Não há um movimento efectivo contra a guerra do Afeganistão porque a maior parte dos cidadãos dos EUA não têm de lutar. A utilização de mercenários representa uma grande mudança em comparação com outras guerras, defende Tariq Ali nesta entrevista de Theodore Hamm e Christian Parenti para a revista Brooklyn Rail.
O que acha das recentes declarações do general Stanley McChrystal acerca do "surpreendente" número de civis afegãos inocentes assassinados pelas forças dos Estados Unidos? O facto não é surpreendente, mas o seu reconhecimento por parte de uma alta chefia militar não deveria motivar uma oposição real à guerra?
Deveria, mas não o faz porque os cidadãos norte-americanos e europeus (estes últimos em grande maioria) que se opõem à guerra se sentem impotentes. Nos Estados Unidos, evidentemente, Obama comprometeu-se a intensificar a guerra, uma promessa eleitoral que levou a cabo conscienciosamente. Não sendo directamente afectados - como no tempo do serviço militar obrigatório [da Guerra do Vietname] - os liberais americanos importam-se pouco que os estrangeiros sejam assassinados. As observações de McChrystal foram programadas sobretudo para consumo interno no Afeganistão. Estava a dirigir-se simultaneamente aos afegãos e aos esquadrões assassinos, alertando-os para que fossem mais cautelosos.
Acha que a popularidade pessoal de Obama é a razão principal da não existência de um movimento visível contra a guerra?
Parcialmente. Obama fala da guerra em termos do bem e do mal e obtém o benefício da dúvida a partir do momento em que os seus seguidores têm a certeza de que ele simboliza o bem. Até os seus opositores acham que a resistência afegã simboliza o mal. Como mencionei anteriormente, a principal razão da inexistência de um movimento efectivo contra a guerra deve-se ao facto de a maior parte dos cidadãos dos Estados Unidos quase não se dar conta de que estão em guerra, uma vez que não têm de lutar. A utilização de mercenários representa uma grande mudança em comparação com as guerras dos Estados Unidos no século passado.
Por que acha que Obama intensificou a guerra no Afeganistão? Há interesses materiais envolvidos ou trata-se unicamente de uma questão política e de "credibilidade" para os Estados Unidos?
Acho que ele acredita nisso, tal como disse, quando era candidato ao Senado, que apoiaria Bush se este decidisse bombardear o Irão. O facto de Obama ser, indubitavelmente, inteligente, não o transforma automaticamente num liberal ilustrado, como pudemos ver tanto no plano nacional como no internacional.
No passado, apresentou Hamid Karzai como um fantoche dos Estados Unidos. O que acha que se passa agora com ele?
É ainda um fantoche no sentido em que, se a NATO se retirasse, se veria obrigado a acompanhá-la. Mas, obviamente, até os fantoches se aborrecem quando são maltratados. As tentativas grosseiras de Peter Galbraith e Holbrooke para se livrarem de Karzai fracassaram. Nos velhos tempos do Vietname do Sul, os líderes fantoches recalcitrantes eram liquidados pela CIA. O problema é que agora os Estados Unidos não têm ninguém para substituir Karzai. Ele é o fantoche mais credível e enriqueceu muito graças às "habilidades" comerciais do irmão (o contrabando de heroína e de armas é lucrativo), coisa que lhe permite comprar apoio local. O facto de os Estados Unidos terem tentado afastá-lo e terem falhado melhorou um pouco a sua posição, mas toda esta atenção lhe subiu à cabeça. E quando os fantoches começam a fantasiar que não são o que são, as coisas às vezes descontrolam-se. McChrystal e Eikenberry têm consciência disso e por isso tentaram limar arestas.
Como é a relação entre os talibãs afegãos e paquistaneses?
Os talibãs afegãos têm agora muitas facções. A facção do ulema Omar denunciou recentemente que os talibãs paquistaneses têm por objectivo militar mais as forças de segurança do Paquistão que as da NATO. O resto é difícil de saber. Algumas facções estão há anos em contacto com os Estados Unidos, em negociações informais, mas não se chegou a qualquer acordo. De modo que quando Karzai também fala da incorporação dos talibãs ao governo, ninguém deveria surpreender-se. Washington também deseja que os "bons" talibãs façam o mesmo. As tentativas de dividir os insurgentes nunca param, mas até ao momento tiveram um sucesso limitado.
Em que medida estão a Índia e o Paquistão a travar uma guerra por procuração ou, pelo menos, a competir e a lutar entre si no Afeganistão?
Até há pouco tempo, a Índia, que tem uma forte presença diplomática e extra-diplomática no sul do Afeganistão, apoiava Karzai. Vêem-no como uma vingança em relação ao Paquistão, que enviou jihadistas para Caxemira, nos anos 90. De modo que os interesses dos dois Estados estão em conflito. A Índia fará o que lhe for possível para deter a reafirmação da influência do Paquistão após a retirada da NATO. Mas falar de uma guerra por procuração é exagerado. Há uma ocupação do país por parte dos Estados Unidos e da NATO, que tem o apoio quer da Índia, quer do Paquistão.
Nos Estados Unidos pouco se fala acerca da ocupação russa ou da história do comunismo afegão. Fale-nos um pouco acerca da revolução Saur dos anos 70. Tem um legado potencialmente positivo no Afeganistão actual?
A ocupação soviética foi um desastre a todos os níveis e criou os alicerces do que aconteceu depois: um país devastado por guerras e ocupações desde 1979 até à actualidade, ou seja, mais tempo que o conjunto das duas guerras mundiais, mais tempo que o conjunto das guerras dos Estados Unidos na Coreia e no Vietname.
Talvez nada disto tivesse acontecido se os russos não tivessem enviado o exército em Dezembro de 1979. Já nessa altura o afirmei. As duas ocupações são muito diferentes. Os russos apoiavam um governo que estava a tentar criar um serviço de saúde, educação livre para todos (mulheres incluídas) e que combatia o obscurantismo. Fê-lo de uma forma grosseira e os tiroteios ao estilo far-west entre facções comunistas rivais, num dos quais o presidente Taraki foi assassinado, não deixaram uma imagem muito positiva. A ocupação dos Estados Unidos é de estilo neoliberal. Os ricos ficam mais ricos e os subúrbios de Cabul vão-se expandindo.
25/04/2010
Tradução de Helena Pitta