Independentemente do resultado das eleições quero aqui defender a mudança de direcção política do Bloco com alguma regularidade (4 anos, por exemplo, o equivalente a um período de governação).
Não uma mudança em bloco mas a mudança de uma determinada percentagem dos seus elementos para permitir uma regular renovação das ideias. Todos nós sem excepção ganhamos vícios quando estamos muitos anos numa determinada função e podemos sofrer mesmo duma certa esclerose do nosso ideário. E se defendemos como salutar um limite de mandatos para autarcas e outros cargos públicos, para evitar acomodações ao lugar, compadrios, etc., porque não aplicar os mesmos critérios à direcção do Bloco? Ou queremos seguir o exemplo do PCP em que as gerações mais velhas (sexagenárias e mais, até) é que mandam naquele partido? Temos que nos distinguir dos outros, não porque esteja no guião, mas porque há todo o interesse na renovação. Não podemos é ficar á espera que surja um desaire eleitoral para encararmos a hipótese da renovação da direcção.
E já agora uma pequena bicada nos resultados eleitorais: eu achava piada, palavra de honra que achava, se não fosse trágico, ao coro que se formou logo a seguir, pedindo a demissão da direcção, tal qual os partidos da direita. Caros, calma, não estou a dizer que se ficasse mudo e quedo, mas não deixei de estabelecer um paralelo com o que acontece com os partidos do centro-direita. A mudança é precisa, até mesmo numa época em que os resultados eleitorais possam ser melhores, porque podemos igualmente argumentar que se lá estivessem outros camaradas na direcção os resultados ainda poderiam ser melhores. Podemos sempre arranjar os argumentos que mais convenham aos princípios ideológicos que enformam o nosso pensamento, a nossa análise. Mas convém usar de alguma seriedade e lealdade. A direcção do bloco fez sem dúvida o melhor que soube fazer, não acredito que se tenham metido no buraco só para dar argumentos aos defensores da mudança. Facílimo agora vir atirar as culpas do desaire ao apoio concedido ao MA, à falta da reunião com a troika (também acho que não se perdia nada terem ido) às conversas com o PCP (deixem-me rir desta, ok?), à moção de censura ao governo (muito discutível com efeito, dado que ia ser chumbada; além do mais o Bloco já inúmeras vezes na AR tinha censurado de modo mais eficaz o governo; alem do mais no cenário fantástico de ser aprovada só abriria o caminho à direita). Uma última ideia:
Tanto o Bloco como o PC não conseguiram impor na campanha eleitoral uma linha de discussão que incidisse sobre as consequências das medidas impostas pela troika, o que não é de admirar dada a dimensão dos dois partidos, dado o facto de a imprensa escrita e falada estar invariavelmente alinhada com interesses da direita e centro, e importante era gerar um clima de medo e principalmente cravar na mente dos votantes a ideia de "inevitabilidade" com que nos martelaram a cabeça semanas a fio. Penso que esse clima terá sido um dos motivos na base duma abstenção tão elevada e esta foi bastante mais nefasta para a esquerda que para direita. Portanto, e fora as que me esqueceram, razões para todos os gostos para vir para a rua exigir a demissão da direcção do Bloco.
Mudar é preciso, mas importante é também o modo como se muda. Acho positiva a atitude de Miguel Portas. Espero que os elementos que há mais anos estão na direcção, apesar da importância que tiveram no lançamento do Bloco considerem a renovação como uma medida a ser encarada com naturalidade e não a ser encarada como arma de castigo por desaires eleitorais. Porque, temos que aceitar que do mesmo modo que haverá vitórias, não tenhamos dúvidas de que vai haver outros desaires. E a direcção que se seguir vai ter a tarefa de subir o peso eleitoral do Bloco; porque se o não fizer alguém poderá pedir a sua cabeça, não?