Paradise Papers: Investigação expõe atividades offshore de mais de 120 políticos e líderes mundiais

05 de November 2017 - 22:06

A fuga de informação revela, por exemplo, as ligações entre a Rússia e o secretário do Comércio de Trump e os interesses offshore da rainha de Inglaterra, bem como os esquemas que empresas como a Nike, Glencore, Apple e Uber utilizam para fugir aos impostos.

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Este domingo, o ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação), do qual faz parte em Portugal o semanário Expresso, lançou uma nova investigação global sobre as atividades offshore de algumas das pessoas e empresas mais poderosas do mundo: The Paradise Papers.

Em causa estão mais de 13,4 milhões de arquivos obtidos pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung, e partilhados com o ICIJ e uma rede de mais de 380 jornalistas em 67 países. O novo conjunto de fugas de informações provém da Appleby, que integra o “Offshore Magic Circle”, uma elite informal constituída pelos maiores operadores de offshore do planeta, da Asiaciti Trust, uma gestora de fundos fiduciários, bem como de registos comerciais de alguns dos paraísos fiscais mais secretos do mundo, no Caribe, no Pacífico e na Europa.

A investigação expõe interesses e atividades offshore de mais de 120 políticos e líderes mundiais. Em causa estão, por exemplo, as ligações entre a Rússia e o secretário do Comércio dos Estados Unidos, os negócios secretos do responsável de angariação de fundos do primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau, os interesses offshore da rainha de Inglaterra e de mais de 120 políticos no mundo inteiro.

Os Paradise Papers mostram ainda como multinacionais como a Apple, a Nike, a Glencore e a Uber recorrem a esquemas de contabilidade cada vez mais criativos para fugir aos impostos.

Administração Trump: Atividades offshore e ligações com a Rússia

O multimilionário Wilbur Ross, secretário do Comércio de Donald Trump, serviu-se de uma teia de entidades das Ilhas Caimão para manter uma participação financeira na empresa de transporte marítimo Navigator Holdings, que recebeu mais de 68 milhões de dólares desde 2014 da Sibur, uma empresa de energia russa detida por aliados próximos de Vladimir Putin, entre os quais o seu genro, Kirill Shamalov.

A associação de Yuri Milner, um magnata da indústria tecnológica que investiu 850 mil dólares numa empresa imobiliária, Cadre, cofundada por Jared Kushner, genro de Trump e atual conselheiro da Casa Branca, a instituições financeiras do Kremlin também é desvendada nesta mega fuga de informações.

É ainda sinalizado como duas empresas públicas da Rússia - o banco VTB e uma holding da Gazprom  - investiram centenas de milhões de dólares no Twitter e no Facebook através de Milner.

A investigação expõe as ligações a offshores de mais de uma dúzia de financiadores, conselheiros e membros do governo de Trump, bem como do secretário do Comércio de Barack Obama, Penny Pritzker, e de alguns financiadores das campanhas republicana e democrata, incluindo Randal Quarles e George Soros.

 

Rainha da Inglaterra investiu 11,3 milhões em offshore

Os ficheiros da Appleby revelam ainda que, a partir de 2007, os gestores do património pessoal da rainha Isabel II investiram mais de 11 milhões de euros num fundo das Ilhas Caimão que, por sua vez, alocou dinheiro para vários negócios, incluindo a BrightHouse, a maior retalhista do Reino Unido, que tem sido alvo de inúmeras criticada por explorar milhares de famílias desfavorecidas.

Os documentos divulgados mostram também que Stephen Bronfman, conselheiro e amigo próximo do primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau, transferiu milhões de dólares para um trust nas Ilhas Caimão.

Os Paradise Papers expõem ainda as ligações a offshores de políticos e líderes mundiais como a rainha Noor da Jordânia; Sam Kutesa, ministro dos Negócios Estrangeiros do Uganda e ex-presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas; Henrique de Campos Meirelles, ministro das Finanças do Brasil; Antanas Guoga, eurodeputado lituano e jogador de póquer profissional; o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos; o antigo chanceler alemão Gerhard Schroeder; ou Wesley Clark, um general de quatro estrelas do Exército dos EUA atualmente aposentado, ex-comandante supremo da NATO na Europa e que chegou a candidatar-se à presidência nas primárias norte-americanas.

As grandes multinacionais e os esquemas de fuga aos impostos

Na lista de clientes da Appleby figuram grandes bancos internacionais, como o Barclays, o Goldman Sachs e o BNP Paribas, o fundador de um dos maiores conglomerados de construção do Médio Oriente, o Grupo Saad, e a empresa japonesa responsável pela gestão operacional da central nuclear de Fukushima, bem como multinacionais como a Apple, a Nike, a Glencore, multinacional do sector mineiro, e a Uber, que recorrem a esquemas de contabilidade cada vez mais criativos para fugir aos impostos.

Além das revelações sobre políticos e grandes empresas, os Paradise Papers fornecem detalhes de como os proprietários de jatos e iates, incluindo estrelas do desporto, oligarcas russos e membros de governos, usaram estruturas de evasão fiscal da Ilha de Man.

Famosos como Bono e Madonna também não escapam a esta investigação. O membro dos U2 Bono por ter tido ações numa empresa registada em Malta que investiu num shopping center na Lituânia e Madona por deter ações numa empresa de produtos médicos.

Segundo o jornal Expresso, não constam destes documentos presidentes ou primeiros-ministros portugueses, no entanto, os ficheiros incluem mais de 70 cidadãos nacionais, entre os quais antigos administradores do Grupo Espírito Santo e do BPN.