Solidariedade com Gaza

Ativistas da mais recente flotilha foram libertados, mais denúncias de maus tratos

14 de outubro 2025 - 12:11

Os 145 participantes desta nova expedição humanitária relatam abusos generalizados por parte das autoridades israelitas.

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Ativistas espanhóis da flotilha para Gaza chegam ao seu país.
Ativistas espanhóis da flotilha para Gaza chegam ao seu país. Foto de MARISCAL/EPA/Lusa.

Os ativistas da mais recente flotilha humanitária para Gaza foram já libertados da detenção ilegal israelita a que estavam sujeitos. É o que assinalam em comunicado a Freedom Flotilla Coalition e o Thousand Madleens to Gaza, os dois grupos organizadores desta expedição.

Estes esclarecem que se tratavam de nove barcos com 145 pessoas de 30 países a bordo, incluindo pessoal de saúde, representantes políticos e jornalistas. Os ativistas levavam mais de 15 toneladas de “ajuda vital”, como medicamentos e outros materiais para abastecer o sistema de saúde de Gaza.

Após a libertação, relataram que os barcos foram “intercetados violentamente em águas internacionais, a aproximadamente 120 milhas náuticas da costa de Gaza” no passado dia 8 de outubro. Estas organizações consideram tratar-se de um ato de “pirataria” e que constitui uma “violação grave da lei internacional”.

Tal como os ativistas da Global Sumud Flotilha, também foram maltratados

A instituição que representou os sequestrados, a Adalah, Centro Jurídico para os Direitos da Minoria Árabe em Israel, reportou “abusos e maus-tratos generalizados por parte das forças israelitas”. Os depoimentos “descrevem agressões físicas e verbais, confisco de pertences, exposição prolongada ao sol, impedimento de acesso a advogados e detenção em condições precárias e insalubres na Prisão de Ktzi'ot. A comida e a água eram insuficientes e as audiências decorreram sem aviso prévio ou representação legal adequada.”

O Mediapart recolheu também declarações de vários dos participantes entretanto libertados e chegados a França. Antoine, médico de clínica geral, descreve como na madrugada de 8 de outubro os barcos foram intercetados, tendo sido disparados tiros contra um. Os ativistas acabaram por ser trancados em “em pequenas cabines de rede de arame” de um barco-prisão, antes de serem levados para o porto de Ashdod, descreve.

Aí, conta a eurodeputada ecologista Mélissa Camara, foram obrigados a ajoelhar-se com as mãos amarradas durante uma hora e meia a duas horas e foram “espancados, humilhados, insultados”. A ela, “os soldados levantaram-me e cravaram as unhas nos meus braços” mas como eurodeputada não foi dos piores casos. As pessoas racializadas foram mais maltratadas, revela, já para não falar que “é cem vezes pior” o que os “onze mil palestinianos” detidos pelos sionistas passam: “São torturados e humilhados”.

Para além dos que ficaram no porto, outros foram isolados. É o caso de Isaline Choury, ex-encarregada de missão da Presidência francesa, de 82 anos, que foi levada por um polícia israelita sob pretexto de uma consulta: “fui algemada, ele insultou-me, fui espancada”. Em seguida, o médico que lhe fez uma colheita de sangue disse-lhe: 'Bem-vinda ao inferno'. Foi depois enviada para a prisão de Ketziot, onde “as condições de detenção são muito difíceis”. À chegada a França ainda sofria de “uma lesão no ombro, uma dor no braço esquerdo e um caroço nas costas”, ferimentos que foram atestados por um médico.

O fotógrafo Tulyppe relata “as revistas íntimas, repetidas, de cada vez que nos moviam. Tocavam-nos nas partes íntimas, abanavam-nos, esbofeteavam-nos, batiam-nos, e isso divertia-os.” Numa das noites, soldados com equipamento anti-distúrbios entraram na sua cela, apontando espingardas equipadas com lasers: "insultaram-nos e insistiram para que disséssemos que éramos do Hamas, que éramos terrorista”. Aliás, em várias das noites, dizem os detidos, eram acordados “por luzes e soldados a empurrá-los e a berrar”.