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“Banca deve fazer a sua parte para manter emprego”

Em entrevista à RTP, Catarina Martins falou do momento difícil que atravessamos, elogiou o esforço incansável dos profissionais de saúde e de muitos outros trabalhadores. Apresentando propostas concretas, frisou que é preciso “não deixar que se perca emprego, salário e rendimento das famílias”.
Catarina Martins foi entrevista pelo jornalista Carlos Daniel, para a RTP - Foto esquerda.net

Catarina Martins foi entrevistada este domingo pelo jornalista Carlos Daniel para a RTP1. Tendo-se concentrado toda a entrevista no momento que vivemos e na resposta a essa situação.

“Estamos a viver um momento de enorme tensão, muito difícil e não sabemos quanto tempo vai demorar”, começou por salientar a coordenadora do Bloco de Esquerda, apontando que os “profissionais de saúde têm sido incansáveis” e que “temos de confiar no que estão a fazer as autoridades de saúde”. Elogiou também a atitude do povo português, em geral.

Três medidas do ponto de vista sanitário

Catarina Martins destacou três medidas que são essenciais do ponto de vista da saúde:

1. “Garantir que o SNS tem todas as condições de que precisa”;

2. Capacidade, “que temos”, de pôr setores privados a contribuir no esforço do SNS, tanto instalações, hospitais privados e até indústria (alimentos, transporte, energia…). “Para isso é que é o estado de emergência”, frisou.

3. “Equipamentos de proteção”, apontando que são precisos mais equipamentos, sendo necessário procurar mais e mesmo produzi-los.

Principal preocupação tem de ser proteger o emprego”

Questionada sobre se o pacote económico do governo é curto, a coordenadora considerou que é, pois em comparação com pacotes aprovados por outros países “está aquém em percentagem do PIB”.

Sublinhando que “devemos fazer mais” e, sobretudo, que “precisamos de saber o que estamos a fazer e porquê”, Catarina Martins apontou que “a principal preocupação tem de ser proteger o emprego” e denunciou uma vaga de despedimentos que está neste momento a ocorrer em Portugal.

“Na verdade, estamos a assistir a uma onda de despedimentos em Portugal, nomeadamente trabalhadores precários, de pessoas que ficaram de um momento para o outro sem nada, trabalhadores com contratos a prazo não renovados, trabalhadores temporários, recibos verdes”, denunciou e reafirmou que o Bloco defende que “todos os apoios do Estado, não só o acesso a linhas de crédito, mas também os apoios de deferimento fiscal, de lay-off simplificado, (...) todos [os apoios às empresas] têm que ter como contrapartida que não haja despedimentos”.

“Todos os contratos têm de ser prolongados durante a crise”, incluindo os trabalhadores nas mais variadas situações de precariedade, defendeu.

Sistema financeiro não pode ficar apenas como intermediário do crédito”

A coordenadora bloquista sublinhou depois que o “Estado tem de apoiar” a economia e que as “empresas têm de fazer a sua parte”.

“É preciso garantir que a Segurança Social tem capacidade de responder” afirmou, sublinhando que é necessário fazer “transferências do Estado para a Segurança Social”, um orçamento retificativo “para garantir que a sustentabilidade não é posta em causa” e “garantir mais apoios na economia.

Catarina Martins alertou que há setores que provocam um grande custo na despesa das empresas e que “têm de ser chamados a contribuir”, destacando três casos: os custos da energia, que “têm de baixar e de baixar fortemente”; as rendas e a banca.

“O sistema financeiro não pode ficar apenas como intermediário do crédito” frisou, apontando que “está na altura da banca dar também alguma coisa à economia”.

“Nós, Bloco de Esquerda, temos toda a solidariedade com o governo, sabemos que este é um momento difícil, mas pergunto-me como pode ser mais fácil dizer à restauração que tem de encerrar, a tantos setores da economia que têm de parar, do que dizer à banca: têm de fazer a vossa parte”, questionou.

“Se não impusermos regras ao sistema financeiro, a economia não vai ter capacidade de manter o emprego”, afirmou, apontando que “há empresas e empresários que estão a fazer tudo para manter o emprego”, mas também “há grandes empresas que a primeira coisa que fizeram foi despedir”.

A coordenadora do Bloco disse também que, do ponto de vista das pequenas empresas, há três questões essenciais: rendas, banca e prestações bancárias e custos da energia.

BCE deve fazer programas de compra de dívida pública dos países”

Por fim, a entrevista concentrou-se sobre “donde virá o dinheiro”, a política e as regras da União Europeia e o Banco Central Europeu.

“É bom que as regras [europeias do défice] tenham sido flexibilizadas, mas não chega e até pode ser perigoso”, afirmou Catarina Martins, apontando que “precisamos não só que as regras sejam flexibilizadas, mas que os tratados sejam alterados”.

Lembrando o que aconteceu após a crise de 2007/2008, a coordenadora bloquista frisou que é preciso que não se repita a situação de as autoridades europeias dizerem agora “gastem”, para depois imporem a austeridade.

“Precisamos do Banco Central Europeu (BCE)”, apontou, sublinhando que é preciso que o BCE não se limite a comprar dívida no mercado secundário, mas que apoie de facto a economia real.

“O BCE deve fazer programas de compra de dívida pública dos países ou então ter eurobonds”, para financiar a economia, reafirmou, sublinhando que neste momento de crise a compra direta de dívida pública por parte do BCE era muito importante. E lembrou que “um país que tem empresas estratégicas nas mãos de capital estrangeiro está muito fragilizado para responder às crises”, correndo o risco de perder empresas estratégicas, como aconteceu com a PT/Altice, ou ter grandes problemas na banca, como também tem acontecido. “No sistema financeiro precisamos de intervenção estratégica”, frisou.

Na parte final da entrevista, Catarina Martins afirmou que “não sabemos que país vamos ter daqui a um ano” e salientou que “é pela enorme responsabilidade e solidariedade, que temos todos enquanto comunidade, que podemos superar esta crise”.

E, sublinhando que o país tem sido “incansável”, afirmou a concluir: “Tenhamos a responsabilidade política e económica de apoiar toda esta gente e não deixar que se perca emprego, salário, rendimentos das famílias”.

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