Birras e nervos em franja atormentam Conselho Europeu

23 de outubro 2011 - 13:16

Birras, zangas, nervos em franja, pessimismo a rodos – os mais influentes dirigentes europeus, os seus mais directos colaboradores e além disso o FMI, o BCE e a Comissão não conseguem entender-se para o Conselho Europeu deste domingo.

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É quase certo que a reunião não será decisiva, tais as dificuldades ainda pendentes entre os principais decisores, prevendo-se que uma nova tentativa para evitar o fiasco decorra na quarta-feira, provavelmente resumida à Europa "que manda" - eixo Berlim-Paris, por ora desavindo.

O cenário é descrito de maneira praticamente coincidente por vários jornais europeus, principalmente franceses e alemães, a partir de dados obtidos das reuniões de bastidores que se realizaram em Frankfurt por ocasião da pomposa cerimónia para despedida de Jean-Claude Trichet como presidente do Banco Central Europeu. Reuniões que prosseguem entretanto a vários níveis enquanto os “ministérios das Finanças arrancam os cabelos porque os problemas jurídicos são numerosos”, segundo um negociador citado pelo francês Le Monde.

Sarkozy e Merkel estão mesmo de costas viradas, quebrando por ora o eixo em que assentam as principais decisões da União Europeia relacionadas com a crise. Sarkozy só foi a Frankfurt no fim da cerimónia de homenagem a Trichet, porque “não queria ser visto a beber champanhe com os banqueiros” (Le Monde) e depois na reunião, ao contrário do que é costume, falou em francês, a senhora Merkel em alemão – antes de se sumir intempestivamente por uma porta – a senhora Lagarde do FMI em inglês, tal como Trichet e o seu sucessor, o italiano Mário Dragui.

Em causa no Conselho Europeu está o futuro do euro e os desentendimentos, conhecidos já genericamente como “uma cacofonia”, abundam sobre todos os temas principais: o reforço do Fundo de Estabilização Europeia, a recapitalização dos bancos, os envolvimentos do BCE nestas questões. “Foi mais uma reunião de planeamento do que de negociações”, explica-se do lado francês; tratou-se de definir a ordem do dia em função da reunião a 27 no domingo de manhã, e da Zona Euro, no domingo à tarde, diz-se do lado alemão.

A garantia aos empréstimos dos países em dificuldades com as dívidas soberanas ainda não foi aceite pela Alemanha, nem mesmo no caso da Grécia, apesar de ser este tema “a opção central a salvaguardar” para que o Conselho Europeu não seja um fiasco, segundo um negociador francês. A Alemanha e  Trichet não querem o envolvimento do BCE no reforço do Fundo de Estabilização Financeira, ao contrário de Sarkozy. A Comissão Europeia e o FMI não se entendem sobre o que fazer com a dívida grega, deixando a troika sem estratégia. Em volta, os banqueiros movem-se contra os nove por cento de capitais próprios que lhes poderão vir a ser impostos. Em relação à dívida grega, recorda o eurodeputado Miguel portas, "em Julho os bancos perdiam 21 por cento; agora, a Zona Euro vai pedir aos credores da Grécia uma perda de 'pelo menos 50% do valor da dívida do país, que em caso contrário fica ameaçado de bancarrota'. Se isto, aliado ao aumento do período de carência, das maturidades e à baixa das taxas de juro não é uma reestruturação da dívida, vou ali e já volto... O drama é que ela não trava a contrapartida em austeridade", sublinha Miguel Portas.

Quinta-feira estiveram reunidos em Bruxelas os directores dos Tesouros; sexta-feira foi a vez dos ministros das Finanças; sábado à noite, Nicholas Sarkozy e a senhora Merkel voltam a encontrar-se em Bruxelas, à margem de um jantar do Partido Popular Europeu. E no entanto a cacofonia continua.

Faltam quatro dias “para salvar o  Euro”, escrevia o Le Monde na quarta-feira, “tudo tem que estar pronto no domingo”, acrescentava citando um negociador” e a situação “está longe do acordo global pretendido por Sarkozy “para tranquilizar os mercados”. A meta já não é, contudo, o domingo - foi transferida para quarta-feira. É a Europa "enovelada em si própria", comenta um diplomata em Bruxelas, "pouco receptiva e confiante às promessas de apoio de Obama porque sabe que do lado de lado do Atlântico as coisas estão mais para piorar do que para melhorar".

 


Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu.