A ONU estimou esta segunda-feira em 30 milhões o número de pessoas que necessitam de ajuda humanitária na sequência da guerra civil que dura há 20 meses no Sudão. Metade são crianças. Nas palavras do gabinete de assuntos humanitários da organização internacional, vive-se uma "crise humanitária sem precedentes".
Este número soma-se ao que já era conhecido: as 150.000 pessoas que terão morrido no conflito e as mais de 11 milhões que foram forçadas a deslocar-se. Coube a Edem Wosornu, diretora da instituição, lançar este novo alerta em frente ao Conselho de Segurança.
A 15 de abril de 2023, o exército sudanês e as "forças de apoio rápido", uma organização paramilitar até aí integrada no regime militar que traiu as promessas de fazer uma transição democrática para a sociedade civil, entraram em confronto.
A ONU lançou um apelo para que sejam doados 4,2 mil milhões de dólares para combater a fome. "Se falharmos em agir agora, milhões de vidas ficarão ainda mais ameaçadas".
O diagnóstico mostra que a fome atinge cinco regiões. Até abril pode totalizar 17. No dia de Natal passado, um comboio de ajuda humanitária de 28 camiões conseguiu chegar à capital Kartum, de acordo com a dirigente da ONU, mas em muitas zonas do país, como o Darfur, lamenta, as partes beligerantes criam cada vez mais entraves.
Em novembro passado, a Rússia vetara um apelo a um cessar fogo imediato no Conselho de Segurança da ONU, que tinha sido redigido pelo Reino Unido e foi votado favoravelmente por todos os outros membros. O Kremlin justificou o veto dizendo que era uma ingerência nos assuntos do país sem o envolver.
Alex de Waal, especialista no Sudão, disse então à BBC, que se tratou de um "argumento absolutamente extraordinário para se apresentar face a uma catástrofe humanitária, o colapso total do Sudão e o facto de o Governo apenas conseguir governar uma parte muito pequena do país". Esta segunda-feira, a representante dos Estados Unidos no Conselho de Segurança, Linda Thomas-Greenfield, acusou a Rússia de estar a "financiar ambos os lados do conflito", informa a Reuters.
Convém não esquecer que esta é uma alteração de posição. Já que antes a acusação era de que o regime putinista estava ao lado das forças de segurança rápida. A teoria agora é a de que ao "interesse pelo negócio do ouro do Sudão" se soma o abastecimento de equipamento militar.
A Rússia contrapõe que são "invenções dos países ocidentais e dos seus meios de comunicação social". Dmitry Polyanskiy, vice-embaixador, daquele país na ONU respondeu às acusações: "lamentamos que os EUA tentem julgar as outras potências pela sua própria bitola". Acrescentando ainda: "é óbvio que na Pax Americana que os nossos colegas americanos tentam preservar a qualquer preço, as relações com outros países são construídas apenas com base na sua exploração e em esquemas criminosos que visam o enriquecimento dos EUA".
Entretanto, a Turquia avançou diplomaticamente e posicionou-se como possível mediadora do conflito. Uma iniciativa já aceite pelo lado do governo sudanês, de acordo com o seu ministro dos Negócios Estrangeiros. Este considerou que o seu país “tem necessidade de irmãos e amigos como a Turquia”.
Erdogan tinha tornado público que tinha conversado telefonicamente em dezembro com o general Al-Bourhane, chefe do bando “governamental”, tendo sublinhado nessa altura os diferendos entre o Sudão e os Emiratos Árabes Unidos. As suas declarações vão assim ao encontro do que defende este lado do conflito que acusa só Emiratos Árabes Unidos de apoiar as forças de apoio rápido.