Segundo Ana Drago, a proposta do CDS-PP incluída na reforma curricular, que prevê a existência de exames ao nível da 4ª classe, com uma ponderação de 30 por cento na nota final, demostra a nostalgia de “um tempo em que no secundário só existiam uns milhares de estudantes e a seletividade social no acesso aos níveis mais superiores de educação começava bem cedo”. É a "nostalgia dos exames de 4.ª classe do Estado Novo", adiantou a deputada bloquista.
Ana Drago lembrou ainda que nos “sistemas educativos de referência no espaço europeu, como é o caso do sistema finlandês, austríaco ou alemão, não existe qualquer exame seletivo ao nível da 4ª classe que determina a aprovação ou a retenção de um aluno”, pedindo ao governo para justificar esta opção.
A dirigente bloquista frisou ainda que, ao avançar que "quer os exames da 4ª classe não para aferir conhecimentos mas para poder avaliar", o governo está a demonstrar que “não confia nos professores do 1º ciclo para avaliar os alunos que os mesmos acompanham há quatro anos” e está a impor “avaliações que vêm de fora e que são cegas aos alunos que estão a avaliar”.
“Portugal já tem dos maiores níveis de retenção da Europa”, lembrou Ana Drago, adiantando que esta proposta “não serve para criar mais qualidade, mas sim para criar mais retenção”.
Reagindo à afirmação, por parte dos responsáveis governamentais, de que o processo de discussão sobre a revisão curricular terá sido exemplar, a deputada bloquista afirmou que o mesmo foi promovido como uma “espécie de 'envie o seu postal'”. “O governo recebeu os contributos e deles não deu cavaco a ninguém”, frisou Ana Drago, lembrando que “até hoje não se sabe que contributos chegaram ao ministério”.
“Quem é que pediu a divisão da EVT em duas disciplinas?”, questionou a dirigente do Bloco de Esquerda. “E o fim da formação cívica, atirado para uma oferta de escola com crédito de horas? E quem é que pediu o fim desdobramento de turmas no 2º e 3ª ciclos para o ensino experimental?”, questionou ainda.
“Foi apenas uma exigência da troika”, reiterou Ana Drago, rematando que “não há nenhum critério de qualidade nesta revisão curricular".
Revisão curricular não é mais do que “um ajustamento dos currículos ao Orçamento do Estado”
Segundo Mário Nogueira, responsável da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), “o objetivo maior desta revisão é reduzir os postos de trabalho de docentes”, adiantando que “em setembro, 10 mil docentes serão eliminados das escolas por conta reforma curricular”.
“O que acreditamos é que o ministro fez as contas, sabe que o Orçamento do Estado tem de reduzir 102 milhões de euros na educação por conta dos currículos e não esteve com meias medidas”, sublinhou o responsável sindical, que alertou ainda para as consequências desta revisão curricular no que concerne à qualidade do ensino.
Bloco de Esquerda pediu audiência com Nuno Crato
Tendo em conta que muitas opções agora assumidas pelo governo “carecem de justificação, dado que são contrárias a todos os contributos e propostas que foram tornadas públicas pelos diferentes agentes educativos” e que, “a ser implementada, esta revisão da estrutura curricular arrisca a descaracterização da matriz curricular da escolaridade obrigatória, e o retrocesso no debate teórico sobre estruturação e articulação das aprendizagens”, o Bloco de Esquerda já solicitou a presença do ministro da Educação no Parlamento para discutir e esclarecer os pontos mais polémicos da revisão curricular.