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René Vautier: referência do cinema militante e anticolonial na abertura do Desobedoc

As bobines de Afrique 50, que abrirá o Desobedoc no dia 22 de abril ao final da tarde, foram confiscadas pela polícia e esse documentário valeu a René Vautier um ano de prisão e quatro décadas de censura. Para esta sessão de abertura, contamos com a presença de Amarante Abramovici e de Olivier Neveux.
Africa 50 de René Vautier, França, 1950
Africa 50 de René Vautier, França, 1950

Nascido em Finisterra em janeiro de 1928, René Vautier é um dos nomes mais importantes do cinema militante e autor de uma obra marcada pelo anticolonialismo, com uma intensa denúnica da violência colonial francesa e da tortura. Fez parte da Resistência no início da década de 1940, mais tarde adere ao Partido Comunista. Quando morreu, em 2015, aos 87 anos, o jornal francês Libération declarou que René Vautier era o homem a quem aquele país devia o fim oficial da censura política no cinema francês. Entre outras lutas, Vautier fez uma greve de fome de 33 dias, em 1973, contra a censura dos seus filmes.

Em 1950, a “Liga do Ensino” encarrega-o de fazer um filme sobre a educação francesa na África subsaariana. Mas Vautier contacta e regista uma realidade desconhecida em França: o trabalho forçado e a violência das autoridades coloniais contra a população do Mali e da Costa do Marfim. O filme Afrique 50, documentário sobre os motins anticoloniais na Costa do Marfim e sobre a sua sangrenta repressão por parte do exército francês, foi feito à revelia da encomenda oficial que começou por motivá-lo. Desobedecendo às ordens que o proibiam de filmar sem a presença de um representante da administração colonial, Vautier continuou clandestinamente a recolher imagens e recuperou ilegalmente dezassete das cinquenta bobines que estavam na posse da Liga do Ensino. Quer a montagem quer a sonorização do filme, bem como a sua difusão, foram feitas de modo clandestino, com projeções que eram frequentemente interrompidas pela polícia, em redes paralelas não oficiais, que permitiram que o filme chegasse a mais de um milhão de espectadores nestas condições. As bobines de Afrique 50, que abrirá o Desobedoc no dia 22 de abril ao final da tarde, foram confiscadas pela polícia e esse documentário valeu-lhe um ano de prisão e quatro décadas de censura.

O tema da guerra e do colonialismo foi retomado por René Vautier em muitos outros filmes, nomeadamente Avoir Vingt Ans dans Les Aurées (1972), sobre um soldado francês que desertou por se opôr à execução sumária de um prisioneiro, Une Nation, Algérie (1954) e L'Algérie en Flammes (1958), entre muitos outros. Em 1967, associa-se a Chris Marker no colectivo Medvedkine. Interessou-se também pela África do Sul do apartheid, pelos direitos das mulheres, pleo combate anticapitalista, pelas questões ecologistas e pelo combate à extrema-direita francesa, tendo realizado um filme sobre a Frente Nacional. Foi premiado em inúmeras ocasiões.

O Desobedoc abre a edição deste ano com uma sessão dedicada a René Vautier, em que além do filme Afrique 50 será também projetado o documentário Salut et Fraternité, as imagens segundo René Vautier, que reconstitui a carreira do cineasta e confronta o seu testemunho com o de outros, como Jean-Luc Godard, Yann Le Masson e Bruno Muel.

Para esta sessão de abertura, contamos com a presença de Amarante Abramovici, cineasta, programadora de cinema e que se encontra a realizar uma investigação sobre o cinema produzido durante a revolução, e de Olivier Neveux, professor de história e estética na Escola Nacional Superior de Lyon, diretor da revista Théâtre/Public, autor de inúmeros livros sobre o teatro militante e um dos mais ativos e respeitados intervenientes em França (e não só) sobre a relação entre arte e política.

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Neste dossier:

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‘Guerreira das ideias’, ‘poeta das imagens’ ou ‘realizadora romancista’, assim foi Sarah Maldoror e será possível apreciá-la, em todo o seu esplendor, em Monangambé e Sambizanga. As sessões serão apresentadas pela filha de Sarah Maldoror, Annouchka de Andrade. Texto de Tânia Leão

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Era uma menina gorda

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O teatro é feito de pessoas assim, discretas, teimosas, dignas. E a Luísa Moreira foi das melhores. Texto de Jorge Silva Melo (publicado no jornal Público, 16 de Maio de 2020).

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Luísa Moreira foi uma entusiasta do Desobedoc e do cinema como instrumento político e cultural. A programação do Desobedoquinho que este ano apresentamos resulta de escolhas suas, feitas originalmente para o Cinema Insuflável.

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O filme “Guerrilla Grannies” passará no Desobedoc 2022 no dia 25 de abril, a partir das 17h na sala Miguel Portas e será comentado pela sua realizadora, Ike Bertels.

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