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A ação de organização do sindicato da Amazon falhou. Porquê? O que se segue?

A empresa lançou uma cara e sofisticada campanha para derrotar o sindicato, mas os esforços de organização vão continuar. Os organizadores sindicais aprenderam novamente que são os próprios trabalhadores que têm que organizar o sindicato. Por Dan Le Botz.
Manifestação de solidariedade para com os trabalhadores da Amazon. A 20 de março, em mais de 50 cidades houve manifestações a apoiar a criação do sindicato no armazém da Amazon. Foto de Joe Piette/Flickr.
Manifestação de solidariedade para com os trabalhadores da Amazon. A 20 de março, em mais de 50 cidades houve manifestações a apoiar a criação do sindicato no armazém da Amazon. Foto de Joe Piette/Flickr.

Num grande revés para o movimento dos trabalhadores norte-americanos, o sindicato que organizava a iniciativa de sindicalização no gigantesco armazém da Amazon em Bessemer, Alabama, foi derrotado. Os trabalhadores votaram 1.798 contra e 738 a favor do sindicato, numa votação na qual apenas cerca da metade dos 5.876 trabalhadores elegíveis participaram.

Dirigentes do Retail, Wholesale and Department Store Union (RWDSU) argumentaram que a Amazon tinha intimidado os trabalhadores, apesar dos ativistas sindicais de longa data também apontarem outros problemas com a campanha, particularmente o fracasso na construção de uma organização forte no local de trabalho antes de convocar uma eleição.

Nos Estados Unidos, os trabalhadores podem ganhar o reconhecimento do empregador para um sindicato de duas formas: uma eleição conduzida pelo Conselho Nacional de Relações Laborais (NLRB) ou uma greve dos trabalhadores, embora as greves de reconhecimento se tenham tornado bastante raras desde os anos 70. Se 30% dos trabalhadores num local de trabalho assinarem cartões ou uma petição a dizer que querem um sindicato, o NLRB organizará uma eleição. Se a maioria dos trabalhadores votar a favor do sindicato, ele será reconhecido pelo governo dos EUA e a empresa deverá então negociar com o sindicato sobre salários e condições.

O maior problema no caso Bessemer, é claro, foi o enorme poder da Amazon e a sofisticação da sua campanha anti-sindical. Impulsionado em grande parte pela pandemia da Covid-19, as vendas líquidas da Amazon em 2020 aumentaram 38%, para 386,1 mil milhões de dólares, e Jeff Bezos, fundador e presidente da empresa, tem uma fortuna avaliada em 190 mil milhões de dólares. Com recursos ilimitados, a Amazon realizou reuniões regulares com os trabalhadores da fábrica e enviou mensagens de texto diariamente. A empresa apontou que já estava a pagar aos trabalhadores uma média de 16 dólares por hora, o dobro do salário mínimo dos EUA e mais do que outros empregadores da região. Numa campanha chamada “Do It Without Dues”, a empresa apontou que os trabalhadores realmente perderiam dinheiro com um sindicato, pagando cerca de 500 dólares por ano em cotas. A Amazon conseguiu criar um espírito de equipa pró-empresa entre alguns trabalhadores, convencendo-os a usar os botões “Vote Não” no trabalho.

A RWDSU iniciou a sua campanha durante o auge da pandemia da Covid-19 e fez um apelo particular aos trabalhadores negros, que constituem cerca de 85% da força de trabalho. Havia a esperança de que o movimento Black Lives Matter tivesse criado um novo entusiasmo pelo poder dos trabalhadores. O Partido Democrata apoiou a campanha, com o Presidente Joseph Biden exigindo que a empresa não intimidasse os trabalhadores e Bernie Sanders indo à fábrica para falar num comício. No entanto, nem o BLM nem os democratas parecem ter tido impacto no resultado.

As instalações da Bessemer abriram há apenas um ano, parte de uma vasta expansão da empresa, que contratou 400.000 trabalhadores em todo o país e agora emprega mais de um milhão. Isto significava que os trabalhadores do armazém não se conheciam muito bem, especialmente dada a alta taxa de rotatividade, e não tinham uma relação de apoio mútuo e confiança estabelecida há muito tempo. Quando o sindicato se apresentou para a eleição em novembro de 2020, ele não tinha construído uma organização de chão de fábrica forte entre os trabalhadores capazes de agir por conta própria. Tampouco o fez posteriormente. Até fevereiro, o sindicato não havia contactado alguns trabalhadores. O RWDSU fez grande parte da sua organização nos portões da fábrica, mas não fez visitas domiciliárias, alegando que não poderia fazê-lo por causa da pandemia da Covid-19. Poucos trabalhadores participaram nos comícios sindicais.

O que vai acontecer agora? Com toda a probabilidade, a RWDSU apresentará queixas por práticas laborais desleais ao NLRB, alegando, com razão, intimidação, e poderá ganhar outra eleição. Outros sindicatos e ONGs continuam a apoiar os trabalhadores da Amazon noutras fábricas em todo o país. Alguns socialistas conseguiram empregos na Amazon para ajudar na organização no chão de fábrica. Apesar da derrota, os esforços de organização vão continuar. Os organizadores sindicais aprenderam novamente que são os próprios trabalhadores que têm que organizar o sindicato, construindo um forte movimento que possa agir no chão de fábrica.


Dan La Botz é um ativista sindical e jornalista norte-americano.

Artigo publicado originalmente na revista L’Anticapitaliste. Traduzido pela Fundação Lauro Campos e Marielle Franco. Adaptado pelo Esquerda.net para português de Portugal.

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