O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, anunciou ao presidente da República de Itália, Giorgio Napolitano, que porá o seu cargo à disposição do presidente após a aprovação do pacote de medidas de austeridade, impostas pela União Europeia. A votação dessas medidas no parlamento poderá demorar ainda cerca de um mês.
Berlusconi tomou a decisão após a votação parlamentar das Contas do Estado de 2010. em que 308 deputados votaram favoravelmente e 321 não votaram, confirmando que o primeiro-ministro italiano tinha perdido a maioria no parlamento.
Segundo o comunicado da presidência da República de Itália, Berlusconi expressou a Napolitano “grande preocupação pela urgente necessidade de dar respostas pontuais às expectativas dos parceiros europeus com a aprovação do orçamento para 2012, oportunamente emendado seguindo as observações e propostas da União Europeia. Uma vez cumprido este trâmite, o presidente do Governo porá o seu cargo à disposição do chefe do Estado”.
De acordo com alguns analistas, Berlusconi tentará manter-se no poder. Durante o debate parlamentar, Il Cavalieri escreveu num papel “8 traidores” e murmurou à saída: “Traíram-me, para onde querem ir?”. Carmelo Lopapa, jornalista parlamentar do jornal “La Repubblica”, considera: “Ele está seguro que pode recuperar a maioria do Congresso. Dos oito que falharam hoje, um estava na casa de banho, outro hospitalizado e um outro em prisão domiciliária. Os outros cinco podem ser convencidos, segundo parece pensar”.
As medidas de austeridade impostas pela UE serão votadas sob a forma de uma emenda ao orçamento de Estado e já foram aprovadas pelo Governo, mas ainda não são publicamente conhecidas em detalhe. Em princípio, nesta quarta feira o Governo apresentá-las-á ao Senado, que deverá votá-las na próxima semana. Após a votação no Senado, se forem aprovadas, as medidas deverão seguir para o parlamento, prevendo-se que só em Dezembro sejam votadas.
Porém, as dificuldades de Berlusconi para voltar atrás na promessa de demissão serão grandes, uma vez que as medidas serão, muito provavelmente, extremamente negativas para o povo italiano e a sua maioria encontra-se bastante dividida, tanto mais que o líder da Liga Norte, Umberto Bossi, pediu-lhe que se demita e que seja substituído pelo ex-ministro da Justiça, Angelino Alfano, também do partido de Berlusconi (Povo da Liberdade).
Oposição parlamentar não defende eleições antecipadas
O mais espantoso, ou talvez não, parece ser a atitude da oposição parlamentar, que não pede eleições antecipadas. Nos média é defendida a hipótese de um Governo “técnico de transição” liderado por uma “figura de indiscutível prestígio nacional e internacional”. Romano Prodi, antigo primeiro-ministro, lançou a ideia da constituição de um Governo com estas características, chefiado por Mário Monti, economista, presidente da Universidade Bocconi de Milão e que foi comissário europeu da concorrência e do mercado interno entre 1995 e 2004. “Monti é o único que nos pode salvar”, declarou Prodi.
Segundo o jornal espanhol “El Pais”, Uma solução deste tipo poderia ser apoiada pelo Partido Democrático, pelo partido “Itália dos Valores”, assim como pelo actual partido de Gianfranco Fini “Futuro e Liberdade”.
Pierluigi Bersani, líder do Partido Democrático, no discurso que fez no parlamento, exigiu a demissão a Berlusconi e pediu-lhe: “Entregue o cargo ao presidente da República, diga-lhe que tente formar outro Governo no parlamento”.
Eleições antecipadas são defendidas pela Federação das Esquerdas e pelo partido “Esquerda Ecologia e Liberdade”, que também apela ao Partido Democrático e à oposição pela realização de primárias.
A central sindical CGIL defende a demissão do Governo e uma mudança política e social e está a convocar uma manifestação nacional para 3 de Dezembro contra as “condições dramáticas das trabalhadoras e dos trabalhadores, pelo futuro do trabalho e dos jovens”, contra o trabalho precário, pelo “trabalho estável, digno e seguro”.
Juros próximos de 7% e missão da UE chega a Itália
Os juros da dívida italiana continuam a subir nos mercados financeiros, aproximando-se muito dos 7%.
Favorecendo esta subida e a especulação financeira, Olli Rehn, comissário europeu dos Assuntos Económicos e Monetários, declarou esta terça feira, no final de uma reunião do Ecofin, que “a situação de Itália é muito preocupante” e anunciou a partida para Roma de uma missão europeia que, já nesta quarta feira irá começar a “monitorizar” com o governo italiano o programa de austeridade.