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Eleições na Holanda: Liberais vencem, esquerda afunda-se

Esta semana houve eleições legislativas na Holanda. Os resultados indicam algumas mudanças de fundo, em especial no interior dos diferentes blocos políticos. Artigo de Jorge Martins.
Mark Rutte
Mark Rutte, líder do Partido Popular para a Liberdade e a Democracia, responde a jornalistas sobre os resultados das eleições para o parlamento holandês. Foto de Bart Maat/EPA

As eleições legislativas na Holanda, realizadas no dia 15 de março, motivaram algumas mudanças de fundo, em especial no interior dos diferentes blocos políticos.

Um aspeto saliente deste ato eleitoral foi o facto de 17 forças políticas terem obtido representação na Câmara Baixa do Parlamento, contra as 13 da legislatura anterior. Uma fragmentação que deriva do sistema de representação proporcional num único círculo nacional, com uma cláusula-barreira mínima (0,67%).

A atual coligação governamental, considerada em conjunto, terá melhorado os seus resultados, passando de 76 eleitos de há quatro anos para 78 dos 150 lugares parlamentares. Contudo, a relação de forças será bem diferente, com a subida dos dois partidos liberais e a descida dos dois democrata-cristãos, pelo que poderemos vir a ter uma nova composição partidária do executivo. A única certeza é que os primeiros nele se manterão.

Quanto aos resultados, como era esperado, o triunfo coube ao Partido Popular para a Liberdade e a Democracia (VVD), da direita liberal, do primeiro-ministro Mark Rutte, cujos resultados mostram uma pequena subida face ao último ato eleitoral, ganhando mais dois mandatos.

Contudo, os grandes vencedores são os social-liberais dos Democratas 66 (D66), liderados pela ministra do Comércio Externo e Cooperação para o Desenvolvimento, Sigrid Kaag, que ganharam quatro lugares e se alcandoraram a segunda força política do país.

Ao invés, o Apelo Democrata-Cristão (CDA), partido do centro-direita, geralmente com apoio entre os católicos, encabeçado por Wopke Hoekstra, ministro das Finanças, desceu significativamente, perdendo quatro mandatos.

Já a União Cristã (CU), partido democrata-cristão calvinista e quarto membro da coligação governamental, manteve a sua votação e o mesmo número de eleitos.

A extrema-direita, no seu conjunto, terá aumentado a sua representação, passando de 21 para 28 deputados, embora tenha havido, igualmente, um realinhamento de forças no seu seio.

Assim, o Partido Pela Liberdade (PVV), liderado por Geert Wilders, a maior e mais antiga formação desta área, sofreu um ligeiro recuo, perdendo dois lugares, e caiu para terceira força política.

Contudo, o seu maior concorrente nesse espaço, o Fórum para a Democracia (FvD), igualmente da extrema-direita populista, obteve importantes ganhos, apesar da cisão que sofreu no final do ano passado, passando de dois para oito parlamentares.

Ainda no espaço da direita radical, o Resposta Correta 2021 (JA21), resultante de uma cisão no FvD, encabeçado por Joost Eerdmans, acedeu à representação parlamentar, conseguindo três lugares.

Por seu turno, o Partido da Sociedade Reformada (SGP), da direita religiosa fundamentalista calvinista, de Kees van der Stanij, manteve os seus três deputados.

Outro partido da direita, o Movimento dos Cidadãos Agricultores (BBB), anti ambientalista, tendo à frente a jornalista de temas agrícolas Caroline van der Plas, conseguiu entrar no Parlamento, elegendo a sua líder.

Já o Cinquenta Plus (50+), defensor dos interesses dos idosos e dos reformados, agora encabeçado por Liane den Haan, que substituiu Henk Krol, o antigo líder, que abandonou o partido, deixando-o enfraquecido, sofreu uma forte quebra, ficando reduzido à sua cabeça de lista.

A esquerda e o centro-esquerda sofreram uma clara derrota nestas eleições, tendo passado de 45 para 36 lugares e sofrido uma maior fragmentação.

Assim, o Partido Socialista (SP), da esquerda, liderado por Lilian Marijnissen, que já vinha em queda das últimas eleições, voltou a ter um mau resultado, perdendo um terço dos eleitores de há cinco anos e cinco mandatos. Contudo, foi a formação mais votada neste espaço político.

Por seu turno, o Partido do Trabalho (PvdA), social-democrata, liderado por Liliane Ploumen, que sofrera uma hecatombe eleitoral em 2017, não conseguiu recuperar do desastre, mantendo a mesma percentagem de votos e os mesmos lugares que já detinha.

A Esquerda Verde (GL), de Jesse Klaver que tinha tido um excelente resultado nas últimas eleições, foi uma das grandes derrotadas deste ato eleitoral, tendo perdido quase metade do seu eleitorado e seis lugares.

Ao invés, o Partido pelos Animais (PvdD), agora liderado por Esther Ouvehand, que substituiu a histórica Marianne Thieme, continua a subir de eleição para eleição e ganhou um lugar.

Entretanto, o Volt, partido federalista europeu, do centro-esquerda, tendo como cabeça de lista Laurens Dassen, foi uma das grandes surpresas destas eleições e entrou no Parlamento, elegendo três deputados.

Quanto ao Pensa (DENK), defensor dos muçulmanos holandeses e dos imigrantes turcos e marroquinos, liderado por Farid Azarkan, perdeu alguns pontos, mas segurou os mandatos de que dispunha.

Por seu turno, o Juntos (BIJ1), defensor dos holandeses negros e dos imigrantes afro caribenhos, da apresentadora televisiva Sylvana Simons, conseguiu eleger a sua líder, acedendo à representação parlamentar.

Finalmente, registou-se um ligeiro aumento da abstenção, devido à situação pandémica que atualmente se vive, mas muito longe dos números que chegaram a ser apontados. A verdade é que quase 80% do eleitorado holandês votou, o que é muito significativo, num país onde o voto não é obrigatório.

Eis, então, os resultados preliminares das eleições, com os de 2017 entre parêntesis:

Partido Resultado Deputados
VVD (direita liberal) 21,9 (21,3) 35 (33)
D66 (social-liberal) 14,9 (12,2) 23 (19)
PVV (extrema-direita) 10,9 (13,1) 10,9 (13,1)
CDA (democrata-cristão) 9,6 (12,4) 15 (19)
SP (esquerda) 6,0 (9,1) 9 (14)
PvdA (social-democrata) 5,7 ( 5,7) 9 (9)
GL (ecologista) 5,0 (9,1) 8 (14)
FvD (extrema-direita) 5,0 (1,8) 8 (2)
PvdD (animalista) 3,8 (3,2) 6 (5)
CU (calvinista moderado) 3,4 (3,4) 5 (5)
Volt (federalista europeu) 2,4 (--) 3 (--)
JA21 (direita radical) 2,4 (--) 3 (--)
SGP (calvinista fundamentalista) 2,1 (2,1) 3 (3)
DENK (defesa dos muçulmanos) 2,0 ( 2,1) 3 (3)
50+ (defesa dos reformados) 1,0 (3,1) 1  (4)
BBB (defesa dos agricultores) 1,0 (--)  1 (--)
BIJ1 (defesa dos negros) 0,8 (--) 1 (0)

 

Por fim, a abstenção foi de 21,0% (18,6% em 2017).

 

Nos próximos dias, farei uma análise mais pormenorizada deste ato eleitoral.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Aderente do Bloco de Esquerda em Coimbra
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