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Líbano: da taxa WhatsApp à revolta popular

Num país dividido por fortes linhas comunitárias, a revolta contra o governo e por melhores condições de vida parece ser um ponto de união. Desde quinta-feira que as manifestações enchem as ruas do Líbano. Começaram quando o governo procurou aplicar uma taxa às chamadas por aplicações como o WhatsApp.
Manifestação no Líbano. Outubro de 2019.
Manifestação no Líbano. Outubro de 2019. Foto de Jamal Elshayyal/Twitter.

Na passada quinta-feira, Mohamed Choucair, ministro libanês das Telecomunicações avançou com a proposta de cobrar 20 cêntimos de libra libanesa por dia a quem fizesse chamadas pela internet através de aplicações como o WhatsApp. A ideia não durou muito. Face aos protestos massivos foi retirada em poucas horas.

Já o que durou bem mais foram os protestos. Aquilo que foi chamado imediatamente pela imprensa internacional como a “revolta do WhatsApp” tinha causas mais profundas e, por isso, os protestos não pararam mesmo depois de revogada aquela taxa. São já quatro dias seguidos de manifestações a que o primeiro-ministro, Saad Hariri, tentou responder passando a bola para o outro lado do campo e dando 72 horas para que os parceiros de coligação encontrassem “soluções convincentes” que respondessem à crise satisfazendo as ruas. A resposta do lado dos cristãos maronitas libaneses de direita foi a demissão dos seus quatro ministros.

Passado o prazo, esta segunda-feira, os restantes membros do governo votarão um pacote de medidas através das quais Hariri tenta sobreviver politicamente. Fala agora em reduzir em 50% o salários dos políticos e em cortar benefícios de instituições e altos quadros do regime, quer obrigar os bancos a pagar 3,3 mil milhões de dólares para ter um deficit “próximo do zero” no orçamento de 2020 e quer privatizar telecomunicações. E jura que, ao contrário do que o FMI propõe face à dívida pública e aos deficit, não vem aí mais austeridade. É o que esperam os dois ministros do Partido Socialista Progressista druzo que dizem que apenas permanecerão no governo se as reformas não incluírem cortes nos salários e reformas e novos impostos.

Os manifestantes têm dados todos os sinais que não estão dispostos a esperar pelos planos do atual governo. Dizem que estão nas ruas contra a falta de condições de vida, o desemprego e a corrupção, num país em que um terço das pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza e em que a eletricidade falha constantemente.

Agora, há barricadas nas ruas, festa, com cantos e dança e grita-se “revolução” numa revolta que ultrapassa as tradicionais barreiras religiosas. No Líbano, depois da guerra civil, há um frágil equilíbrio institucional que divide obrigatoriamente os cargos políticos principais entre as comunidades: o presidente é cristão maronita, o presidente do Parlamento xiita, o primeiro-ministro sunita, o vice-primeiro ministro e vice-presidente do Parlamento é cristão ortodoxo. Parlamento e governo são divididos a meio por cristão e muçulmanos. Nas ruas, as sequelas da guerra civil e as divisões comunitárias parecem estar postas de lado enquanto se exige uma mudança política profunda que atinja as elites de todos os grupos.

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