Mortes são todas nas zonas pobres. Lula pede que as pessoas deixem as áreas de risco e esperem a chuva passar. Obras para minimizar os efeitos das cheias estão há muito previstas mas nunca saíram do papel.
O último balanço das autoridades aponta para a morte de 102 pessoas no estado do Rio de Janeiro, Brasil, como consequência do maior temporal de que há registo na história. Em 15 horas, entre as 21h (horário de Lisboa) de segunda-feira e as 8h de terça-feira as estações meteorológicas registaram 288 milímetros de chuva, mais que os 245 milímetros de 1966, um temporal que arrasou a cidade do Rio.
O maior número de mortes, 53, ocorreu em Niterói, cidade da região metropolitana. Na capital, morreram 37 pessoas. A maior parte das mortes ocorreu devido às derrocadas de encostas em zonas pobres, de favelas. As autoridades apelaram a que todos que estivessem em áreas de risco para deixarem imediatamente as casas, mas não lhes apresentou qualquer alternativa de abrigo. Já há mais de duas mil pessoas desabrigadas.
A cidade ficou praticamente paralisada, com milhares de pessoas sem possibilidade de voltar para casa ou ir trabalhar. As aulas foram suspensas em todas as escolas.
O governador do estado do Rio, Sérgio Cabral, decretou luto oficial de três dias pelos mortos na catástrofe.
O presidente Lula disse que, em situações desse tipo, o que resta às autoridades é pedir que as pessoas deixem áreas de risco e "esperar a chuva parar". No Rio de Janeiro, o presidente disse à imprensa que "não há possibilidade do homem vencer intempéries" desta magnitude:
"Quando tem uma chuva dessa magnitude, a única coisa que resta a fazer, para o prefeito, para o governador, para a Defesa Civil, é pedir para as pessoas: primeiro, quem mora em encosta, sair da encosta; quem mora em área de risco, sair da área de risco; quem mora na beira de córrego, sair da beira de córrego, e esperar a chuva parar para que a gente possa começar a resolver os problemas."
A verdade, porém, é que há muito que estão identificadas áreas de enchente e que se conhecem propostas para resolver os problemas, mas estas nunca saíram do papel.
A cidade que vai receber o mundial de futebol em 2014 tem um dos seus principais estádios, o Maracanã, em zona de enchente. O estádio sediará também cerimónia de abertura e encerramento das Olimpíadas de 2016.
Mais grave que isso é a situação das favelas, onde ocorreram praticamente todas as derrocadas e mortes e que precisam de obras urgentes que nunca são feitas. O estado tem recebido, porém, royalties da exploração do petróleo na região. Não é, assim, a falta de recursos que justifica a ausência de obras que minimizassem os efeitos das tragédias naturais.