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25 de Abril: Sim a uma luta que continua, não a um devir sem futuro

Com as mudanças históricas que se iniciaram com o 25 de Abril de 1974 fizeram-se grandes avanços de civilização. Mas nos últimos anos os nossos avanços foram interrompidos, o que se conquistou está a ser destruído, esta mudança, este salto em frente, corre riscos de se perder. Texto de Angelina Carvalho

Mais uma vez o Bloco de Esquerda saúda os militares de Abril, todos os resistentes contra a ditadura e todos aqueles que permitiram a liberdade e a mudança neste País em 1974.

Mas saúda também aqueles que, no dia-a-dia, na luta quotidiana, tentam que os avanços conseguidos não se percam. Saúda todos aqueles que sofrem hoje, na pele, os abusos e desmandos de quem governa e solidariza-se com o seu desencanto e a sua revolta.

Com as mudanças históricas que se iniciaram com o 25 de Abril de 1974 fizeram-se grandes avanços de civilização: o fim de uma guerra suicida e destruidora da juventude de então; liberdade de expressão; garantias democráticas consagradas numa Constituição; apoios aos mais desfavorecidos; um Serviço Nacional de Saúde que tem sido considerado dos melhores da Europa; segurança no trabalho com regras que não deveriam ser mudadas a qualquer momento pelos empregadores; uma educação que tentou a repor o que não se fez em anos de ditadura e que colocaram Portugal como um dos países com mais atrasos escolares e culturais.

Avançámos tudo o que tínhamos que avançar? Não. Mas nos últimos anos os nossos avanços foram interrompidos, o que se conquistou está a ser destruído, esta mudança, este salto em frente, corre riscos de se perder.

Correm-se riscos cada vez mais graves de perder a soberania do povo quando o grande capital se assenhoreou das nossas melhores empresas, quando dita as regras de uma poupança, imposta de forma selvagem, sobre quem já não tem nada a poupar e mal tem com que viver. De dia para dia aumenta o fosso entre os que têm cada vez mais e os que têm cada vez menos.

É tempo de não nos deixarmos enganar por um discurso de mentira que nos quer fazer crer que os direitos a uma vida melhor e mais digna levaram o país à ruína: o que levou o país à ruína foram desvios de milhares de milhões de euros, foi a especulação fraudulenta de capitais estrangeiros, foi o abuso despudorado de bancos portugueses com milhares de lucros de que não pagam os devidos impostos, foi o desprezo por uma população que trabalhou e se esforçou uma vida inteira enquanto outros se apropriavam de riquezas do país com estratégias ilegítimas e imorais.

Estratégias daqueles que não têm pátria porque utilizam as pátrias dos outros para sugarem os seus lucros. Estratégias daqueles que não têm uma história porque não olham a meios para atingir os fins: a sua história é feita do desprezo pelas pessoas, pessoas comuns que trabalham, sonham com um mundo melhor e contribuem com o seu esforço para melhorar o país, pessoas que não fizeram fraudes, não desviaram riquezas, não colocaram as suas riquezas em off-shores.

Nesta altura três grandes perigos nos ameaçam e a eles precisamos de estar atentos:

1 – A mentira

A falta de transparência, a mentira permanente, a arbitrariedade total nas decisões tomadas por um governo que governa em nome de estrangeiros, servindo outros interesses e vontades que não são os dos portugueses.

Dizem-nos que há uma crise mundial e o dinheiro desapareceu. Não nos falam dos milhares de milhões de euros que o Banco Central Europeu entregou aos bancos a 1% de juros para que estes emprestassem aos países em dificuldades a 5 ou 6%. E esses lucros do grande capital, somos nós que pagamos, com impostos, com sacrifícios e com privações.

Não se investe na economia nem se apoiam pequenas empresas nem a criação de trabalho pois, apesar do apoio do Banco Central Europeu aos bancos, estes não contribuem para melhorar as condições de investimento ou actividades de desenvolvimento económico.

Falam-nos das dificuldades da nossa economia, mas não nos falam dos negócios feitos com as nossas empresas vendidas ao desbarato ao estrangeiro, continuando a garantir-lhes rendas incalculáveis, benesses para uma elite, lucros apoiados pelo próprio estado, ou seja com os nossos impostos, como é o caso da EDP.

Falam-nos de sacrifícios inevitáveis, mas não nos falam dos negócios das Parcerias Público Privadas, de negócios ruinosos que iremos pagar durante muitos e muitos anos, enquanto viveremos uma vida cada vez pior.

Falam-nos das dificuldades em manter apoios sociais, mas não nos dizem que, só no BPN, foram já injetados mais milhões de Euros do que os que seriam necessários para não diminuir os abonos de família, os subsídios de desemprego, os rendimentos de inserção social.

No telejornal da noite dizia o primeiro-ministro que um secretário de estado se demitiu por razões meramente pessoais. Às 11h do mesmo dia, num debate na SIC, Mira Amaral esclarecia que o secretário de estado se demitiu por ter sido proibido de divulgar um estudo de técnicos de uma universidade inglesa onde se mostrava que a EDP usufruía de apoios estatais injustificados, sendo a eletricidade, em Portugal, a mais cara da Europa.

Mas vai haver apoios para famílias carenciadas – sim alguns agregados familiares vão pagar menos um, dois ou três euros por mês.

E casos como estes há muitos mais. Ou não se diz tudo, ou diz-se meia verdade. E a desinformação prepara um terreno fértil para aceitarmos o que nos impõem.

2 – A divisão

Crescentes manobras de divisão, de forma hábil e quase silenciosa, têm vindo a minar toda a população, tornando-nos mais frágeis e vulneráveis. Dividir para reinar é agora a estratégia.

Insiste-se no medo e na necessidade de “safe-se quem puder”, na desconfiança sobre o vizinho do lado. Querem fazer-nos acreditar que o país está mal por causa do ladrão que rouba um pão, enquanto o tesouro nacional é desfalcado por aqueles que roubam milhões.

Tomam-se medidas gravosas sempre de modo inesperado. Em cada dia de manhã, acordamos com uma nova decisão, arbitrária e violenta, mas sempre para um sector de cada vez, um grupo isolado, deixando-nos na ilusão de que estaremos ao abrigo de medidas gravosas, até uma próxima, que nos tocará a nós:

- Diminuem-se salários na função pública? Não tem problema, eu até nem sou funcionário público…

- Diminuem-se os subsídios de desemprego? Não tem problema, eu até nem estou desempregado…

- Agravam-se as condições de pagamento por recibo verde? Não tem mal, eu não sou pago por recibo verde…

- Diminuem-se as bolsas de estudo dos alunos? Não tem mal, eu nem tenho filhos a estudar…

- Aumentam três vezes mais as rendas sociais, retiram o acesso aos sótãos nas casas? Não tem mal, eu até vivo numa ilha…

- Expropriam a ilha e deslocam os moradores? Não tem mal, eu até vivo numa casa que estou a pagar…

- O desemprego aumenta, e entregam-se as casas ao banco? Não tem mal, eu até vivo num bairro social…

- Diminuem-se as reformas? Não tem mal, eu até nem sou reformado…

- Retiram-se os subsídios da função pública? Não tem mal, eu até nem sou da função pública…

- Aumentam-se os horários de trabalho? Não tem mal, eu não trabalho por conta de outrem…

- Congelam-se as reformas antecipadas da Segurança Social? Não tem mal, eu nem estou na segurança social…

- Deixam de pagar os passes de estudante? Não tem mal, o meu filho é do escalão A e até ainda vou ter apoio…

- Aumentam as taxas moderadoras? Não tem mal, talvez eu tenha isenção…

- Aumentam os combustíveis? Não faz mal, eu nem tenho carro…(Mas vou pagar mais caros os transportes, os alimentos e tudo o mais)

- Aumentou a electricidade? Não tem mal, aguentarei o frio do inverno…

- Diminuem os apoios aos medicamentos? Não tem mal, passo a tomar só metade…

- Não há transportes para doentes? Não faz mal, eu morro em casa…

E, apouco e pouco, assim se vão alterando as condições de vida, pouco a pouco se perdem não privilégios, mas direitos e condições de sobrevivência. Pouco a pouco nos convencem de que tudo poderemos aguentar. Cada medida que surge é sempre para os outros, e quando nos toca a nós, já é tarde de mais.

Temos que nos unir e dizer não. Temos que colocar a hipótese de que não seremos impotentes para modificar o rumo das coisas.

3 – A resignação

Este é um dos outros grandes perigos que nos ameaçam. Estamos todos resignados. Achamos que isto inevitável e que nada há a fazer a não ser aceitar uma tragédia que outros provocaram mas que nos querem convencer que é a nossa culpa, porque gastámos de mais.

E no entanto, lucros incomensuráveis continuam a ser desviados para bancos estrangeiros, opções em investimentos pouco claros, a pobreza de uns fazendo a riqueza de outros.

São as riquezas daqueles que não têm pátria, porque utilizam as pátrias dos outros para sugarem os seus lucros. Riquezas daqueles que não têm uma história porque não olham a meios para atingir os fins.

A sua história é feita do desprezo pelas pessoas, pessoas comuns que trabalharam, confiaram nos seus representantes, entregaram-lhes todos os meses uma parte dos seus ordenados ou como descontos para a segurança social, ou como impostos, para que o seu dinheiro fosse bem aplicado e pudessem contar com ele quando precisassem, no desemprego, na doença ou na velhice. Mas fizeram-se auto estradas desnecessárias, com contratos milionários com empresas como a BRISA, compraram-se submarinos, investiu-se em estádios agora vazios, apoiaram-se bancos fraudulentos, fizeram negócios com dinheiro que não era deles, mas de todos nós.

Os compromissos com as pessoas não estão a ser respeitados, não se prestam contas de uma gestão danosa, mas corre-se a dar cumprimento a exigências exorbitantes que, quem nos colocou nesta situação agora reclama. Para isso encomendam e pagam o discurso dos que nos vêm dizer que nós somos os culpados dos roubos que outros fizeram e que, por isso temos que passar a um tempo da negação do progresso, a um tempo selvagem e de escuridão, a um tempo de vale tudo. A esses diremos basta.

Não podemos aceitar a prepotência, a arbitrariedade, o rompimento unilateral de contratos sociais, a alteração de regras, como se fosse um caminho inevitável e sem outra saída. A indignação, a revolta e a luta têm que dar lugar à resignação.

O Bloco de Esquerda apela a todos os cidadãos, hoje em dia vítimas de situações de injustiça, arbitrariedade, violência e destruição da sua qualidade de vida, que resistam e não se resignem a um processo que, como a ferrugem, vai corroendo o que era um espírito de solidariedade e união.

É por isso que comemoramos o 25 de Abril como um dia em que, em Portugal, se abriram as portas à Liberdade, à Justiça, à Civilização, civilização que se quer fazer regredir e voltar atrás.

Diremos não à mentira, à divisão, à resignação.

Viva o 25 de Abril

Para uma intervenção, numa Junta de Freguesia, na homenagem ao 25 de Abril, texto de Angelina Carvalho (representante do Bloco de Esquerda na Assembleia de Freguesia de Campanhã – Porto.

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