... é uma outra forma de enunciar o equilíbrio entre o pessimismo lógico, analítico, de quem vê o mundo que há... e o optimismo da vontade e do querer/crer (de quem, ainda assim, o quer transformar): o Bloco é anti capitalista por necessidade, por análise estratégica de um sistema representativo, político e económico em falência – mas isso agora é só um começo de conversa, como diria o Zé Neves.
Não me venham cá com esquerdas pequeninas e puras, oh fiéis defensores da (tão educativa) candidatura presidencial – a direcção bloquista tem agarrado a luta pelo poder com concessões muito discutíveis, seguindo uma linha política ultimamente muito pouco clara, fruto da ambiguidade das moções generalistas aprovadas em convenção e do excessivo poderdecisório da comissão política sobre a mesa nacional – se a ‘crise da esquerda grande’ não se resolve com o meter das correntes no armário, muito menos o caminho será a nova-velha teoria da ‘corrente maiorzinha’, mais uma caixinha a excluir gente e a esvaziar o debate do Bloco onde ele deve ser reforçado: as suas estruturas de base, as assembleias e os núcleos de trabalho que deviam clarificar aos poucos e entre todos quais são esses princípios comuns, realmente maioritários, que orientem e balizem o trabalho da estrutura representativa.
Um pézinho fora, um pézinho dentro, assim ia indo, o movimento.
Um partido de esquerda que queira crescer, em activistas e eleitores, em 2011, tem de analisar com cuidado o que, desorganizadamente, vemos fazer os que querem mudar o mundo, nas ruas - mais do que os assuntos que debatem, mais do que o tamanho ou consequência dos movimentos, o que parecem ter em comum quase todas as movimentações da ‘sociedade civil’ dos últimos tempos é asua forma de organização: assembleias públicas, representantes rotativos e não líderes, equipas de trabalho de estrutura horizontal, apoio nas redes digitais para alargar ao máximo a participação, decisões colectivas, auto gestão, a menor fulanização possível. A esquerda grande é a que inclua estas pessoas, também, e para isso o mote da necessária reestruturação interna bloquista, em sucessão ao ciclo dos fundadores, que finda, deve ser a democratização e a descentralização das decisões e da construção de propostas e programas.
(A este respeito, já agora, noto que se a parlamentarização excessiva num partido como o BE nunca é grande ideia, neste momento de recuo ela é de duvidosa eficácia: se ali podemos ganhar algumas batalhas, não pode o grupo parlamentar condicionar o tempo e a agenda do debate dentro do Bloco.)
Independente é a tua tia (não confundir tendência com corrente)
A maioria dos dirigentes (e dos funcionários) pertence a uma das correntes fundadoras do Bloco. A maioria dos bloquistas, não - isto é um problema de representação que vem do acordo tripartido original e que tem de ser corrigido, quer na estruturação de listas de representantes, quer na estrutura de tomada de decisões. Não há esquerda, nem grande, nem pequena, se os bloquistas, povo crítico e desconfiado, não se revirem nos processos, não forem incluídos nas decisões.
Não me preocupa que existam perspectivas diferentes, mais ou menos sociais democratas, mais ou menos radicais. Nunca foi um grande problema, no Bloco, a articulação entre o sonho de um mundo realmente diferente, depois do fim do fim da história, e uma prática de guerrilha negocial parlamentar, necessariamente social-democrata, na luta por objectivos intermédios (discutamos apenas quais são esses objectivos, e os de fundo, por trás desses) - acho que só tem medo do confronto aberto, seja com quem for, quem não tem confiança nas suas próprias ideias ou quem não confia que a tal maioria que diz representar exista, de facto. Preocupa-me, isso sim, que o facto de existirem perspectivas diferentes, em lugar de gerar mais discussão e melhores decisões, acantone as pessoas em reuniões-em-que-se-pode-discutir-à-vontade e reuniões em que-não-se-pode-discutir-à-vontade, dando a desculpa do inimigo-cá-dentro: as temíveis minorias (?!?) que aparentemente tanto impedem o debate...
Contributo da aderente número 371, Gui Castro Felga, Porto, 28 anos