O 1º de Maio é assinalado nas capas dos principais jornais portugueses com notícias e imagens alusivas a alguns dos problemas que os trabalhadores portugueses sentem quotidianamente.
O Público escolhe para imagem de capa uma fotografia sobre o primeiro 1º de Maio em liberdade no país contemporâneo, lembrando que são “50 anos de festa e de instauração do salário mínimo”, sendo a data certa da implementação do salário mínimo em Portugal 27 de maio de 1974.
Na notícia de destaque, este diário dá conta de um estudo publicado no Labour Economics que defende que a subida do salário mínimo “impulsionou ganhos para 54% dos trabalhadores”, explicando “quase 40% do crescimento dos salários”. O trabalho é do economista português Carlos Oliveira e esta evolução diz respeito aos anos entre 2006 e 2019, afirmando o diário que “a atualização do SMN contribuiu de forma decisiva para diminuir a desigualdades salariais”. Isto apesar de durante o tempo da troika ter havido uma queda no valor real do salário mínimo, congelado nos 485 entre janeiro de 2011 e outubro de 2014.
O mesmo jornal dá ainda conta de outras duas notícias sobre o universo do trabalho. Imediatamente abaixo da manchete da sua edição de papel, dá-se conta da situação das trabalhadoras domésticas. O Público noticia que “há mais de 226 mil pessoas registadas como trabalhadoras domésticas”, que os novos registos “duplicaram no ano passado” (mais 23.530), tendo havido 17 denúncias das quais sete “já foram comprovadas”. Tudo isto um ano depois do trabalho não declarado ter passado a ser considerado crime. O que resultou num “disparar” do registo deste trabalho na Segurança Social.
Dá-se conta ainda do foi criado um “Livro Branco para o Serviço Doméstico Digno”, através de um trabalho da investigadora Filipa Seiceira em colaboração com o Sindicato dos Trabalhadores de Serviços de Portaria, Vigilância, Limpeza, Domésticas e Actividades Diversas.
Em declarações a este órgão de comunicação social, Vivalda Silva, daquele sindicato, destaca que há ainda um longo caminho a percorrer para garantir a igualdade de direitos com os outros trabalhadores, faltando por exemplo proteção no desemprego.
Ainda neste jornal, dá-se conta do assédio laboral titulando que “é um problema “grave e silencioso”” e que o “número de queixas não espelha a realidade”. Na realidade, à Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego chegou em 2023 apenas uma queixa por assédio mas a entidade, escreve-se, “tomou conhecimento de várias situações de assédio que nunca chegam a ser consideradas como queixas porque, para isso acontecer, é necessário que o trabalhador dê autorização para que a entidade contra quem fez a queixa seja contactada”. Carla Tavares, presidente da instituição, explica que “as pessoas que denunciam não prestam o seu consentimento para exercício de contraditório, na maioria das vezes por receio de represálias. Quando lhes é explicado que, para que a queixa possa prosseguir, é obrigatório pedir contraditório, as pessoas retraem-se”. Assim, há uma discrepância clara entre o número de queixas concretizadas e o número de atendimentos presenciais ou telefone na CITE: entre entre 2018 e 2023, houve 28 queixas por assédio moral mas só entre 2020 e 2023 houve 79 atendimentos.
Carla Tavares acrescenta que “na realidade, o assédio laboral não está criminalizado e, na minha opinião, se calhar deveria estar”.
Num inquérito feito entre 2014 e 2016, este organismo público concluía que 16,5% da população ativa em Portugal já tinha sofrido pelo menos uma vez durante a sua vida profissional uma forma de assédio moral no trabalho.
O Jornal de Notícias pega no ângulo grandes fortunas e do número de trabalhadores. A sua capa deste 1º de Maio anuncia que os “mais ricos só empregam 2,2% dos trabalhadores”. Como outros destaques logo abaixo escreve-se que os “grandes grupos económicos absorvem 113 mil pessoas” e que o “salário do CEO do Pingo Doce é 288 vezes superior ao dos funcionários”.
Na edição online, o título central é que os “Dez mais ricos de Portugal só empregam 113 mil pessoas”. O número concreto é de 112.645 e contam-se apenas os empregados no território nacional, sendo que várias das empresas destes milionários têm parte importante dos trabalhadores no estrangeiro.
Faz-se ainda um ranking dos mais ricos que é liderado pela família Amorim, com uma fortuna avaliada em 4.800 milhões de euros mas empregando apenas 7.000 pessoas em Portugal, nas quais se destacam os trabalhadores da Galp (perto de 3.800) e da Corticeira Amorim (à volta de 3.300).
Segue-se a família Soares dos Santos, do grupo Jerónimo Martins, com uma fortuna de 3.374 milhões de euros. Esta é dona do Pingo Doce que tem 35.723 trabalhadores no país, sendo o maior empregador privado de Portugal.
A família Guimarães de Mello, do grupo José de Mello, dona da CUF Saúde e das indústrias químicas Bondalti, detém uma fortuna de 2.652 milhões de euros, empregando perto de 15 mil trabalhadores.
O Diário de Notícias, por seu turno, tem uma capa com uma ilustração de João Abel Manta sobre o 1º de Maio e destaca entrevistas com os dirigentes das duas centrais sindicais: CGTP e UGT. Tiago Oliveira, secretário-geral da CGTP, surge na edição online ao lado das suas declarações: “Realidade no mundo do trabalho está a ser construída de forma a dificultar a organização dos trabalhadores”
Este dirigente sindical vinca que a central sindical a que pertence “irá ficar de fora” de acordo que se considerem negativos para os trabalhadores “como sempre fizemos até hoje”. Aliás, lembra que uma das primeiras iniciativas deste Governo foi reunir com a Confederação da Indústria Portuguesa o que “demonstra a quem é que o Governo responde e para quem é que construiu o programa de ação do Governo”.
Aquele jornal destaca da entrevista a Mário Mourão, secretário-geral da UGT, a declaração “no dia em que os partidos entrarem na UGT, esse projeto impulsionado por Mário Soares e Sá Carneiro morre”. Mas, logo na primeira linha do texto, cola-o ao atual líder do PS, afirmando que ele “esconde a proximidade com Pedro Nuno Santos, até porque também é militante socialista.”
Este dirigente sindical estabelece como “linha vermelha”face ao executivo “liberalizar os despedimentos, porque em Portugal não é esse o problema que impediu o crescimento durante anos”, adianta que “não queremos um país onde estaremos todos no salário mínimo” e que também “é preciso fazer alguma coisa pelos trabalhadores que têm o salário médio”.