazer". Essa superioridade moral irrita e é contraproducente.

3. Associado a este problema, vem o combate fundamental por uma informação séria.

O Esquerda.net serve como fonte de informação mas é utilizado por "convertidos" e não é um órgão de informação. É preciso, cada vez mais, reagir contra a informação mainstream e os comentadores encartados. Por cada mentira ou leitura truncada que se publica em blogues, se difunde em jornais, rádios e televisões, alguém deverá confrontar o(s) autore(s) com os factos. Pode recorrer-se aos direitos de resposta, no caso de actividades directamente relacionadas com o partido e os seus elementos, comprando mais uns capítulos de guerra com a imprensa, mas também se pode divulgar os e-mails de quem diz asneiras, fomentar a iniciativa individual de perguntar "como disse?". Todos quantos fazem parte da base social de apoio do BE podem e devem perceber que a cidadania praticante passa por confrontar directamente deputados, jornalistas, etc., com as posições que adoptam.

4. Em termos de temáticas, diria que há duas linhas infelizmente quase completamente ignoradas: a Europa/União Europeia e a emigração. As razões para isso podem prender-se com a falta de interlocutores, esperadas acusações de oportunismo e outras, mas são dois aspectos que têm de ser introduzidos na reflexão. Por um lado, qualquer intervenção a nível nacional, seja em que domínio for, não pode ser pensada sem o enquadramento da UE. E aqui seria fundamental que a exigência de uma UE mais democrática e próxima dos cidadãos fosse institucionalizada. Não há nenhum partido que seja identificado com esse esforço e as discussões resumem-se à classificação como europeísta ou anti-europeísta.

Por outro lado, cerca de 30% dos cidadãos com nacionalidade portuguesa vive fora do território português e apenas existe quando se discute o seu peso nas eleições. Ora, estes quase 5 milhões de pessoas representam uma massa crítica e um valor económico impressionantes que, no presente global e ERASMUSado, têm de ser forçosamente integrados na vida (política) do país.

Nuno Casimiro