Morreu o dramaturgo Augusto Boal

04 de maio 2009 - 3:28
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Augusto Boal. Foto de am or, FlickRO dramaturgo Augusto Boal, de 78 anos, morreu neste domingo, vítima de insuficiência respiratória. Fundou o Teatro do Oprimido, uma metodologia que pretende que o teatro seja apropriado por todos, em particular aqueles que têm menos poder e que sofrem mais. Boal viveu em Portugal dois anos, trabalhando com A Barraca, com quem dirigiu a montagem de "A Barraca Conta Tiradentes" (1977), onde actuou, entre outros, Mário Viegas.

Augusto Boal lutava há vários anos contra uma leucemia, que acabou por vitimá-lo. O dramaturgo nasceu em 1931, no Rio de Janeiro, formou-se em engenharia química e estudou dramaturgia em Columbia, Nova York. Em 1956, começou a dirigir o histórico Teatro de Arena, um dos mais importantes grupos teatrais brasileiros das décadas de 50 e 60, que promoveu uma renovação e nacionalização do teatro brasileiro.

Um dos marcos do Arena foi, em 1958, a peça "Eles não usam black-tie", de marcado cariz social e político, escrita por Gianfrancesco Guarnieri.

No começo dos anos 60, articulou o intercâmbio entre o Arena e o também histórico Teatro Oficina, de Zé Celso Martinez Corrêa, que resultou em espectáculos como "A Engrenagem". Em 1964, dirigiu o espectáculo 'Opinião', que reuniu artistas contra o regime militar.

Foi nessa época que Boal começou a criar a metodologia do teatro do oprimido, que sistematiza mais tarde na obra "Teatro do oprimido e outras poéticas políticas", uma colectânea de textos escritos entre 1962 e 1973.

"Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!", explicava Boal, num texto escrito recentemente. "Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!"

E prosseguia: "Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espectáculos da vida diária onde os actores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, o palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver, tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida quotidiana."

Em 1971, durante a ditadura militar brasileira, Boal foi preso e, posteriormente, exilado. No exílio, passou por países como Argentina e Portugal, leccionou na Sorbonne-Nouvelle, em Paris, onde criou o Centre du Théatre de l´Opprimé-Augusto Boal, em 1979.

Em 1986, volta ao Brasil, e dirigiu a 'Fabrica de Teatro Popular', um projecto que desejava tornar a linguagem teatral acessível a todos. No mesmo ano, criou o Teatro do Oprimido - CTO-Rio, para difundir o Teatro do Oprimido no Brasil, sede que existe até hoje no bairro carioca da Lapa.

O Teatro do oprimido tem centros de difusão nos Estados Unidos, em França e no Brasil.

O Movimento dos Sem-Terra do Brasil tornou pública uma carta de homenagem ao dramaturgo, em que afirma que "o teatro mundial perde um mestre, o Brasil perde um lutador, e o MST um companheiro."

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