Um estudo do Instituto Kiel, um thinktank alemão, afirma que Portugal não tem forma de evitar uma reestruturação da sua dívida, com um corte de até 50% do seu valor. A possibilidade de uma reestruturação tem sido negada oficialmente pelo governo, mas os números do estudo dos economistas David Bencek, Henning Klodt são contundentes.
No Barómetro da Dívida Pública, os economistas determinam os níveis de superávit primário que Portugal precisaria atingir para pagar a dívida, apresentando dois cenários: de crescimento do PIB de 2% e de 4%, metas aliás, que parecem bem distantes da realidade portuguesa.
Diante da impossibilidade flagrante de obter esse superávit, os economistas calculam o corte necessário numa reestruturação da dívida. Este “haircut” (corte de cabelo, jargão usado para se referir à redução da dívida) seria de 55,6% ou de 45,8%, dependendo dos cenários mais pessimista ou mais otimista.
“A Grécia está perto da falência total. Portugal precisaria de um corte na ordem de um terço a metade. A Irlanda, a Itália, e a Hungria só conseguem evitar a reestruturação se conseguirem atingir altos índices de crescimento, por isso a previsão é relativamente boa para a Irlanda”, diz o estudo.
“A dívida de Portugal é insustentável. Esta é a única conclusão possível”, disse David Bencek. “Não sabemos que facto irá puxar o gatilho, mas logo que haja uma decisão sobre a Grécia, as pessoas vão começar a olhar mais de perto e dar-se conta de que Portugal está na mesma posição da Grécia há um ano”.
Conversa de Vítor Gaspar com Schauble
Recorde-se que o ministro das Finanças alemão ficou enraivecido quando soube que uma conversa informal que mantivera com o ministro das Finanças português fora gravada. Nela, Wolfgang Schauble diz que “Após a decisão substancial sobre a Grécia, se depois houver a necessidade de reajustamento do programa português, nós estamos prontos para o fazer”. Vítor Gaspar respondeu com um agradecimento. “Isso será muito apreciado”, respondeu o ministro português, que adotou a postura do bom aluno: “Fizemos progressos substanciais”.
Mais tarde, o ministro alemão disse que “Não se trata de uma hipótese concreta, específica que esteja a ser considerada neste momento do tempo, mas sim um mecanismo de seguro para desenvolvimentos hoje imprevistos”, disse.
Ora é um estudo de um instituto alemão, que Schauble conhece bem, que mostra que o “desenvolvimento” não é nada “imprevisto”.