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Luísa Moreira (1974-2020), de Vila do Conde: a alegria

O teatro é feito de pessoas assim, discretas, teimosas, dignas. E a Luísa Moreira foi das melhores. Texto de Jorge Silva Melo (publicado no jornal Público, 16 de Maio de 2020).

Directora de cena do Rivoli Teatro Municipal, directora de produção do Teatro Helena Sá e Costa, fundadora do Instituto Nacional das Artes Circenses: morreu uma activista das artes performativas.

Era de Vila do Conde, ali onde começa o Minho, a Luísa Moreira que agora morreu (1974-2020).

Conheci-a no Rivoli, era a muito novinha directora de cena do Coriolano de Shakespeare que a Isabel Alves Costa produzia para a abertura daquela sala que sonhou municipal.

Era de Vila do Conde e guardava um leve sotaque desse Minho da minha infância.

Extraordinária trabalhadora, fantástica a cumprir as tarefas, exigente, curiosa, ávida, ficámos amigos desde então. Foi em 1998. Nem eu sabia que ela militava pelo PSR, assinava o Combate para onde escrevi, nunca me disse, era uma “técnica de palco” e resguardava-se. Depois, com os inúmeros disparates municipais de Rui Rio-Filipe La Féria, ela perdeu o lugar no Rivoli, meteu-se a caminho, foi para França, voltou à Póvoa, batalhadora, organizou aquilo de que mais gostava, o circo, comprou uma tenda, participou noutras iniciativas, íamos tendo notícias dela, activa, teimosa, irremediavelmente alegre. Ainda a reencontrei a trabalhar na ESMAE — mas não estava feliz e acabou por sair depois da morte do Francisco Beja, magoada nunca me contou por que razão. Íamos falando por email. Muito espaçadamente. Mas quase de hora a hora nos momentos difíceis para todos, por exemplo, quando, no Porto, ela se meteu na contestação às decisões da Secretaria de Estado nessa altura (e infelizmente) ocupada por Miguel Honrado. Falámos, escrevemos, trocámos ideias, mandámos abraços, fomos amigos. A Luísa gostava de discutir. Nem sempre concordávamos, eu gostava de com ela ir acertando tácticas, estratégias e comunicados sem rebuços nem cálculos, como amigos, gente crescida e franca.

Um dia mandou-me um email: “Tenho um tumor no cérebro, estou tão triste.” Foi há quê? Três anos?

Ainda nos encontrámos na vizinha Póvoa de Varzim diante do Teatro Garrett, nós a fazer Do Alto da Ponte, de Arthur Miller, ela com aquela cor tremenda das quimioterapias —mas rindo como ela sabia e dizendo que estava a correr bem. Foi na noite de 1 de Dezembro de 2018. E no final ela deu-me um grande abraço. E rimos.

Este ano, em 4 de Janeiro, voltámos à Povoa, mas não ousei perguntar por ela, ninguém se lhe referiu, ainda lanchei com o nosso comum amigo (o Fenando Nunes, a quem chamamos o “Poveiro”, pelos Açores), nada me disse, percebi que estaria no fim.

Foi agora.

O teatro é feito de pessoas assim, discretas, teimosas, dignas. E a Luísa Moreira foi das melhores.

Quem não se lembra do seu riso? Sim, a Luísa Moreira foi a Alegria.

(texto publicado no jornal Público, 16 de Maio de 2020)

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Neste dossier:

Dossier Desobedoc 2022 - Mostra de Cinema Insubmisso

Desobedoc 2022 - Mostra de Cinema Insubmisso

O Desobedoc está de volta, depois da suspensão ditada pela pandemia. Entre 22 e 25 de abril, no Cinema Trindade, no Porto, dá-se o pontapé de partida para a maratona de celebrações dos 50 anos da revolução que decorrem até 2026.

O que nos move, ou uma pequena história do Desobedoc

O Desobedoc volta ao lugar onde tudo começou em 2014: o Cinema Trindade, no Porto. Neste artigo, José Soeiro recorda como nasceu a ideia de uma mostra de cinema insubmisso e o caminho que fez nestes oito anos.

Monangambé

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‘Guerreira das ideias’, ‘poeta das imagens’ ou ‘realizadora romancista’, assim foi Sarah Maldoror e será possível apreciá-la, em todo o seu esplendor, em Monangambé e Sambizanga. As sessões serão apresentadas pela filha de Sarah Maldoror, Annouchka de Andrade. Texto de Tânia Leão

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Não desistimos de nada. Uma sessão de homenagem ao Miguel Portas

No dia 24 de abril, quando passam 10 anos sobre a sua morte, evocaremos o internacionalismo solidário do Miguel. Com a presença de Catarina Martins, Marisa Matias, José Manuel Pureza e Luísa Teotónio Pereira e com o filme “A vida à espera: Referendo e Resistência no Sahara Ocidental” de Iara Lee. Texto de Alda Sousa

Luísa Moreira (1974-2020)

Era uma menina gorda

Nunca a Luísa deitou a toalha ao chão, nem mesmo perante o pior diagnóstico do mundo. É preciso ter esperança na ciência e aguentar o corpo até que surja a cura, dizia. Talvez por esta razão, a morte nunca foi um tema de conversa muito presente, mesmo quando a realidade nos tirava o tapete e nos gritava que nós nada podíamos contra ela. Texto de Andrea Peniche

Luísa Moreira (1974-2020), de Vila do Conde: a alegria

O teatro é feito de pessoas assim, discretas, teimosas, dignas. E a Luísa Moreira foi das melhores. Texto de Jorge Silva Melo (publicado no jornal Público, 16 de Maio de 2020).

Desobedoquinho

O Desobedoquinho de Luísa Moreira (1974-2020)

Luísa Moreira foi uma entusiasta do Desobedoc e do cinema como instrumento político e cultural. A programação do Desobedoquinho que este ano apresentamos resulta de escolhas suas, feitas originalmente para o Cinema Insuflável.

O Teu nome é

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Gisberta, mulher trans brasileira, viveu no Porto mais de metade da sua vida e morreu nesta cidade com 45 anos. Nesta sessão de sábado 13 de abril às 00.00 passamos a curta de animação de Paulo Patrício “O meu nome é” que conta a história da Gisberta e dos seus últimos dias. 20’ sobre o preconceito, a transfobia, a pobreza e a exclusão, a que se segue um debate com ativistas trans. Texto de Maria Manuel Rola

Guerrilla Grannies

Entrevista com Ike Bertels sobre o filme “Guerrilla Grannies"

O filme “Guerrilla Grannies” passará no Desobedoc 2022 no dia 25 de abril, a partir das 17h na sala Miguel Portas e será comentado pela sua realizadora, Ike Bertels.

Africa 50 de René Vautier, França, 1950

René Vautier: referência do cinema militante e anticolonial na abertura do Desobedoc

As bobines de Afrique 50, que abrirá o Desobedoc no dia 22 de abril ao final da tarde, foram confiscadas pela polícia e esse documentário valeu a René Vautier um ano de prisão e quatro décadas de censura. Para esta sessão de abertura, contamos com a presença de Amarante Abramovici e de Olivier Neveux.

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Desobedoc volta ao Porto com temática sobre as lutas antifascistas

Foi apresentado, nesta sexta-feira no Porto, o programa do Desobedoc 2022 – Mostra do Cinema Insubmisso, que decorrerá entre 22 e 25 de abril no cinema Trindade, terá documentários sobre as lutas antifascistas e a luta anticolonial e evocará Miguel Portas, que morreu faz 10 anos a 24 de abril.