Administrador da Global Media distribui culpas pela crise instalada

10 de janeiro 2024 - 13:31

No Parlamento, José Paulo Fafe não revelou quem foi o "amigo" que lhe abriu as portas das Bahamas. E atirou farpas a Marcelo Rebelo de Sousa, Pedro Adão e Silva e Paulo Rangel pelo negócio "congelado" da venda da participação na Lusa.

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José Paulo Fafe
José Paulo Fafe, CEO da Global Media, na comissão parlamentar desta terça-feira. Imagem ARTV

Na terça-feira, o CEO da Global Media, José Paulo Fafe, afirmou na comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto que o beneficiário único do fundo é o seu gestor Clément Ducasse, o cidadão francês que fundou o Union Capital Group (UCAP). E que há pouco mais de um ano lhes apresentou a ideia da compra do Global Media Group num encontro em Genebra. Nessas conversas terá também participado o gestor Bruno Bellet, que nas suas redes sociais diz na biografia que deixou o UCAP em outubro de 2018, acrescenta o Público.

Quanto à origem desses contactos, Fafe apenas disse ter sido "um amigo" que lhe indicou o potencial interesse deste fundo em investir nos media portugueses, não respondendo aos pedidos da deputada bloquista Joana Mortágua para identificar esse "amigo" ou esclarecer se Luís Bernardo, o consultor de comunicação que assessorou José Sócrates e trabalha agora com a administração da Global Media, esteve envolvido no início desses contactos.

O CEO da Global Media descartou responsabilidades dos novos acionistas na crise financeira do grupo, ao afirmar que estes cumpriram os seus compromissos de investimento. E atribuiu as dificuldades que impediram o pagamento de salários em dezembro ao adiamento da decisão da compra por parte do Estado da participação que a empresa tem na Lusa - responsabilizando por isso o recuo do PSD em relação à sua posição favorável ao negócio, que diz ter sido transmitida por Paulo Rangel, e a "falta de coragem" que atribui ao ministro Pedro Adão e Silva por não ter avançado apesar daquele recuo - e ao bloqueio da conta caucionada no Banco Atlântico Europa, que diz ter sido justificado pelo banco com as notícias sobre o plano de restruturação do grupo. Fafe acusou ainda o Presidente da República de ter contribuído para o espalhar de "intrigas e boatos" acerca do fundo comprador da Global Media.

José Paulo Fafe adiantou ainda aos deputados que conversara na véspera com os administradores do fundo das Bahamas, conseguindo garantir no início da próxima semana o pagamento do salário em atraso de dezembro aos trabalhadores do grupo que esta terça-feira se encontram em greve.

A edição desta quarta-feira do jornal Público revela que a sociedade dona do World Opportunity Fund, o veículo financeiro sediado nas Bahamas que adquiriu a Marco Galinha a maioria da participação na empresa que controla a Global Media, foi liquidada e eliminada do registo comercial suíço a 25 de julho de 2022.

O jornal adianta que a partir de 2014 a UCAP atravessou o Atlântico para se fixar em Nova Iorque, em parceria com um investidor norte-americano, Lawrence D. Howell, passando a ter presença ao longo dos anos em Singapura, Bahamas, Hong Kong, Taiwan, Reino Unido e Dubai. Howell e Ducasse já trabalhavam juntos desde 2011 e em 2013 juntou-se Ludovic Chechin-Laurans, que trocou o banco gestor de fortunas EFG Internacional, onde controlava as operações na Suíça e Luxemburgo, pela residência nas Bahamas e a gestão do Capital Union Bank, o banco deste grupo financeiro. Os seus nomes aparecem em várias referências nos Paradise Papers e nos Bahamas Leaks pelas suas ligações a sociedades offshore.


Notícia editada a 12 de janeiro para retirar a parte em que citava a notícia do Público entretanto desmentida sobre alertas de entidades reguladoras de Espanha e Luxemburgo a uma sociedade com um nome semelhante à que controla o fundo das Bahamas.