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Uma nova geração que defende os animais

Enquanto vivermos da exploração dos animais nem eles nem nós, humanos, seremos livres. Artigo de Hugo Evangelista.

Olhando para os jornais, percebemos rapidamente que muito mudou na última dúzia de anos.

A nossa vida agravou-se com uma profunda crise económica, com uma taxa de desemprego recorde (mais de um milhão sem emprego), com a precariedade a atingir todas as pessoas que entram no mercado de trabalho (dois milhões de precários e precárias) e tudo isto a provocar uma enorme instabilidade política neste pequeno país de 11 milhões de habitantes.

Isto não é uma desculpa para o respeito pelos animais ficar para trás. Enquanto vivermos da exploração dos animais nem eles nem nós, humanos, seremos livres.

Mas é neste contexto que o movimento pelos direitos dos animais está inserido e não pode fugir disso. A população não compreenderá ou ouvirá este ou qualquer movimento que se recuse a fazer uma leitura rigorosa e crítica a este regime de desresponsabilização dos governantes que têm sempre protegido os grandes interesses económicos e de inenarrável desigualdade social.

Outro ponto é compreender os diferentes actores numa determinada luta, a sua força, as suas motivações e para onde tencionam mover-se. As campanhas dirigidas ao utilizador final (ao espectador, ao investigador, ao consumidor), tentando responsabilizá-los e persuadi-los a escolher comportamentos mais éticos têm tido, na minha perspectiva, um impacto muito aquém e não nos deixarão mais perto de uma mudança verdadeira nos próximos 100 anos. Não é por acaso.

Porque ao tentarmos fazê-lo estamos a esquecer que o verdadeiro responsável de cada uma destas situações é quem decide o que se produz, o investidor ou o proprietário, e não é o cidadão comum. Este é um reduzido número de pessoas que manipula tudo à sua volta para manter a exploração de animais, porque é esta exploração que lhes permite manter os lucros, de longe a sua principal motivação, e que tem sempre o cuidado de se legitimar socialmente que devem ser o centro do nosso combate.

Ao nos dirigirmos ao consumidor, partimos do princípio que o seu dinheiro é um "voto" na decisão de como se produz, argumento muitas vezes repetido pelos neo-liberais norte-americanos. Esquecemos, com este caminho, que as pessoas que têm menos dinheiro também têm menos poder sobre o que nós, como sociedade, queremos produzir. E vice-versa. Quem tem mais dinheiro, tem mais “voto na matéria”. Este caminho afasta-nos dos princípios mínimos de justiça social e democracia e por isso devemos rejeitá-lo.

Dito isto, que soluções existem, então?

Que novos caminhos podem ser percorridos por esta nova geração de activistas dos direitos dos animais?

Seja que solução for, a minha opinião é a de que as novas batalhas terão de partir sempre de uma análise de quem tem o quê e de quem ganha o quê em cada tipo de exploração. Não poderão partir apenas do panfleto cheio de razão. Também temos de rejeitar o populismo do decreto legislativo instantâneo que promete, com um toque de magia, acabar com tudo o que é mau e esquece que do outro lado de cada decisão existe uma população com uma forma de pensar e que não aceita necessariamente tudo o que lhe é posto à frente.

Não havendo receitas pré-estabelecidas, as nossas melhores bandeiras serão aquelas que melhor consigam mostrar as contradições deste modo de produção capitalista versus os interesses intrínsecos dos animais e a nossa necessidade ética de respeitá-los.

Quanto ganha um ganadeiro com subsídios europeus, pagos por todos nós? Quanto ganha um empresário tauromáquico com a bilheteira, apoios das câmaras municipais, patrocinadores e transmissões televisivas? Como é que se explica a uma população que não há dinheiro para manter um centro de saúde ou um posto dos CTT aberto, mas há dinheiro para se apoiar financeiramente uma tourada? Voltámos à Roma Antiga, com o povo a viver de pão e circo?

Como justificar a subsidiação da grande exploração pecuária quando o consumo de carne em Portugal é excessivo, a produção de gado é a principal causa da poluição dos rios em Portugal e contribui mais para as alterações climáticas que o sector dos transportes? Se a roda dos alimentos aconselha a que 5% das calorias que se ingerem venham da carne, peixe e ovos e se em Portugal a dieta real atinge os 15% nesta categoria, porque razão continuamos a atribuir 40% dos subsídios a este sector?

Começou a surgir uma nova geração de jovens que traz consigo a bandeira do respeito pelos animais. Esta nova geração é fruto do trabalho de sensibilização e das inúmeras campanhas feitas pela geração anterior de activistas pelos direitos dos animais, mas o novo não é uma simples reprodução do que lhe antecedeu.

É uma geração que já conhece muitos dos erros feitos no passado, que rejeita repeti-los e que está motivada para fazer o seu próprio caminho.

É preciso fazer esse caminho agora e ele só depende de nós.

(...)

Resto dossier

Direitos dos Animais

O modo de produção capitalista e a forma como provocamos sofrimento aos animais não-humanos entram em notória contradição com o conhecimento adquirido acerca da senciência de muitos animais, incluindo todos os animais vertebrados, e a consciência do nosso parentesco evolutivo com as outras espécies. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

Debate Direitos dos Animais

Este sábado, o Bloco de Esquerda organizou um debate sobre Direitos dos Animais, que contou com a participação da deputada do Bloco Catarina Martins, o biólogo Hugo Evangelista e o ativista dos direitos dos animais Ricardo Sequeiros Coelho. Após o debate esquerda.net recolheu o testemunho dos três oradores. Ver vídeo.

Cábula para o especialista instantâneo em direitos dos animais

Os preconceitos alastram ao sabor do zeitgeist e uma vez estabelecidos, passam a fazer parte do senso comum e deixam de ser questionados. Neste artigo, Cristina DʼEça Leal e Pedro Ribeiro procuram desmontar algumas dessas “ideias feitas”.

Todos diferentes, todos animais

Somos todos diferentes e o problema não é reconhecer e admitir a diferença, mas sim hierarquizar os outros com base nessa diferença. A inteligência é a capacidade de resolver novos problemas e isso não é exclusivo dos humanos. Artigo de Cristina D'Eça Leal.

Animais: as “coisas” de que não falamos

A questão que aqui se coloca é a de que posição é que devemos assumir perante estes animais. E esta é uma questão crucial na modernização ética da sociedade humana. Artigo de Mariana Pinho.

Uma nova geração que defende os animais

Enquanto vivermos da exploração dos animais nem eles nem nós, humanos, seremos livres. Artigo de Hugo Evangelista.

Direitos dos animais, uma causa da esquerda

A evolução humana prende-se com a evolução da forma como tratamos o outro. Aquele sobre o qual temos poder. A nossa evolução prende-se com o repensar a nossa posição no mundo, na vida, e na nossa posição em relação ao outro que tocamos com a nossa existência. Artigo de Luísa Ferreira Bastos e Ricardo Sequeiros Coelho.

Não é a falar que a gente se entende

O debate que costuma acompanhar a questão do papel da tauromaquia na sociedade portuguesa actual é inevitável e, em boa medida, apaixonante: envolve e empolga os participantes, suscita posições vincadas e raramente deixa as pessoas indiferentes. Artigo de Pedro Ribeiro.

Esterilização e Eutanásia

Defender a Esterilização e em alguns casos até a Eutanásia são posições que geram sempre alguma surpresa quando vindas de quem assume defender os direitos e a protecção animal. Artigo de Cassilda Pascoal.

Circos com animais: The Saddest Show on Earth

O bonito e luminoso espectáculo que pode ser um circo com animais, onde estes parecem felizes e contentes, a saltarem e dançarem, é na verdade a fachada de um campo de tortura e escravatura animal. Artigo de Cassilda Pascoal.

O Conflito Estudantil da Garraiada Académica

Na garraiada académica nega-se o direito inegável de se sentir, superioriza-se uma existência face a outra, na mesma premissa em que assentou a escravatura no Império Português até 1878. Artigo de Irina Castro.

Será o Vegetarianismo um ato político?

Desde sempre a alimentação tem sido o reflexo das culturas dos países, cidades ou comunidades onde a humanidade reside. Por todo o planeta, assistimos a uma diversidade imensa de pratos e sabores que enriquecem os povos ou os demarcam do resto do mundo. Artigo de João Pedro Santos.

Direitos dos Animais: O que deve a esquerda propor?

Na minha perspetiva, importa que a Esquerda continue a manter os temas dos Direitos dos Animais na agenda parlamentar e no debate público. Texto de Manuel Eduardo dos Santos