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“Quo Vadis, Aida?”: a história da Jugoslávia na tela

O filme “Quo Vadis, Aida?”, da realizadora Jasmila Žbanić, obteve vários reconhecimentos internacionais. A força e o propósito do filme consiste em denunciar o que foi um crime contra a humanidade numa zona de segurança da ONU. Por Catherine Samary
Aida, personagem interpretada por Jasna Djurićić no filme “Quo Vadis, Aida?” da realizadora  Jasmila Žbanić – Foto de contretemps.eu
Aida, personagem interpretada por Jasna Djurićić no filme “Quo Vadis, Aida?” da realizadora Jasmila Žbanić – Foto de contretemps.eu

O filme “Quo Vadis, Aida?”, da realizadora de Sarajevo, meu amor (2006), Jasmila Žbanić, já obteve vários reconhecimentos, entre os quais a nomeação para o Óscar 2021 para a melhor película internacional. É uma ficção histórica, a história de Aida, uma professora de inglês de Srebrenica, recrutada como intérprete no acampamento das tropas da ONU que deveriam proteger o enclave muçulmano num território dominado pelas forças nacionalistas sérvias da Bósnia e que tentará salvar o marido e os filhos.

A força e o propósito do filme consiste em denunciar (ou seja, recordar e debater) o que foi um crime contra a humanidade numa zona de segurança da ONU. Quem vai ver o filme sabe que se trata do massacre de Srebrenica, em julho de 1995, na Bósnia-Herzegovina. No entanto, os três anos de guerra, decorridos desde 1992 só são evocados pelo caderno que o marido de Aida tem vindo a escrever e que vai destruir por precaução sem que se chegue a conhecer o seu conteúdo.

Não vou contar o filme, já que foi inteligentemente construído como um thriller. A feroz e impressionante determinação de Aida, magistralmente interpretada por Jasna Djurićić, estrutura o filme, sem emoção. A talentosa realizadora Jasmila Žbanić não faz dela uma heroína e sabe destilar subtis discrepâncias (leia-se críticas) sobre as suas decisões (voltadas apenas para a família), que se expressam tanto na população, como na família de Aida. Mas a parábola pretende mostrar o drama vivido num contexto que não deixa muitas saídas.

O momento em que o filme começa tem data precisa: 11 de julho de 1995. Após três anos de guerra de limpeza étnica, uma região inteira da Bósnia-Herzegovina (BH) está sob o controle das milícias e das forças armadas sérvias, dirigidas por Ratko Mladić . O filme não especifica, mas como se sabe, o propósito explícito destas forças é, após o desmembramento da Jugoslávia plurinacional, anexar esta área da BH (uma vez homogeneizada a partir da população sérvia, por meio da guerra) à vizinha Sérvia 1. A cena gira em torno de Srebrenica, na véspera de um ataque anunciado pelas tropas de Mladić com o objetivo de completar o controle político do território sérvio da BH 2. Para os nacionalistas sérvios, trata-se de suprimir, após vários anos de luta aberta, este enclave de maioria muçulmana.

O filme revela certas tensões, hesitações, perfis diversos na população e até na família de Aida, sobretudo por parte de um dos seus filhos, tentado a juntar-se aos combatentes escondidos na floresta. Além disso, Aida recorda alguns momentos felizes do passado que sem dúvida surpreenderão aqueles que sustentam certos clichés sobre os curiosos muçulmanos bósnios, crentes e praticantes ou não. Outro sinal da sociedade do passado, Aida é uma cidadã de Srebrenica, professora de inglês, muçulmana no sentido étnico-nacional da palavra, que na época designava a parte da população eslava da Bósnia atribuída à cultura muçulmana, que desde então chamam de bósniaca 3. As diferentes culturas não impediram encontros com a vizinhança. As escolas eram, nesse sentido, lugares de miscigenação. Assim, Aida reconhece, de longe, entre as fileiras de Mladić, um dos seus antigos alunos, um sérvio, refletindo a realidade pré-guerra e também o presente de terríveis confrontos entre antigos vizinhos e até colegas das mesmas classes.

Foi precisamente para pôr fim a vários anos de combates ferozes que devastaram e destruíram os cantões desta região que a ONU declarou Srebrenica área protegida depois de a ter desmilitarizado. No início do filme, os seus comandantes locais (vindos dos Países Baixos) tentam tranquilizar a população que se amontoa atrás das grades do acampamento que eles fecharam. Diante do anúncio de um ataque, um ultimato da NATO ameaça bombardear os locais de concentração das forças armadas de Mladić se elas não saírem do enclave até uma determinada hora. Mas a hora passa e das conversas telefónicas entre funcionários da ONU deduz-se que o Alto Comando recuou e prometeu que não haverá bombardeamentos 4: trata-se de reafirmar o suposto estatuto de neutralidade da ONU, força de manutenção da paz (uma paz que ainda não existe). Portanto, não é questão de fazer ameaças de bombardeamento da OTAN ... e Mladić sabe disso.

A realizadora mostra-nos as duas faces de Jano - unidas e coerentes com o propósito declarado - de Mladić. Por um lado, discursos pseudo-apaziguadores de “negociadores”, em que não só acreditarão os dirigentes da ONU, mas também uma parte dos bósnios (não sem comentários lúcidos de uma das suas protagonistas). Nesta perspectiva, Mladić fará distribuir pão aos famintos e dirá que está farto desta guerra que não quer. Ele afirma que vai deixar a população decidir se fica ou prefere partir, escoltada pela ONU.

Mas também é visto com as suas tropas a conquistar uma Srebrenica deserta, eliminando qualquer sinal (bandeira) de rebelião e identidade muçulmana. E enquanto ele negoceia, testemunhamos uma cena construída com maestria: um dos comandantes de Mladić chega com o seu batalhão armado até aos dentes e exige - e rapidamente obtém o sinal verde dos líderes da ONU - autorização para entrar no campo e verificar se os homens refugiados nele têm lá armas escondidas. Depois de constatar a ausência de armas, ele faz um comentário sinistro: três anos de guerra, diz ele, transformaram todos em combatentes (resistentes potenciais ...). Por fim, exige e consegue a evacuação do acampamento: o Tribunal de Haia apenas condenará este abandono dos comandantes holandeses da base da ONU 5.

Segue-se a última fase do plano macabro –e das suas duas vertentes de expulsões / fugas e massacres–: separação de mulheres e meninos e meninas dos homens (de todas as idades). Estas famílias truncadas terão que viajar de autocarro para municípios situados fora do território sérvio, enquanto maridos, pais, irmãos e filhos serão transferidos para destinos secretos. E abatidos em massa. Este desenlace não é o fim do filme, que não se esgota na sucessão de atos de violência. No entanto, um dos massacres num hangar condensa a sua temática. A cena termina numa escola, onde Aida volta a dar aulas. Por ocasião de uma festa, os alunos apresentam um espetáculo. De longe, Aida reconhece, petrificada, um avô alegre que estava com as tropas de Mladić. Não há conclusão. Um olhar carregado de sofrimento. E muitas dúvidas e incertezas sobre o futuro.

Todos os anos, desde o final dos anos 1990 (pós-guerra, portanto), em 11 de julho as esposas, irmãs, filhas e mães daqueles homens friamente assassinados reúnem-se perto de Srebrenica com centenas de pessoas. Até ao momento, mais de 8.000 nomes estão inscritos no Memorial Potočari-Srebrenica, criado em homenagem às vítimas após anos de investigações, que ainda prosseguem, e de exumações de sepulturas.

O funil do filme e muito mais

“Quo Vadis, Aida?” não é um documentário, por mais que conte, com talento, factos reais. Interpela, estabelecendo apenas a obrigação de ver a ponta do funil, aqueles factos que oferece para análise e interpretação. Pode-se subir pelo funil, até ao núcleo do filme e mais além. Os debates em torno do filme permitem isso. Esta é apenas uma das muitas contribuições possíveis …

Em primeiro lugar, podemos fazer um esforço para captar o que personifica a personagem de Aida e - com toda a sua diversidade - a sua família. Isso exige ampliar um pouco o foco para a população de Srebrenica, a sua diversidade, a sua história, antes e durante os três anos de combates. Mas a personagem de Aida também nos obriga a penetrar nos círculos da ONU, primeiro no acampamento dos Capacetes Azuis que a recrutou como intérprete, e imediatamente na cúpula de dirigentes da instituição.

No entanto, também podemos sair do filme e ampliar ainda mais o foco, prosseguindo a investigação sobre os factos históricos. Por um lado, no plano internacional, para além da ONU, examinando os contextos (fim do mundo bipolar, dissolução do Pacto de Varsóvia, mas ... continuidade da NATO (!)). No filme só os Países Baixos são mencionados, pois são as suas tropas que têm o azar de assumir a responsabilidade por aquele campo. Mas temos de nos interrogar sobre os laços entre a ONU e a NATO, visíveis no filme, durante a crise jugoslava: isso facilitará a transformação e expansão da NATO, enquanto a URSS e o Pacto de Varsóvia tinham desaparecido em 1991. O filme mostra os contornos de um binómio – a NATO como braço armado da ONU– que leva ao imbróglio (dos reféns) e à “retirada” acima mencionada.

Mas de Srebrenica aos outros territórios da ex-Jugoslávia, que planos (negociados por quem?) e que manutenção da paz deviam aplicar os Capacetes Azuis? O funil dos factos de Srebrenica deve alargar-se ainda mais até as negociações de Dayton que puseram fim a esta guerra, apenas alguns, meses depois. A maioria das pessoas que vêem o filme sem dúvida esqueceram quem foram os protagonistas das negociações que se desenrolaram imediatamente após o massacre de Srebrenica e que foram concluídas com os acordos de Dayton-Paris em dezembro de 1995. Trata-se de muito mais que um acordo de cessar-fogo, elaborado em Dayton (Ohio, EUA), nomeadamente a nova Constituição de um país declarado soberano (sob a presidência de Ilia Izetbegovic, um dos signatários dos acordos), mas dividido em entidades sobre bases étnicas que validam as relações de forças no terreno.

Os outros dois signatários dos acordos serão Slobodan Milosevic (presidente sérvio do que restou da federação jugoslava com Montenegro) e o líder croata Franjo Tudjman, ou seja, os dois presidentes dos estados vizinhos. Eles são considerados representantes dos sérvios e croatas da Bósnia-Herzegovina, respectivamente, já que Izetbegovic se apresenta como a encarnação dos muçulmanos.

Isto significa que é necessário analisar por trás dos discursos dominantes das duas grandes séries de rupturas históricas em curso em meados da década de 1990: de um lado, os atores internos da crise do sistema e da federação jugoslava titista (e, portanto, da transformação das relações de propriedade, direitos sociais e nacionais, ideologias e poderes de Estado que a restauração capitalista em curso acarreta), com o debate sobre as suas causas. Há que incluir nisso o impacto da crise mais ampla das experiências que se reclamavam do socialismo e do fim da URSS de Gorbachev. E, por outro lado, as fases e cenários da crise da ordem capitalista mundial nas suas dimensões europeu-ocidentais com a criação da União Europeia (UE). Na encruzilhada concreta das duas “histórias”, as negociações de Gorbachev com o chanceler alemão e a unificação alemã, na opacidade da reviravolta histórica de 1989.

Por outras palavras, a desintegração consumada da federação jugoslava (declarações de independência da Eslovénia e da Croácia em 1991) e a eclosão de confrontos violentos na Croácia primeiro e na Bósnia-Herzegovina depois, ocorrem no meio da construção altamente incerta da União Europeia, em conflito com os projetos dos EUA e em que o casal franco-alemão é totalmente incapaz de chegar a um acordo sobre uma política externa comum em relação à crise jugoslava. A opacidade disso - mesmo que apenas devido à mudança de etiquetas políticas dos líderes locais - e os confrontos armados no terreno para se apoderarem de territórios e propriedades em nome dos novos Estados-nação ocorrem em contextos de mudança.

A clarificação de tudo isto não é necessária para ver e entender o filme “Quo Vadis, Aida?”; nem para saber e convencer-se de que em Srebrenica houve um crime contra a humanidade e um fracasso flagrante da ONU. Por isso, a realizadora não pode ser responsabilizada pela escolha do enredo, ainda que as populações do espaço jugoslavo e da BH (especialmente sérvias) que sofreram outros massacres ou expulsões em massa dificilmente aceitarão o filme. Vão censurá-lo por ter isolado um caso concreto de um conjunto necessário para a plena compreensão, incluindo o que sofreram as populações muçulmanas (no sentido étnico-nacional indicado), que reivindicaram 70% das vítimas quando representavam 40% da população.

Se é verdade que a estabilização do conjunto do espaço jugoslavo será impossível sem justiça política e social diante de todos os crimes cometidos, o que significa não deixar de lado nenhuma das vítimas, o filme nada impede a esse respeito . Deve ser considerado um dos verdadeiros aspectos (parciais) destas realidades. Negar ou minimizar a realidade sem abordar e relacionar tudo o mais leva a um beco sem saída. Limitar-se a Srebrenica ou exclusivamente ao filme, também.

Independentemente da sua nacionalidade, da sua história, das suas experiências (incluindo esses dramas tão cruéis), todos devem fazer um julgamento claro e incondicional sobre Srebrenica. Por que não precisamos de parar por aí, empreendi aqui o levantamento necessário através do funil que o filme abre e abaixo reproduzo extratos de textos6 (entre muitos outros) sobre a realpolitik das grandes potências em Dayton, e sobre os protagonistas desses acordos.

Só mais uma observação, para concluir estes comentários, a respeito das polémicas em torno da qualificação de genocídio aplicada a este massacre nas sentenças do Tribunal Penal Internacional de Haia. Eu, pessoalmente, partilho o julgamento de Rony Brauman, ex-presidente de Médicos Sem Fronteiras, que sublinha que falar sobre genocídio não é correto, uma vez que não mataram as mulheres, nem as crianças. Mas não há dúvida de que é um massacre, um crime de guerra e um crime contra a humanidade contra "homens com idade para carregar armas". No entanto, é possível tornar a qualificação mais precisa, inspirando-nos, a meu ver, em analogias com o caso palestino. O conjunto de meios utilizados - não apenas o massacre - aponta expressamente para uma limpeza étnica de territórios, cuja lógica pode ser traçada num mapa. Abrange um povo muito além da religião e de Srebrenica. E não nega a sua legitimidade histórica sobre o território em questão.

O termo etnocídio que tem sido usado para descrever a política sionista em relação ao povo palestino parece-me apropriado, com a localização da população muçulmana da Bósnia para desaparecer ou ser assimilada na Croácia ou na Sérvia. Esta violência multidimensional impõe a religião como única base de identidade para a população bósnia. É também a violência vivida e rejeitada por pessoas sérvias e croatas da Bósnia-Herzegovina que não se reconhecem nas políticas nacionalistas ou religiosas dos partidos dominantes.

Artigo de Catherine Samary, publicado em Contretemps, traduzido para espanhol por Viento Sur e para português por Carlos Santos para esquerda.net

Notas:

1 O filme também não menciona o facto de que o mesmo objetivo é perseguido simultaneamente em Herceg-Bosna pelas milícias e forças nacionalistas croatas em relação à Croácia; isto é, a população bósnia da BH está presa entre dois fogos, isto é entre dois projetos concertados das forças nacionalistas croatas e sérvias de BH, no contexto de um entendimento entre os líderes da Sérvia e da Croácia.

2 Numa lógica que aspira à autodeterminação da população sérvia da BH, foi proclamada a república (Republika Srpska) da Bósnia, que os acordos de Dayton reconheceriam como entidade sérvia de BH, validando assim a limpeza étnica.

3 Recordemos que na Jugoslávia titista multinacional, como nas repúblicas (na sua maioria não homogéneas), especialmente na BH, distinguia-se no plano constitucional a cidadania (jugoslava ou, em BH, bósnia), derivada do ius soli universal, por outro lado a nacionalidade ou pertença declarada (voluntariamente) a um dos povos constituintes da federação multinacional, com formas de representação não proporcional ao seu número numa Câmara ad hoc das nacionalidades, paralela ao equivalente do parlamento. Estes povos, em sentido étnico-nacional, surgiam de diversas géneses históricas e de uma subjetividade evolutiva das pessoas e muitas vezes múltipla; BH não tinha maioria étnica nacional (pouco mais de 40% da população bósnia era muçulmana (bósnios), cerca de 33% sérvios bósnios e 15% croatas.

4 Esta retirada é real. No entanto, o filme não explica como aconteceu: a 4 de junho de 1995, o comandante francês das forças militares da ONU na antiga Jugoslávia, general Bernard Janvier, reuniu secretamente com o General Ratko Mladić para negociar a libertação de várias centenas de Capacetes Azuis feitos reféns após os primeiros bombardeamentos da NATO, que agia como braço armado da ONU. Mais de metade dos reféns eram franceses. Mladić exige de Janvier que cessem os bombardeamentos aéreos, o que é concedido. O filme situa-se, de facto, nesse quadro.

5 O filme menciona o facto de que os Países Baixos estão encarregados da base da ONU. Deve-se observar que a 16 de julho de 2014, o tribunal de Haia decidiu que o Estado holandês era civilmente responsável por 300 mortes ocorridas em Srebrenica, porque os soldados holandeses não deveriam ter evacuado esses homens da base onde se tinham refugiado.

6 Ver Anexo X- extrato de “Do desaparecimento sangrento da ex-Jugsolávia” em Contretemps, ou em espanhol em Viento Sur.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora e professora na universidade Paris-Dauphine (aposentada).
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