“A lua-de-mel com Obama não durou muito”

02 de outubro 2010 - 21:30

A Democracy Now! entrevistou o escritor britânico de origem paquistanesa Tariq Ali, a propósito do seu mais recente livro "A Síndrome de Obama: Capitulação em Casa, Guerra Lá Fora".

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Tariq Aly entrevistado na Democracy Now!

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AMY GOODMAN: Tariq Ali lançou um novo livro chamado "A Síndrome de Obama: Capitulação em Casa, Guerra Lá Fora”. Some might say that's a little harsh.Alguns dirão que é um pouco duro.

TARIQ ALI: Eu sei que alguns dos apoiantes de Obama podem achá-lo um pouco duro, mas eu penso, após dois anos de o termos no poder, Amy, que os contornos desta administração são agora visíveis. E, no essencial, é uma administração conservadora que mudou a música de fundo. Portanto, o discurso é melhor. A imagem da administração é melhor, a aparência razoável. Mas, em termos do que fazem em matéria de política externa, assistimos a uma continuação das políticas de Bush-Cheney, e até pior no Af-Pak, como lhe chamam (teatro de operações no Afeganistão e Paquistão), e em casa, assistimos a uma capitulação total perante os lobbys, as corporações. O facto do plano de saúde ter sido efectivamente redigido por uma pessoa que costumava fazer parte de um lobby de seguros já diz tudo.

Trata-se agora essencialmente de uma operação de relações públicas para o reeleger. Mas não penso que as pessoas sejam assim tão estúpidas. Tenho falado com alguns dos seus apoiantes partidários e eles estão decepcionados. Assim, o grande problema para Obama é que se não fizer nada e prometer que vai fazer algumas mudanças, não vai ter ninguém a votar nele novamente. E tornar o Tea Party no grande fantasma não vai funcionar. São os seus próprios apoiantes que eles têm de convencer a apoiar Obama e a votar nele, como fizeram anteriormente. Não antevejo isso a acontecer.

A capa do seu livro, "A Síndrome de Obama: Capitulação em Casa, Guerra Lá Fora”, é uma imagem do rosto, da cabeça do Presidente Obama, e metade é “descascada” para revelar o Presidente Bush.

É uma brilhante fotomontagem dos West Coast, e eles são os melhores. Sempre que há uma crise, eles surgem com uma imagem que diz tudo. Eu gosto muito dessa imagem e usei-a deliberadamente para mostrar a continuidade, para mostrar que não temos uma administração diferente. Temo-la, tecnicamente, mas ela dá continuidade a muitas das velhas políticas na forma como lida com a economia. Quando se tem pessoas como Krugman, Joseph Stiglitz, ocasionalmente Frank Rich no The New York Times, Maureen Dowd, pessoas que estavam desesperadas por uma administração Democrata, a serem extremamente críticas em relação a algumas atitudes desta administração; quando se tem professores veneráveis, como Gary Wells, a dizer: "Estou desapontado"… a lua-de-mel com Obama não durou muito tempo. Durou muito mais tempo com Clinton. E uma razão para isso é ele ter suscitado esperanças e não ter sido capaz de cumprir o prometido. Ele acabou por se tornar um apparatchik e um operador político de um dos bastiões dos Democratas do país, Chicago, e é como tal que se comporta.

Robert Gibbs, o porta-voz de imprensa da Casa Branca, ataca a chamada "esquerda profissional"? O que pensa disto?

É interessante que eles sejam incapazes de combater a direita. Com a direita é só conciliação. Eles acham que devem apelar a essa conciliação. Com os críticos da esquerda, tendem a ser muito duros, como se nos estivessem a dizer: "Não sabem a sorte que têm". Mas estamos com sorte porquê? Nós julgamos as pessoas não pela sua aparência nem pelo que dizem, mas pelo que fazem. E o que Obama tem feito é, no mínimo, extremamente decepcionante cá dentro e mortífero no exterior. Na Palestina, no Irão, não houve qualquer alteração. Então, é preciso dizê-lo, porque se eles não se apercebem disto vão sofrer outros embates. E Rahm Emanuel refere-se a pessoas da esquerda liberal que são críticas de Obama, e usa uma grosseria, chamando-lhes: "atrasados mentais" – bem, veremos quem são os atrasados depois das eleições, Amy. É tudo que posso dizer.

Capitulação em Casa, Guerra Lá Fora”. O Senhor nasceu no Paquistão. Acabou por se estabelecer na Grã-Bretanha, de onde voltámos a noite passada. Tem sido interessante conhecer as políticas deles, bem como a devastação provocada pela guerra, os efeitos das guerras, sobre a população da Grã-Bretanha. Um relatório no jornal no outro dia, quando estávamos em Londres, afirmava que 20 mil veteranos estão na prisão, principalmente no Iraque, veteranos da guerra no Afeganistão, por cometerem crimes violentos e sexuais. E quanto à guerra no exterior e ao que o presidente Obama está a fazer – segundo ele, ainda a retirar do Iraque cerca de 50 000 militares – na verdade bem mais do que isso, e mesmo paramilitares com exércitos de mercenários lá, e a instabilidade no Afeganistão?

Volto a dizer, vamos analisar a questão em termos concretos. Bush tinha prometido exactamente o mesmo padrão de retirada do Iraque: por esta altura, já teríamos retirado. Obama imitou-o. Eles não estão a retirar. O que está de facto a acontecer, é que estão a reduzir a presença de tropas de combate, a eliminá-la nas grandes cidades e a construir seis enormes bases militares dispersas pelo Iraque onde irão manter entre cinquenta e sessenta mil soldados, prontos para agir quando for necessário, como os britânicos quando ocuparam o Iraque nos anos 20 e 30 do século passado. E os britânicos foram expulsos por um violento tumulto e revolução nos anos 50. Portanto, os EUA estão a manter essas bases: a) para controlar o Iraque e b) como um aviso ao Irão. E eu penso que vai ser um problema.

A guerra ainda não acabou, de todo. Assistimos, apenas há alguns dias, a enormes explosões em Bagdad e em Faluja. É uma catástrofe e um caos. E apresentar isto de algum modo como "missão cumprida – parte dois" é uma anedota. Aquele país tem sido destruído, um milhão de iraquianos foram mortos, as suas infra-estruturas sociais foram arrasadas. E no Afeganistão estão a ir de mal a pior. Eles sabem, e o general Eikenberry sabe e diz, que não podemos vencer esta guerra por via militar. Não a podem perder, mas não a podem ganhar. Por conseguinte, a solução política é a única saída, o que significa que têm de ter uma estratégia de retirada. Obama nem sequer fala disto, porque poderia ser interpretado como um sinal de fraqueza. Mas por quem? O Exército sabe o que está a acontecer. Não podem ficar lá para sempre.

Foi bastante impressionante a enorme atenção prestada a Terry Jones a ameaçar queimar o Corão, um sinal horroroso para o mundo todo, como seria no caso de qualquer outro livro religioso, ao mesmo tempo que aparece um relatório vindo do Afeganistão sobre uma brigada de assassinos – uma brigada de assassinos norte-americanos – que estava a recolher lembranças como dedos e outras partes do corpo, que recebeu muito pouca atenção tendo em conta o seu significado, não apenas para a comunidade muçulmana, mas para pessoas de todo o mundo.

Mas, sabe, Amy, alguns de nós, que somos uma espécie de idosos agora, lembram-se de terem acontecido exactamente as mesmas coisas durante guerra do Vietname, em que houve relatos, naquela época muito mais divulgados, devo dizer, de soldados norte-americanos no Vietname, com troféus que eram partes de corpos de vietnamitas mortos ou que eles mataram ou torturaram até a morte.

E ainda neste relatório que lemos hoje, Michael Ware, figura conhecida da CNN, constantemente a falar sobre o Iraque …

Exactamente.

...a dizer que não o deixaram transmitir a gravação de um soldado dos EUA a matar uma adolescente iraquiana. E a gravação pertence àAnd CNN owns it, so he can't get it. CNN, está portanto ao seu alcance.

É uma vergonha que a CNN tenha feito isso, mas é um indício de como as corporações internacionais de comunicação social têm coberto as guerras no Iraque e no Afeganistão. Autocensura tem sido a ordem do dia. Não queriam ofender as forças armadas americanas, em nítido contraste com a forma como a Guerra do Vietname foi noticiada. Lembro-me de Morley Safer, na CBS News, a mostrar a casa de uma família a ser destruída por Marines norte-americanos e de Safer a comentar: "Estamos a lutar pela liberdade." Este tipo de coisas não é permitido hoje. As corporações internacionais não o fazem, é por isso que programas como este são importantes. Mas agora se ele não pode mesmo usar as imagens que gravou, o que significa isso? Quero dizer, como é que as pessoas naquela parte do mundo sabem exactamente o que se está a passar, e não é a queima do Corão que os aflige assim tanto, embora também os aflija, mas o que está a acontecer às suas vidas quotidianas com a presença dos EUA e da NATO. É isso que os aflige e que é a raiz do problema.

Sabe, ainda estávamos em Londres e vimos uma produção baseada em “A People’s History of the United States” de Howard Zinn, onde eram as próprias pessoas a falar. Será emitida no canal História do Reino Unido a 31 de Outubro, uma produção notável sobre a história do povo britânico. E uma das pessoas retratadas era você, a falar de "Blair defronta os mentirosos". Mas você tem uma longa história, de décadas, de mobilização em torno das políticas globais na Grã-Bretanha. E quanto a soluções neste momento? Quero dizer, tem essa One World March que vai ter lugar a 2 de Outubro em Washington, DC, com base no emprego, justiça e educação. E quanto ao tipo de organização que pensa ser a mais eficaz? As pessoas dizem: bem, o que deveria fazer Obama? O que deveria fazer Obama? Ele é humano, conquanto ocupe a posição mais poderosa do mundo. Mas, na verdade, não se trata da pressão dos movimentos sobre esses indivíduos? Não é isso que faz a história?

Concordo inteiramente consigo. E lembro-me de ter dito a muitos activistas nos Estados Unidos durante a campanha eleitoral de Obama – pessoas mobilizadas pelo MoveOn.org, etc. – "Tudo bem. Estão em campanha por Obama. Querem vê-lo eleito. OK, óptimo. Esperemos que ele vos dê o pretendem dele. Mas ele não o fará se o elegerem e voltarem para casa." E lembro-me de defender uma mobilização massiva contra a guerra, para a tomada de posse, que o iria pressionar desde o primeiro dia na nova administração, dizendo: "Parabéns, Barack. Agora fora de Bagdad e do Iraque. Fora de Kabul e do Afeganistão", desde o início. Não teríamos ganho quaisquer direitos democráticos, se as pessoas não lutassem por eles. O direito de voto para as mulheres nunca teria sido alcançado se não tivesse havido sufragistas a lutar por ele. Então, receio que seja essa a lição. E, sabe, quando as pessoas me dizem neste país: "Ah, mas há a pressão desses loucos da direita, o Tea Party e isto e aquilo", eu digo, "Obama gaba-se, e seu gabinete gaba-se, de terem 13 milhões de apoiantes online. Bem, que diabo estão eles a fazer com esses apoiantes? Porque não conseguem eles mobilizar nem uma fracção minúscula para darem a cara e darem-lhes apoio? Eles não fazem isso. Portanto, alguém tem de o fazer.

Ou eles estão lá e os meios de comunicação não cobrem. Num dos comícios do Tea Party em Washington, creio que coincidiu com o aniversário da guerra, estavam lá cerca de 500 membros do Tea Party. Havia milhares de pessoas a protestar contra a guerra. Não teve quase nenhuma cobertura, de certeza não a mesma que teve o Tea Party.

Exactamente. Portanto, a ameaça do Tea Party é amplificada na comunicação social de direita, a Fox e muitas outras, porque vêem nisso uma maneira útil de “malhar” na administração. Mas o que é preocupante, Amy, é a incapacidade do governo para os enfrentar com argumentos.

Tariq Ali, quero agradecer-lhe por ter estado connosco. Tariq Ali, "A Síndrome de Obama: Capitulação em Casa, Guerra Lá Fora” é o nome do seu novo livro.

Tradução de Paula Coelho para o Esquerda.net