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A pandemia já está a afetar os países em desenvolvimento?

A dificuldade de estabelecer medidas de distanciamento social eficazes e a fuga de capitais para o exterior colocam problemas sérios à capacidade de combater a pandemia nos países em desenvolvimento.
India em lockdown. Foto: Kinshuk/Flickr
India em lockdown. Foto: Kinshuk/Flickr

À medida que o surto de coronavírus vai atingindo os países em desenvolvimento, os seus impactos económicos já se começaram a sentir e prometem ser devastadores. As medidas de distanciamento social para “achatar a curva” têm sido compensadas, de forma mais ou menos bem conseguida, pelos governos nos países ocidentais (EUA e Europa). Mas a verdade é que a tarefa é bem mais complicada para os restantes.

Há vários motivos que o explicam. Por um lado, nos países em desenvolvimento há maior peso dos trabalhadores informais/precários na população ativa, cujos rendimentos ficam em perigo devido à quarentena e ao travão na atividade económica. Por outro lado, o confinamento em bairros com poucas condições sanitárias e grande densidade populacional não parecem uma solução eficaz para travar o contágio. As medidas de distanciamento social podem ser pouco eficazes neste contexto, o que levanta problemas sobre o caminho a seguir.

Os problemas agravam-se dado que os governos destes países não têm a possibilidade de se financiar a baixas taxas de juro. Ao contrário dos países ocidentais, onde os bancos centrais têm permitido que as condições de financiamento se mantenham estáveis, o mesmo não acontece noutras paragens. Além disso, desde o início da crise, tem-se assistido a uma fuga de capitais dos países em desenvolvimento sem precedentes neste século. A saída de capitais investidos em carteira já excede 80 mil milhões de euros, o quádruplo do valor registado na crise financeira de 2007-08. O preço das mercadorias que estes países exportam também tem vindo a cair (não era tão baixo desde a década de 1970). A escassez de recursos agrava a sua capacidade de gerar rendimento para responder à crise.

A combinação destes efeitos leva a que os países em desenvolvimento passem a enfrentar severas dificuldades de financiamento – o que, em economia, se costuma chamar “travagem repentina” (sudden stop). Para evitar o colapso destes países, são necessárias respostas rápidas e decisivas.

É por isso que têm surgido apelos para a reestruturação da dívida dos países em desenvolvimento a instituições internacionais como o FMI ou o Banco Mundial, de forma a diminuir os encargos com a dívida e libertar recursos para o combate à pandemia. Na América Latina, um conjunto de líderes partidários, ativistas, jornalistas e escritores divulgou um abaixo-assinado neste sentido. Entre os subscritores contam-se Dilma Roussef (Brasil), Rafael Correa (Equador), Álvaro García Linera (Bolívia) ou José Luis Zapatero (Espanha).

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