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Era uma menina gorda

Nunca a Luísa deitou a toalha ao chão, nem mesmo perante o pior diagnóstico do mundo. É preciso ter esperança na ciência e aguentar o corpo até que surja a cura, dizia. Talvez por esta razão, a morte nunca foi um tema de conversa muito presente, mesmo quando a realidade nos tirava o tapete e nos gritava que nós nada podíamos contra ela. Texto de Andrea Peniche
Luísa Moreira (1974-2020)
Luísa Moreira (1974-2020)

Os versos de Ribeiro Couto, na voz de João Villaret, são uma das memórias mais ternas que tenho da Luísa. Sabíamos o poema de cor, dizíamo-lo apaixonadamente, porque ele era para nós uma espécie de manifesto contra a normalização, contra a alegria formatada, contra os corpos domesticados.

A Luísa era uma pessoa muito curiosa. O mundo estava aí, revelando-se em todo o seu esplendor e contradição, e o nosso dever era conhecê-lo. E percebê-lo. E transformá-lo. As ideias foram sempre as nossas ferramentas e usámo-las de todas as formas que conhecíamos: em fanzines, manifestos, panfletos, listas para a Associação de Estudantes, performances… Pintámos a manta numa terra que vivia permanentemente ao espelho, encantada consigo própria, envolta numa retórica diáfana de progresso e liberdade, mas que, no fundo, não era diferente das outras, tantas vezes provinciana, tantas vezes medíocre e mesquinha. E por isso partilhávamos um sentimento ambivalente sobre a nossa terra, Vila do Conde, da qual não prescindíamos, mas que também nos exasperava. É a nossa terra, é lá que estão parte das nossas memórias, dos nossos amigos e amigas, mas que se revelou demasiado cedo demasiado pequena para os sonhos e as vontades que acolhíamos.

Aos 15 anos, descobrimos o Combate, o jornal que o PSR publicava. Ficámos tão fascinadas com ele, do conteúdo ao grafismo, que inventámos sobras nas nossas semanadas para podermos fazer a sua assinatura. Todos os meses o líamos e discutíamos com especial empenho, porque nele se publicavam textos que nos desafiavam intelectualmente, ora dando substância a algumas das nossas inquietações, ora abrindo-nos horizontes para debates que desconhecíamos. O Combate foi a nossa escola política e, pela mão da Eduarda Dionísio, do Jorge Silva Melo, do Fernando Rosas, do João Martins Pereira, da Rossana Rossanda, do Francisco Louçã, entre tantas outras pessoas, aprendemos a ler o mundo e a situarmo-nos nele. E das lições mais importantes que aprendemos foi precisamente o do antissectarismo e do antidogmatismo. Mobilizamo-nos sempre por ideias, por propostas, por projetos. O partido era o nosso espaço coletivo e sabíamos que ele seria aquilo que dele fizéssemos, recusando sempre o monolitismo. Aprendemos a trabalhar com outras pessoas que pensam diferente de nós. Obedecemos sempre à nossa consciência e não ao comité central. O Zeca Afonso dizia «Eu sou o meu próprio comité central», e nós com ele, mas com a particularidade de não termos a experiência para que aponta a citação. O nosso comité central foi sempre a nossa consciência, mas os conteúdos desta resultavam do debate livre de ideias em espaços coletivos. Tudo isto nos parecia normal, porque foi neste ambiente que nos familiarizamos com a política, e só mais tarde descobrimos, com espanto pueril, que, afinal, o nosso normal correspondia antes à tradição da esquerda a que nos juntáramos e que estava longe de ser terreno comum a toda ela. A recusa do estalinismo foi outro traço definidor das escolhas que fizemos. E durante todo o tempo desta vida que foi tão curta repetimos incessantemente, com incredulidade e desgosto, um «como é possível?», fosse a propósito dos sindicatos e da sua rejeição do precariado, fosse a propósito da lei da morte assistida.

Houve um tempo em que divergimos, um tempo em que a Luísa achou que era preciso estar onde há mais condições para mudar o rumo das coisas. A sua passagem pelo PS foi de curta duração e o seu balanço demolidor. O deserto de ideias, o carreirismo, o pensamento único e o acriticismo nunca foram argumentos ou práticas que aceitasse e, por isso, voltou. Fez-se militante do Bloco e connosco permaneceu e travou vários combates.

Dona de uma coerência consequente, demitiu-se da direção de produção do Teatro Helena Sá e Costa, quando este foi esganado orçamentalmente. Tinha um contrato, um vínculo com a Função Pública, mas decidiu abrir mão de tudo, por se recusar a fazer parte de um engodo. Se não havia orçamento para dinamizar o Teatro, era preciso denunciá-lo. E a forma que a sua consciência encontrou foi preferir o desemprego.

Esta menina gorda tem um pequenino coração sentimental

Dona de um mau-feitio muito particular, a Luísa era um doce de pessoa. Obstinada, teimosa, exigente, tantas vezes bruta, era também a encarnação da generosidade e do companheirismo. Repartia o que tinha, fossem ideias, fossem bolos. Nunca fazia nada a pensar apenas nela, porque nela habitavam os outros.

Era muito sensível, de lágrima fácil e de abraço profundo e convincente. Provavelmente, este é o traço de caráter menos público da Luísa, que só quem teve o privilégio de ser sua amiga conheceu verdadeiramente. Sofria com grandes e pequenas coisas, mas as coisas são mesmo assim, têm diferentes dimensões consoante as pessoas, o espaço e o tempo. Assombrada por um passado prenhe de questões mal resolvidas, lutou permanentemente contra o azedume como resposta. Sofria imenso com traições, chantagens e manipulações, porque do seu modus vivendi fazia parte a frontalidade e a decência. Zangava-se muito, exagerava até, mas sustentava as suas atitudes em razões. E esteve sempre disponível para discutir e rever os seus argumentos.

E os olhinhos estão lá no fundo a brilhar

O humor, o disparate, o excesso, a alegria foram o sal da sua vida. E como ria a Luísa! E com que prazer e excesso vivia a sua vida! O brilho dos seus olhos era o brilho da esperança. Esperança no mundo, esperança na organização coletiva, esperança no avanço da medicina. Nunca a Luísa deitou a toalha ao chão, nem mesmo perante o pior diagnóstico do mundo. É preciso ter esperança na ciência e aguentar o corpo até que surja a cura, dizia. Talvez por esta razão, a morte nunca foi um tema de conversa muito presente, mesmo quando a realidade nos tirava o tapete e nos gritava que nós nada podíamos contra ela. Mas nós aprendêramos a arte da ilusão desde cedo e sabíamos que a alegria era o antídoto que tínhamos à mão contra uma tristeza que teimava em bater-nos à porta. Falámos sobre a morte duas vezes, uma em tom de brincadeira, quando me informou que eu receberia como herança os volumes de Marx que tinha na sua estante, outra em tom mais sério. Esta segunda conversa foi dilacerante, mas foi também a mais bela e intensa declaração de amor. Foi a mim que a Luísa pediu para violar a lei se tal fosse necessário. Fui eu quem assumiu que violar a lei por ela era coisa que estava ao meu alcance. E os nossos olhinhos brilharam de emoção e de amor.

Andrea Peniche

15-04-2022

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Neste dossier:

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Luísa Moreira (1974-2020)

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Nunca a Luísa deitou a toalha ao chão, nem mesmo perante o pior diagnóstico do mundo. É preciso ter esperança na ciência e aguentar o corpo até que surja a cura, dizia. Talvez por esta razão, a morte nunca foi um tema de conversa muito presente, mesmo quando a realidade nos tirava o tapete e nos gritava que nós nada podíamos contra ela. Texto de Andrea Peniche

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