1. No debate mais ou menos público que se iniciou com a derrota eleitoral do Bloco a 5 de Junho, tem-se defendido a necessidade de se fazer uma “arqueologia das alianças do Bloco”. Porém este é um exercício complicado, que nos obriga a vasculhar entre “tesourinhos deprimentes” como Rui Tavares, Fernando Nobre, Manuel Alegre ou José Sá Fernandes. O problema deste exercício – se formos analisar cada um destes “aliados” – é que leva a concluir que a culpa é dos indivíduos citados: um é inconstante, o outro oportunista, o outro incoerente e por aí adiante… Mas quando, em catadupa, nos deparamos com políticas de alianças desastrosas percebemos que, em vez de traçar o perfil psicológico de cada um destes indivíduos, é mais profícuo traçar o perfil da política de alianças do BE até hoje. Concluiremos que foi profundamente errada e contribuiu em muito para os resultados de dia 5.
2. O esforço por construir uma “esquerda grande”, que pudesse tornar-se a base de um Governo de Esquerda, é correcto e de louvar. Foi esse esforço que levou o Bloco a procurar aliados, na célebre táctica que visava apelar aos “socialistas descontentes”. De facto deu-se, com o Governo Sócrates, uma ruptura de vários sectores da base do PS. Entre 2005 e 2011, o PS perdeu cerca de 1 milhão de votos e vimos nas ruas – nas manifestações da CGTP, de professores ou mais recentemente no 12 de Março – a ponta mais combativa desse iceberg. Foi correcto apontar para esses sectores. Porém foi errado a forma como o Bloco o fez. Façamos então a arqueologia do percurso do Bloco durante os Governos Sócrates.
3. Sócrates não deu tréguas nem um momento aos trabalhadores portugueses, que cedo procuraram uma resposta aos ataques à saúde, à educação, aos direitos laborais e à Segurança Social. Isso deu início à ruptura com o PS, ruptura essa que se direccionou para a esquerda. Logo em 2006, nas presidenciais, assistimos a esse fenómeno, protagonizado por Manuel Alegre, que “correu por fora”, contra o candidato de Sócrates, Soares, e que o ultrapassou, conseguindo 1 milhão de votos. Nessa altura, em que devia ter ponderado apoiar o poeta, o BE hostilizou-o. Quem não se lembra dos flyers do BE em que uma caricatura de Alegre aparecia a votar nas leis de imigração do CDS? O BE pôs “tudo no mesmo saco” e onde havia uma oportunidade viu uma ameaça. Por várias vezes os dirigentes do Bloco deram inclusive a entender que preferiam Soares a Alegre numa segunda volta.
4. Na Convenção que se seguiu, em 2007, o Ruptura/FER propôs, com outros camaradas, uma reflexão sobre a política de alianças. Apontávamos que Alegre encabeçava um fenómeno de descontentamento com Sócrates e que o Bloco o devia ver como aliado, chamando-o a romper com o PS, trazendo com ele os “socialistas descontentes”, para, com o BE e o PCP, construir um “campo à esquerda” que se opusesse a PS e a PSD, com um programa contra as medidas de Sócrates. A direcção do Bloco fez pouco desta proposta: o Ruptura/FER teria “ilusões” em Alegre, que não passava de um “social-democrata”!
5. Cedo se viu quem baseava a sua política em ilusões. Em 2007, nas eleições intercalares para a Câmara de Lisboa, o vereador eleito pelo BE – o (pouco) independente José Sá Fernandes – “saltou” para o executivo de António Costa, o número dois de Sócrates, que viera do Governo para a CML. A actual Comissão Política defendeu com unhas e dentes esta aliança. O resultado é conhecido: pouco ou nada do programa do BE foi cumprido, a precariedade ainda reina na CML e Sá Fernandes passou-se de armas e bagagens para o PS. O BE não voltou a eleger um vereador em Lisboa. Este foi o primeiro sinal da verdadeira política de alianças da direcção do BE: convergir com aqueles que são o rosto do descontentamento com o PS… para depois os seguir para junto do PS. Já aqui o BE navegava contra a corrente anti-socratista que começava a assolar o país.
6. A maré anti-Sócrates elevou-se. Nas ruas eram professores, enfermeiros, função pública ou as gigantescas manifestações da CGTP. Chegámos ao ciclo eleitoral de 2009 e o descontentamento estava maduro. Nas europeias e nas autárquicas Sócrates perdeu. Já nas legislativas aguentou-se, em maioria relativa. Para isso contribuiu a má prestação de Manuela Ferreira Leite e o voto útil contra ela. Ajuda importante foi também a reconciliação de Alegre, que pediu a maioria absoluta para Sócrates. O Bloco embarcou na cantiga do poeta mas em versão soft: não pediu maioria absoluta para Sócrates mas uma maioria relativa. Pois é isso o que significa “tirar a maioria absoluta a Sócrates”. Para bom entendedor, o Bloco dizia ao que vinha: enfraquecer Sócrates sim, derrubá-lo não. 18 meses depois, quando o povo português quis derrubar Sócrates, lembrou-se do recado. É precisamente após as legislativas de 2009 que o BE começa a descer nas sondagens.
7. No parlamento esta postura do Bloco manteve-se. Basta citar o episódio da Comissão de Inquérito relativa ao Caso Face Oculta, dirigida por um deputado do BE, em que se abdicou de ouvir as escutas que, tudo indica, incriminariam Sócrates e tornariam a sua demissão inevitável. Ou relembrar que, após a Greve Geral, quando fazia sentido apresentar uma Moção de Censura ao Governo, o Bloco não o fez. Pudera: estava já em pré-campanha das presidenciais lado-a-lado com o PM!
8. As presidenciais têm sido apresentadas como a explicação da queda do Bloco. Mas apenas foram o sinal mais evidente da estratégia de alianças do Bloco, que acabou sempre por ser com o PS. Lembremo-nos que as presidenciais se deram em Janeiro, quando se sentia pela primeira vez o mais pesado PEC de Sócrates, após a Greve Geral, que expressava já o descontentamento com o Governo. É necessário ainda lembrar que não foi Sócrates que se “colou” a Alegre, mas o oposto, já desde as legislativas, como vimos. E não nos esqueçamos por fim que o BE sabia disso e nada fez contra: não apresentou nenhum programa mínimo que implicasse a independência de Alegre relativamente ao Governo. Defender os serviços públicos ao lado de Sócrates não é um programa mínimo, é uma falácia. A falácia deu frutos: o candidato foi derrotado, precisamente por ser apoiado pelo Governo. Teve menos 300 mil votos do que quando era candidato contra Sócrates. Pouco depois o Bloco lançou um Outdoor que dizia: “Com este Governo não vamos a lado nenhum”. É verdade, nem à segunda volta das presidenciais fomos. Na altura, na impossibilidade de uma candidatura conjunta BE-PCP, o Ruptura/FER defendeu uma candidatura do Bloco. Ironicamente viu-se que essa candidatura forçaria uma segunda volta!
9. Após as presidenciais houve um sobressalto na direcção do BE. A ruptura massiva com o PS que possibilitaria “A Esquerda Grande” não tinha passado ao lado do Bloco, tinha passado por cima! Aí houve uma readequação tática: a Moção de Censura, a não ida à reunião da Troika e a encenação de encontro com o PCP indicam isso. A direcção, depois de 5 anos a seguir à linha as posições da sua ala mais moderada, esteve dois meses a simular que tinha a política da sua ala esquerda. Conseguiu desagradar a gregos e a troianos.
10. Hoje o problema agudiza-se. O Bloco ou apostará em compor um terceiro campo à esquerda, que seja uma alternativa credível a PS e a PSD e onde não pode faltar o PCP, ou continua a seguir a linha da sua ala mais moderada. O “namoro” ao PS na oposição, embora aparentemente menos nocivo, encerra uma gravidade ainda maior: um Governo conjunto com o PS assim que a direita caia.1É essa a continuação lógica da política seguida nas presidenciais. É isso que defendem os camaradas mais moderados, mas também a Comissão Política que contra eles simula uma grande batalha, dado que é a própria, pela voz de Fernando Rosas, a esclarecer após as eleições que não houve“uma grande aliança à esquerda, desde logo inviabilizada pelo PS que alinhou na negociação com a troika” (http://esquerda.net/node/18518) percebemos que é possível não apenas fazer uma “arqueologia” das alianças passadas, como das alianças futuras. Aposta-se em aprofundar os erros em vez de os corrigir. Essa aposta irá remeter o Bloco definitivamente para o campo da arqueologia. É para escolher entre estes dois rumos que é necessária uma Convenção antecipada que devolva a voz aos militantes. Esta Convenção tem sobre a última uma vantagem adicional: o passado dia 5 já nos mostrou o resultado da estratégia da actual Comissão Política.
1Entrevista de Francisco Louçã, ao DN, a 31 de Maio. Pergunta do jornalista: “Quando fala de coligação de esquerda ou governo de esquerda, como é que prefigura esse governo?”Resposta de FL: “Os próximos três anos são os primeiros anos destas medidas duras. Nesse contexto, vai ser preciso uma esquerda de enorme capacidade, competência e combatividade que ponha como objectivo chegar ao governo, disputar o governo, ter cargos governamentais, orientar a política económica e financeira do país.”(pág.9)