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Curdistão: “Turquia quis arrasar um laboratório de democracia exigente”

No debate realizado em Lisboa sobre a situação no Curdistão, José Manuel Pureza defendeu que o que está em causa na agressão turca “é muito mais do que uma operação territorial clássica”.
Ricardo Alexandre e José Manuel Pureza
Ricardo Alexandre e José Manuel Pureza no debate "Curdos: um povo sem Estado". Foto de Bruno Góis.

No debate "Curdos: um povo sem Estado", organizado pelo Bloco de Esquerda esta quinta-feira em Lisboa, na Casa da Imprensa, com a participação do jornalista Ricardo Alexandre e de figuras como o general Pezarat Correia, o dirigente bloquista José Manuel Pureza começou por fazer o paralelo da história do povo curdo  com aquilo a que Hannah Arendt chamava noutro contexto as “pessoas supérfluas”, privadas de quaisquer mecanismos de defesa.

Os curdos foram “um povo remetido ao estatuto de supérfluo ao longo da história”, tal como o foi o povo de Timor durante 24 anos, “deixado à sua sorte pelo jogo das potências”, ou ainda o é na atualidade o povo do Sahara Ocidental. “Os povos também podem ser precários”, sublinhou Pureza, alertando em seguida para “dois equívocos perigosos” no tratamento e análise da situação atual do Curdistão.

O primeiro equívoco, apontou Pureza, é a ideia de que os americanos traíram os curdos e que, caso lá tivessem ficado, as coisas talvez corressem bem ao povo curdo. Esta leitura “mistifica a relação entre os EUA e o povo curdo”, uma vez que os interesses norte-americanos na região “passam por alianças preferenciais com os atores contrários à forma de auto-governação” posta em prática na região que foi agora alvo de ataque.

O segundo equívoco, prosseguiu José Manuel Pureza, é pensar que a atual acalmia é boa para os curdos. “Claro que é melhor que não chovam bombas”, ressalvou, “mas esta situação vai ao encontro da principal pretensão de Erdogan naquela região: criar um corredor que fosse uma zona de neutralização de qualquer efervescência autonomista do povo do Curdistão”. A próxima fase, previu Pureza com base nas intenções já anunciadas pelo presidente turco, “é instalar colonatos com refugiados sírios (e não só), neutralizando assim o peso relativo da população curda na região, tal como foi tentado em Timor pela Indonésia”.

A questão essencial neste debate é a da autonomia do povo curdo, defendeu o professor de Relações Internacionais, concluindo que “o que está em causa na agressão turca é muito mais do que uma operação territorial clássica. É arrasar por completo qualquer progresso de um projeto de autogoverno que avançava em três províncias”, com características progressistas e “em contraste claro com o resto dos estados daquela região”.

Este “confederalismo democrático”, marcado por uma prática política quotidiana de autonomia e respeito por princípios de democracia institucional, através de comités e assembleias, numa aposta na descentralização, na representação de todas as etnias e religiões, na paridade de género e no combate a todas as formas de discriminação contra as mulheres “é qualquer coisa de fantástico naquela região”, enfatizou José Manuel Pureza. Daí o interesse da Turquia e das elites locais da região em “arrasar este laboratório de democracia exigente”.

O dirigente do Bloco terminou a sua intervenção destacando o acordo entre a União Europeia e a Turquia para a contenção de migrantes como tendo “uma natureza duplamente inclassificável”: primeiro pelo seu valor facial, ou seja, países que pagam a um país para não deixar passar migrantes; e em segundo lugar, por servir como “instrumento extraordinário para Ancara fazer chantagem com a UE”, como ficou patente desde o início deste ataque militar turco.

Por outro lado, sublinhou Pureza, este conflito “diz bastante do que é hoje a NATO”, uma entidade que serve “para legitimar estados com marca evidente de autoritarismo, a pretexto de serem importantes para a defesa de determinados flancos estratégicos da Aliança Atlântica”. Para José Manuel Pureza, “a NATO é um ator deste conflito, um ator não interveniente, mas um ator legitimador”, e Ancara é o seu rosto.

Dezenas de pessoas estiveram esta quinta-feira na Casa da Imprensa, em Lisboa, para assistir ao debate sobre a situação do povo curdo. Foto de Mariana Carneiro.

Ricardo Alexandre: “Retirada dos curdos vai provocar nova crise humanitária”

O jornalista de política internacional da TSF festeve na mesa neste debate e começou por descrever a situação do povo curdo e as suas semelhanças e diferenças com outros povos oprimidos, como o palestiniano. Mas “ao contrário dos palestinianos, que estão espalhados pelos vários países à volta da Palestina onde se refugiaram, no caso dos curdos há uma contiguidade territorial, apesar de estarem em quatro países diferentes”. Também por isso, “o peso da população curda na Turquia não é indiferente ao que se está a passar”, assinalou.

Embora tenham sido estas forças curdas “que conseguiram expulsar o Estado Islâmico da região agora sob ataque da Turquia”, na análise de Ricardo Alexandre “aos EUA interessa que a Turquia possa conter a extensão para ocidente da influência iraniana”, mesmo que isso implique sacrificar os antigos aliados da luta contra o Estado Islâmico.

“Com a debandada dos EUA, a Turquia e Rússia são os atores externos mais importantes na guerra da Síria”, o que não faz prever nada de bom para o futuro do povo curdo, prosseguiu o jornalista. Por um lado, “a retirada dos curdos da zona de exclusão vai provocar mais uma crise humanitária em cima de tudo o que aconteceu nos últimos oito anos na Síria”. E por outro, “para os curdos, a intervenção de Damasco pode significar o fim do projeto de governação que estavam a construir na região de Rojava”, um projeto “com contornos democráticos muito raros naquela região”, como o destaque assumido pelas mulheres nas instituições.

“É também isto que assusta o governo de Erdogan”, concluiu Ricardo Alexandre, voltando à questão do peso do povo curdo no sudoeste da Turquia. Para o jornalista, não é por acaso que as iniciativas de Erdogam no sentido de promover as prisões em massa, o afastamento dos autarcas e deputados eleitos e o intensificar da repressão no sudoeste da Turquia tenham começado na mesma altura do início deste processo de autonomia.

Pezarat Correia: “Curdos vão ser mais uma vez os sacrificados”

A seguir às intervenções iniciais do debate, falou da plateia o general Pezarat Correia, em concordância com a leitura de Ricardo Alexandre no sentido em que Erdogan fará tudo para evitar o “efeito de contágio” da experiência de autogoverno nos territórios do nordeste da Síria em ligação direta com os curdos do lado turco da fronteira.

Com a criação de um “corredor de segurança” nas localidades junto à fronteira, “os curdos vão ser mais uma vez os sacrificados, mesmo que a Síria vá recuperar a soberania sobre o território”, prevê o general. “Turcos e sírios vão-se entender e os russos vão apoiar”. Quanto ao Iraque, também tem interesse nessa situação “porque os curdos são contrapoder em relação aos xiitas”.

Recordando o seu estatuto de “povo dispensável” desde a partilha dos despojos do império otomano no fim da I Guerra Muncial, Pezarat Correia não isentou os curdos de terem “alguma responsabilidade” na situação em que se encontram. Para o general, eles “têm cometido o erro de ter partidos nacionais dentro de cada um dos estados [com maior representatividade na Turquia, Síria e Iraque], em vez de terem um partido unificado de todos os curdos”. Pezarat entende que essa escolha os penalizou, contribuindo para “legitimar a sua divisão pelos vários estados”.

Termos relacionados Luta dos curdos, Política
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