Ativista egípcia LGBTI+ Sarah Hegazy suicidou-se no exílio

17 de junho 2020 - 22:11

Sarah procurou asilo em Toronto em 2018, após ter sido presa, torturada e agredida sexualmente por levantar uma bandeira arco-íris num concerto da banda de indie rock libanesa Mashrou 'Leila, cujo vocalista, Hamed Sinno, também é ativista LGBTI+.

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Sarah Hegazy no concerto da banda Mashrou 'Leila, em 2017.

O The Washington Post cita a última publicação da ativista egípcia LGBTI+ nas redes sociais e a nota manuscrita encontrada após a sua morte, no passado sábado.

“O céu é mais doce que a terra! E eu quero o céu, não a terra”, escreveu Sarah Hegazi, de 30 anos, no Instagram, exatamente no dia da sua morte.

"Para os meus irmãos: tentei encontrar a redenção e falhei, perdoem-me. Para os meus amigos:  a experiência foi dura e eu sou fraca demais para resistir, perdoem-me. Para o mundo: foi cruel comigo em grande parte, mas eu perdoo", lê-se, por sua vez, na nota que nos deixou.

Presa, torturada e agredida sexualmente por ostentar bandeira arco-íris

Em 2017, durante o concerto da banda de indie rock libanesa Mashrou 'Leila, no Cairo, Sarah e Ahmed Alaa foram fotografados a ostentar bandeiras do arco-íris, há muito associadas aos direitos LGBTI+. O regime egípcio do presidente Al Sisi empreendeu uma campanha de perseguição contra homossexuais que se traduziu na prisão de dezenas de pessoas, entre as quais a ativista e Ahmed.

Posteriormente, Sarah relatou que, enquanto esteve sob custódia policial, foi eletrocutada, agredida verbal e sexualmente e mantida em confinamento solitário. A ativista foi libertada após três meses, mediante a forte pressão internacional. Mas o seu sofrimento não terminou aí. A depressão e o stress pós-traumático tornaram-se duras heranças que ditaram o seu isolamento. Temendo outra prisão, fugiu para o Canadá, onde mais tarde lhe foi concedido asilo.

“Quando estava a ser presa em minha casa, em frente da minha família, um oficial fez perguntas sobre a minha religião, questionou por que razão tinha tirado o véu e se era virgem”, escreveu Sarah em 2018. "Não esqueci a injustiça que cavou um buraco negro na alma e a deixou a sangrar - um buraco que os médicos ainda não foram capazes de curar", acrescentou.

A ativista deu ainda conta do estigma de que foi alvo: "Quando me libertaram fui estigmatizada não só por parte de familiares e vizinhos, como também da comunidade. A sociedade no seu conjunto sinaliza e estigmatiza quem se rebela contra essa cultura patriarcal basada na opressão contra as mulheres, contra os trabalhadores, contra as minorias religiosas, contra a diversidade sexual".

"O Egito falhou com Sarah e toda a comunidade LGBT"

"O Egito falhou com Sarah e toda a comunidade LGBT", frisou Rasha Younes, investigadora do Programa de Direitos LGBT da Human Rights Watch, em declarações ao Middle East Eye. “Eles alienaram-na; forçaram-na a sair do seu país; eles são responsáveis pelo seu sofrimento”, acusou.

O vocalista da banda Mashrou 'Leila, Hamed Sinno, também reagiu à morte de Sarah, defendendo que “continuar a não abordar a desigualdade estrutural que produz tanto sofrimento é um crime."

"Peço desculpas se dei a alguém a esperança de que um dia nos vejam como humanos", frisou. "A verdade é que eles sempre souberam que somos humanos. É por isso que eles fingem estar a fazer a vontade de Deus quando nos matam", continuou.