Está aqui

Todos diferentes, todos animais

Somos todos diferentes e o problema não é reconhecer e admitir a diferença, mas sim hierarquizar os outros com base nessa diferença. A inteligência é a capacidade de resolver novos problemas e isso não é exclusivo dos humanos. Artigo de Cristina D'Eça Leal.

De um ponto de vista histórico, sempre menosprezámos os que não considerávamos iguais. Os vencedores impõem os seus valores aos vencidos e a bitola da cultura dominante é usada para medir os graus de civilidade. Assim, para a cultura ocidental, o padrão já foi o homem europeu, branco, detentor de poder que, com base nisso, discriminou as mulheres, os indígenas, as crianças, os velhos, os pobres, os deficientes, os animais, os judeus, os homossexuais. Agora tudo isto nos parece extremamente longínquo e essa postura completamente aberrante, mas não fazemos o exercício completo que é ir à base do preconceito; i.e., mudam apenas as vítimas da discriminação e não a atitude discriminatória propriamente dita. Nós, os humanos, não temos nenhuma capacidade que nos torne particularmente dotados - há quem nos chame o aborto da natureza que, malgré tout, conseguiu sobreviver e dominar - por isso desenvolvemos a palavra e o raciocínio. Organizámos a sociedade de forma a termos as necessidades básicas - como a alimentação e a segurança - asseguradas, para nos podermos dedicar ao desenvolvimento intelectual.

Nós, cidadãos urbanos ocidentais, consideramo-nos mais cultos, mais inteligentes, detentores de um raciocínio mais elaborado do que um pigmeu da selva amazónica que enfia argolas no nariz. Se é verdade que largar um pigmeu numa metrópole será uma operação que ele provavelmente pagará com a vida (atropelado a atravessar a Av. Liberdade para encontrar referências nas plantas dos separadores centrais) ou, pelo menos, com muita dificuldade, por não dominar a semiótica do lugar - não conhece a língua, não percebe a simbologia dos semáforos, os códigos de circulação do trânsito, como é que se arranja comida, o significado do dinheiro, etc.; não é menos verdade que os nossos pergaminhos civilizacionais de pouco ou nenhum uso seriam se nos largassem na selva amazónica: não saberíamos construir um abrigo, seguir um trilho, orientarmo-nos sem sol, evitar as cascaveis; na busca de comida correríamos o risco de ingerir uma planta venenosa, morrer nas mandíbulas de um crocodilo ao lavar as mãos à beira do rio; enfim, se sobrevivêssemos as primeiras 24horas já seria uma lança em África. O que não quer dizer que não tentássemos - nós e o pigmeu, cada um à sua maneira - tentar descodificar esse ambiente hostil e elaborar esquemas de sobrevivência.

Quero com isto dizer que as espécies que resistiram até hoje foi porque conseguiram aplicar-se na interpretação do seu meio e adaptar-se às alterações e aos desafios permanentes que estas constituem, de formas por vezes insólitas.

Isto passa-se com todos os outros animais, como é lógico, independentemente da complexidade dos seus raciocínios lógicos. Os animais de companhia esforçam-se por perceber a nossa linguagem uma vez que vivem connosco: reconhecem diversos gestos, diferentes tipos de chamamento, interpretam a nossa expressão corporal (percebem perfeitamente se estamos com disposição para brincar ou se é melhor passarem despercebidos, se precisamos de mimo por estarmos tristes, se nos estamos a preparar para sair e esquecemos de os alimentar). Comunicam entre si e connosco através de diversos tipos de vocalizações, expressões dos olhos, posição das orelhas, comportamento da cauda e posição relativa do pêlo (acamado é sinal de que estão calmos, meio levantado significa desconforto, e em pé quer dizer que estão altamente desestabilizados - por medo ou fúria, a interpretar em conjunto com outros factores). Não é preciso nenhum estudo científico para validar a experiência que advém da partilha de vida.

Uma das hediondas experiências comportamentais publicadas, demonstra que os ratinhos têm dilemas morais: ao accionar a alavanca da comida, o rato do compartimento contíguo sofre uma descarga eléctrica e o primeiro rato anda literalmente às voltas com o seu problema de fome, porque não quer accionar a alavanca e provocar dor no vizinho.

As abelhas conseguem transmitir uma localização exata através de coordenadas perfeitas. Em Animal Einsteins, Weiss descreve uma experiência feita pelo biólogo James Gould, em que ele leva um grupo de abelhas até um barco repleto de néctar que ele teria ancorado no meio de um lago. As abelhas regressaram pelos seus meios à colmeia e explicaram às outras a localização do "el dorado" descoberto no meio do lago. Assim como se alguém nos dissesse que a dependência x do banco y está a oferecer notas de 500€ novas em troca de notas de 10€ usadas, as outras abelhas não perderam tempo sequer a tentar verificar a veracidade da informação, tal o grau de improbabilidade da mesma. Quando Gould repetiu a experiência, mas colocando o barco junto à margem oposta do lago, e as abelhas fizeram a sua dança de transmissão de coordenadas, as outras imediatamente atravessaram o lago e dirigiram-se ao barco. O psicólogo Marc Hauser interpreta este estudo como exemplificativo de que as abelhas não só conseguem construir mapas mentais através de linguagem simbólica, como utilizam a ferramenta do cepticismo.

 Estes pormenores extraordinários só se tornam visíveis a quem observa de perto mas, quando o objetivo é discriminar negativamente, a distância é fundamental.

Somos todos diferentes e o problema não é reconhecer e admitir a diferença, mas sim hierarquizar os outros com base nessa diferença. A inteligência é a capacidade de resolver novos problemas e isso não é exclusivo dos humanos. Aliás, se as capacidades cognitivas fossem razão para o não reconhecimento de direitos, teríamos que largar mão dos deficientes profundos, dos comatosos, dos fetos e das crianças até aos 2 anos que, comparados com as capacidades de qualquer toupeira, saíriam a perder.

(...)

Resto dossier

Direitos dos Animais

O modo de produção capitalista e a forma como provocamos sofrimento aos animais não-humanos entram em notória contradição com o conhecimento adquirido acerca da senciência de muitos animais, incluindo todos os animais vertebrados, e a consciência do nosso parentesco evolutivo com as outras espécies. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

Debate Direitos dos Animais

Este sábado, o Bloco de Esquerda organizou um debate sobre Direitos dos Animais, que contou com a participação da deputada do Bloco Catarina Martins, o biólogo Hugo Evangelista e o ativista dos direitos dos animais Ricardo Sequeiros Coelho. Após o debate esquerda.net recolheu o testemunho dos três oradores. Ver vídeo.

Cábula para o especialista instantâneo em direitos dos animais

Os preconceitos alastram ao sabor do zeitgeist e uma vez estabelecidos, passam a fazer parte do senso comum e deixam de ser questionados. Neste artigo, Cristina DʼEça Leal e Pedro Ribeiro procuram desmontar algumas dessas “ideias feitas”.

Todos diferentes, todos animais

Somos todos diferentes e o problema não é reconhecer e admitir a diferença, mas sim hierarquizar os outros com base nessa diferença. A inteligência é a capacidade de resolver novos problemas e isso não é exclusivo dos humanos. Artigo de Cristina D'Eça Leal.

Animais: as “coisas” de que não falamos

A questão que aqui se coloca é a de que posição é que devemos assumir perante estes animais. E esta é uma questão crucial na modernização ética da sociedade humana. Artigo de Mariana Pinho.

Uma nova geração que defende os animais

Enquanto vivermos da exploração dos animais nem eles nem nós, humanos, seremos livres. Artigo de Hugo Evangelista.

Direitos dos animais, uma causa da esquerda

A evolução humana prende-se com a evolução da forma como tratamos o outro. Aquele sobre o qual temos poder. A nossa evolução prende-se com o repensar a nossa posição no mundo, na vida, e na nossa posição em relação ao outro que tocamos com a nossa existência. Artigo de Luísa Ferreira Bastos e Ricardo Sequeiros Coelho.

Não é a falar que a gente se entende

O debate que costuma acompanhar a questão do papel da tauromaquia na sociedade portuguesa actual é inevitável e, em boa medida, apaixonante: envolve e empolga os participantes, suscita posições vincadas e raramente deixa as pessoas indiferentes. Artigo de Pedro Ribeiro.

Esterilização e Eutanásia

Defender a Esterilização e em alguns casos até a Eutanásia são posições que geram sempre alguma surpresa quando vindas de quem assume defender os direitos e a protecção animal. Artigo de Cassilda Pascoal.

Circos com animais: The Saddest Show on Earth

O bonito e luminoso espectáculo que pode ser um circo com animais, onde estes parecem felizes e contentes, a saltarem e dançarem, é na verdade a fachada de um campo de tortura e escravatura animal. Artigo de Cassilda Pascoal.

O Conflito Estudantil da Garraiada Académica

Na garraiada académica nega-se o direito inegável de se sentir, superioriza-se uma existência face a outra, na mesma premissa em que assentou a escravatura no Império Português até 1878. Artigo de Irina Castro.

Será o Vegetarianismo um ato político?

Desde sempre a alimentação tem sido o reflexo das culturas dos países, cidades ou comunidades onde a humanidade reside. Por todo o planeta, assistimos a uma diversidade imensa de pratos e sabores que enriquecem os povos ou os demarcam do resto do mundo. Artigo de João Pedro Santos.

Direitos dos Animais: O que deve a esquerda propor?

Na minha perspetiva, importa que a Esquerda continue a manter os temas dos Direitos dos Animais na agenda parlamentar e no debate público. Texto de Manuel Eduardo dos Santos