O líder parlamentar do Bloco de Esquerda recuou até ao anterior debate do programa de governo para vincar diferenças. Recordou como então a direita estava “amargurada” e “zangada com país”, “entregue ao azedume”, um caminho que durou quatro anos, com o “resultado à vista”: não apresentaram “alternativas credíveis para o país” e tiveram “uma derrota eleitoral histórica.
Por outro lado, o governo apresentou-se no debate de há quatro anos disposto a “ganhar legitimidade” e a “garantir cooperação” e o Parlamento deu-lhe como resposta mostrar “como havia outras possibilidades”. Resultou dessa atitude uma recuperação de salários e pensões que conseguiu “resgatar a esperança” das “garras da troika” que mostrou que havia “alternativa à austeridade”.
Fazendo o balanço de que “valeu a pena” e de que “não nos arrependemos”, Pedro Filipe Soares sabe que desta feita “nem tudo está igual ao que estava em 2015”. Onde então “havia compromissos para quatro anos e um programa com medidas concretas, escritos sob a forma de acordos formais” e “medidas concretas”, agora “parece existir um tom de desafio, de ameaça”.
Para o dirigente bloquista este “não é um bom caminho se se deseja mesmo a estabilidade para quatro anos” dado que “um projeto para quatro anos não devia começar por vir ao Parlamento mostrar que já fez as contas sobre como o Governo pode ser derrubado, precisamos é de fazer as escolhas certas para que essas contas nunca tenham que ser feitas”.
Já o caminho com que o Bloco se compromete para os próximos anos é “nunca faltar às escolhas fundamentais” mostrando-se disponível para “aumentar salários e alargar direitos”. Mas, adverte, “cooperação não é submissão”.
O Bloco não deixa por isso de reiterar que “esteve disponível para trabalhar sobre o programa de Governo, mas o PS assim não o quis”. O entendimento do partido sobre uma negociação deste tipo é de que esta implica “dialogar, envolver, comprometer” e não “pescar à linha medidas de uns e outros”.
Pedro Filipe Soares olha para o PS como tendo ficado “ressentido” por não ter alcançado “o sonho de uma maioria absoluta”, um “incómodo” que “deve ser ultrapassado pois é assim que a Democracia funciona”. O exemplo da direita mostraria, aliás, que “quem se zanga com o país nunca tem sucesso”. Por isso, o resultado das eleições “exige” conversações.
O fantasma do governo passado, as insuficiências passadas e muito que fazer no futuro
O líder parlamentar do Bloco lembrou ainda as “insuficiências” do governo anterior começando pela “fragilidade do Investimento Público”. Ao mesmo tempo que se “deitou dinheiro para o BANIF” o Bloco disse “que esse dinheiro fazia falta para a Escola Pública”. Quando se “pagou para vender o Novo Banco” o partido considerava que “esse dinheiro falta ao SNS”. E “sempre que o governo foi além da meta para o défice alertou “para o que faltava em investimento público”.
Pedro Filipe Soares tratou então de elencar alguns problemas por resolver: a situação nas urgências hospitalares, o caso do Hospital Garcia de Horta, a falta de auxiliares de ação educativa e de professores nas escolas, a crise habitacional e a falta de oferta pública de habitação, a precariedade e os baixos salários, a fuga de capitais para os offshore.
Quando o Bloco propôs soluções, “alguns até nos chamaram “empecilhos” dos quais se queriam livrar” mas, diz Pedro Filipe, “se tivéssemos sido escutados, hoje o país estaria melhor”.
Na análise do Bloco, este programa é assombrado pelo fantasma do governo passado e“mantém a dúvida sobre o Investimento Público”. Esta falta de investimento “assombra as pessoas que desesperam nos serviços públicos, que não têm os cuidados de saúde que merecem, que encontram as escolas encerradas ou as salas de aulas sem professores.”
Uma assombração que aparece sob a forma de superavit primário permanente de 3% do PIB: é a marca do Eurogrupo transformada em camisa de forças do Programa de Governo, sintetiza Pedro Filipe. Ir para além destas assombrações é aceitar o “desafio” de “ter a coragem de libertar o investimento público para as necessidades do país”.
O Bloco garante aceitar esse desafio, deixando claro que há muito a fazer. E mostra-se disponível para “criar as pontes necessárias” e para “participar nos diálogos essenciais” de forma a “vencer a crise climática, a crise da habitação, o desafio de uma economia para todos, justa e digna, com serviços públicos fortes e solidários.”