Maldivas: Presidente deposto acusa donos das estâncias turísticas

13 de fevereiro 2012 - 14:37

Mohamed Nasheed diz que foi obrigado a resignar à presidência com uma arma apontada à cabeça. Os seus apoiantes foram reprimidos pela polícia e houve esquadras e tribunais incendiados. Nasheed diz que na origem do golpe pode estar o combate à fraude fiscal da indústria do turismo.

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Mohamed Nasheed foi eleito democraticamente em 2008 após três décadas de ditadura. Foto ComSec/Flickr

Para o presidente deposto, "o golpe foi largamente financiado pelos donos das estâncias". Perguntado sobre as razões, Nasheed respondeu que "imagino que preferissem a antiga prática de corrupção".



O turismo é a maior fonte de receitas das Maldivas, com as suas ilhas paradisíacas a atraírem muitos turistas da Europa e da Ásia. Embora oficialmente o turismo seja responsável por 30% das receitas do país, o líder da Associação da Indústria do Turismo local, Sim Mohamed Ibrahim, estimou à Reuters em 75% a 80% o peso real do sector na economia.



As 101 estâncias do arquipélago situam-se em ilhas desabitadas, mas o presidente Nasheed, eleito democraticamente em 2008 após três décadas de ditadura, tinha planos para acabar com esta segregação e instalar novas estâncias nas ilhas habitadas. O argumento a favor da separação era o de proteger a sensibilidade religiosa dos 330 mil sunitas das Maldivas.



Na quarta-feira, milhares de apoiantes do Partido Democrático das Maldivas (PDM), do presidente deposto, marcharam a favor de Nasheed na capital Male e foram duramente reprimidos pela polícia. Nessa noite, muitas esquadras e atóis foram incendiados, aumentando a tensão no país após os rumores de que o ex-presidente tinha sido assassinado pelos golpistas. Centenas de pessoas continuam presas após os incidentes, com a polícia a agir ao lado da oposição e os apoiantes do PDM a falarem em "listas negras" que circulam com os nomes dos apoiantes do presidente deposto.



De acordo com o jornal local Minivan News, na origem do golpe pode estar a ordem de detenção ao juíz-presidente do Tribunal Criminal, emitida pelo presidente a 16 de janeiro, alegadamente para fazer avançar a reforma judicial no país. O protesto da oposição durou três semanas e culminou na deposição do chefe de Estado das Maldivas.



Mohamed Nasheed apelou à comunidade internacional para que não reconheça o novo governo e já anunciou que não sairá do país e será candidato às próximas presidenciais. O secretário-geral assistente da ONU, responsável pelos assuntos políticos, Oscar Fernandez-Taranco, está nas Maldivas para mediar a situação política local.

Os Estados Unidos reconheceram de imediato Mohammed Waheed Hassan, o ex-vice-presidente de Nasheed, como novo chefe de Estado das Maldivas. Mas a acusação de Nasheed de que teria sido deposto contra a sua vontade fez recuar a Casa Branca, que agora diz aguardar pela investigação independente a que  Waheed Hassan se vai submeter, sobre o processo de transferência do poder.