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Alda Sousa em Atenas: “Só a solidariedade faz sentido”

A eurodeputada bloquista Alda Sousa relata-nos, neste artigo, o seu encontro com uma jornalista do AVGI (jornal diário de esquerda) para entrevista e a sua participação na manifestação antifascista de resposta às agressões do deputado neonazi em direto na tv.
Manifestação antifascista de resposta às agressões do deputado neonazi em direto na tv. Foto de ALEXANDROS VLACHOS, EPA/Lusa.

Sol radioso, temperaturas de 34º. Atenas é luminosa e acolhedora. Encontro com uma jovem jornalista do AVGI (jornal diário de esquerda) para entrevista. Falo das semelhanças entre a situação grega e a portuguesa, como cobaias que temos sido das políticas da troika e do diretório europeu. Falo das medidas catastróficas tomadas em apenas um ano de troika e nos resultados dessas medidas em aumento do desemprego em 25%, baixa de poder de compra, aumentos nos transportes, etc. Ela explica-me depois (off record) que só há duas semanas o Supremo Tribunal declarou inconstitucional e ilegal a medida da troika que consistia em incluir o IMI em três prestações na conta de eletricidade, chegando a cortar a luz a quem não o pagasse (e com a crise, muita gente deixou mesmo de poder pagar).

Explico também que o Bloco está a organizar comícios e sessões de solidariedade com o povo grego e com a Syriza. Que muita gente em Portugal está de olhos postos na Grécia e que vários manifestos e abaixo-assinados estão a correr. Que para nós o destino da Europa se vai decidir aqui a 17 de junho. Não só o dos gregos, mas o dos portugueses, dos irlandeses, do povo espanhol... E o próprio projeto de Europa.

Um pouco mais tarde tenho um encontro com Sissy Vovou, militante da Syriza desde sempre, ativista dos movimentos sociais (antirracista, feminista) que vai ser minha guia até ao fim do dia. Primeiro conversamos muito sobre o Bloco, sobre a Syriza. Depois vamos à manifestação antifascista. Apresenta-me a vários membros da Syriza e também a amigos militantes antifascistas e do movimento dos indignados e do “Não pagamos”. Mostram uma enorme curiosidade pela minha presença aqui e por isso vamos conversando enquanto a manifestação não arranca e depois ao longo do percurso. Uns contam-me as agressões de que foram vítimas há duas semanas por um grupo neonazi e que obrigou à sua hospitalização. Mas dizem-me que estão convencidos que hoje não haverá confrontos, que depois do grave incidente na TV na 5ª feira, os neonazis não irão atacar. Dizem-me ainda que apesar da manifestação de hoje e do violento ataque em direto, a Syriza continua a considerar que o centro da campanha se faz contra o memorando da troika, que é essa a linha divisória. Outros e outras falam-me da crise e perguntam-me como é em Portugal. Alguns dizem-me que tinham desanimado com a crise mas que votaram na Syriza a 6 de maio e voltarão a votar a 17 de junho. Eu falo-lhes da importância desse voto para o futuro da Europa. Os vários milhares de manifestantes dirigem-se à Praça Sintagma, palco de todas as grandes mobilizações. A manifestação tem gente de todas as gerações. A minha guia leva-me até à árvore junto à qual o pensionista  Dimitris Christoulas se suicidou há alguns meses, desesperado com a situação económica e social.

Depois da manifestação, Sissy e eu damos uma longa volta a pé pelo centro de Atenas. Está ainda muito calor, muita gente na rua. Vários restaurantes anunciam menus anticrise a preços módicos. Os mais jovens estão sobretudo sentados nas praças, à volta das fontes. Não há dinheiro sequer para entrarem nos cafés.

O que vejo é um povo espezinhado mas que não desiste. Um povo que acredita que dia 17 pode dar a volta às suas vidas. É a vida de 500 milhões de europeus que se joga na Grécia nesse dia.

Só a solidariedade faz sentido.

Grécia, 8 de junho

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