140 anos de António Sérgio: destacado antifascista, pensador crítico e anticapitalista

04 de setembro 2023 - 13:14

Nasceu no ano da morte de Karl Marx (1883), no dia 3 de Setembro. E veio a ser uma figura maior na resistência à ditadura de Salazar. Por Luís Carvalho.

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António Sérgio preso político aos 52 anos.

Dirigente da Seara Nova e do Movimento de Unidade Democrática, o seu longo percurso antifascista culminou em 1958, como impulsionador da campanha presidencial de Humberto Delgado e com a última vez que foi preso pela PIDE, quando já estava com 75 anos de idade.

Como pensador, é de salientar o olhar crítico que António Sérgio lançou à história de Portugal. Foi nessa matéria inovador em vários aspetos. Desde logo no realce que deu às contradições de classe e à influência da estrutura económica e social. Sem pender para uma perspectiva de determismo económico.

Crítica do colonialismo

Por outro lado, é interessante a sua crítica às narrativas de grandeza imperial que ainda hoje circulam. Apontava mesmo o colonialismo como primordial factor de subdesenvolvimento da economia portuguesa, somado à inquisição católica e à perseguição dos judeus.

Era o que chamava de “política de transporte”, oposta ao desenvolvimento da produção na ‘metrópole’. E daí resultava que “toda a riqueza passava apenas por Portugal e ia fomentar o trabalho estrangeiro, que nos fornecia de todas as coisas”. Enquanto por cá “as fomes sucediam-se e era necessário endividar-se a coroa para comprar cereais no mercado da Flandres”. E mesmo assim, “em 1521 o aperto da fome foi tal que os pobres, correndo em bandos para as cidades, caíam rendidos pelas estradas, e ali jaziam sem sepultura”.1

Junto dos trabalhadores

Outra faceta relevante no pensamento de António Sérgio foi a sua concepção de socialismo. Assente na “apropriação colectiva” da “maioria dos instrumentos de produção e de troca”, com um cariz libertário e não estatizante.2

Nessa via, tornou-se a grande referência intelectual portuguesa de uma das vertentes clássicas do movimento operário: o cooperativismo.

Mas Sérgio não se ficou apenas pela teoria.

Em 1947, surge como presidente da “comissão executiva” do «Conselho Central das Cooperativas de Lisboa e Arredores». Foi uma tentativa concreta de juntar as forças de uma série de cooperativas de consumo que existiam na região, algumas até prósperas, mas isoladas umas das outras.

Depois fundou o «Boletim Cooperativista» e participou na criação do «Ateneu Cooperativo» (que acabaria encerrado pela ditadura em 1971).

Uma das pessoas que atuaram com António Sérgio no movimento cooperativo foi Vasco de Carvalho, outro ex-preso político e destacado antifascista. Por sinal, o líder do PCP afastado pela reorganização de 1940/42 (que foi encabeçada por Júlio Fogaça).

Segundo Vasco de Carvalho, António Sérgio “via na colaboração dos homens e mulheres trabalhadores, dentro das suas cooperativas, um valioso meio de educação cívica”.3

Recordava, “por exemplo, a sua aristocrática figura, em reunião com os colaboradores do Boletim Cooperativista [...] sentada num banco tosco a uma mesa não menos tosca, num atravancado armazém de uma cooperativa de bairro, tendo suspensas sobre a sua cabeça réstias de cebolas”.4

E “ao lado do operário fabril, do empregado do comércio, do artesão ou do trabalhador rural, enfim, de todos que então militavam no cooperativismo, discutia os seus problemas”.5

Uma frase de Marx

Vasco de Carvalho contava que “foi principalmente nas cooperativas de consumo, nas que brotaram de raízes populares, erguidas com muito esforço e abnegação nos bairros pobres das cidades e nas aldeias periféricas, que A. Sérgio esteve mais frequentemente em comunhão com o povo”. Com a preocupação de “não ambicionar governá-lo, mas tão somente ensiná-lo a governar-se a si mesmo”.6

Era uma ideia que Sérgio tinha bebido num dos pioneiros do socialismo em Portugal, o poeta Antero de Quental. Que por sua a vez a tinha ido buscar a Marx e à primeira frase dos estatutos que este escreveu para a «Associação Internacional dos Trabalhadores» (a 1ª Internacional):

A libertação da classe trabalhadora deve ser conquistada pela própria classe trabalhadora”.7


1 António Sérgio (1998), Breve interpretação da história de Portugal, Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, p. 96.

2 António Sérgio (1948), Confissões de um cooperativista, Lisboa: Editorial Inquérito, p. 11.

3 Vasco de Carvalho (1969), “António Sérgio”, «Boletim da Associação dos Inquilinos Lisbonenses», março 1969, p. 2.

4 Vasco de Carvalho (s/d), “António Sérgio no seu relacionamento com o povo”, manuscrito, p. 3.

5 Vasco de Carvalho (1974), “António Sérgio”, «A Nossa Terra» (Cascais), 05/07/1974, p. 8.

6 Vasco de Carvalho (s/d), “António Sérgio no seu relacionamento com o povo”, manuscrito, pp. 1-2.

7 Karl Marx (2010), The first international and after - political writings vol.3, London: Verso, p. 82.