Racismo em Portugal: Um país em estado de negação

O racismo estrutural em Portugal, herança do seu passado colonialista, traduz-se em desigualdades de toda a ordem. A violência policial racista é uma das manifestações mais atrozes deste flagelo. Para combatê-lo, é preciso sairmos do estado de negação em que nos encontramos. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

21 de novembro 2021 - 21:27
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Em 2000, tinha eu 20 anos, trabalhei para uma câmara municipal, enquadrada num programa de emprego jovem. À época, fui colocada nas Atividades de Tempos Livres (ATL) de uma escola primária. Oriundas de um bairro de barracas, as crianças que ali permaneciam durante algumas horas tinham sido recentemente realojadas num bairro social mesmo ali ao lado. Uma dessas crianças era o Nuno, um miúdo negro de sete anos, olhos brilhantes, sorriso aberto e extremamente inteligente.

Conto-vos esta história porque, tendo vivido vários anos em Viseu, cidade que, à época, infelizmente, não era marcada pela diversidade étnico-racial, este foi um dos primeiros momentos que mais me marcou e indignou no que respeita às consequências do racismo bafiento que ainda se encontra impregnado na nossa sociedade.

Como é costume nestas idades, o Nuno desenvolveu uma paixoneta por mim. Não se sentindo correspondido, e depois de saber que eu tinha namorado, pediu para ver a foto do meu companheiro. Quando olhou para ela, automaticamente desatou num pranto e soluçou: “Eu sabia! É branco! Nunca ias namorar com um menino como eu”. O Nuno revoltava-se, às vezes violentamente, com todas as crianças que o afrontavam chamando-lhe “Ó preto, ó preto!”. O Nuno não era preto, era castanho. Era isso que explicava insistentemente. Ele não podia ser preto. Um dos sonhos do Nuno era ir morar para as casas brancas. Acabei por perceber porquê. O bairro social onde foi realojada a sua família, igual a tantos outros bairros guetizados, era dividido por diferentes áreas, com casas brancas, verdes e rosas, para brancos, ciganos e afrodescendentes, respetivamente.

O desenho que o Nuno me ofereceu. Retratou-nos (eu estou loura e ambos temos um cão - na altura eu tinha uma cadela, a Xira)

Que sociedade se pode chamar democrática quando esmaga a dignidade, os direitos, os sonhos de crianças como o Nuno?

Vinte e dois anos volvidos, gostaria de vos dizer que nos tornámos capazes de assumir o nosso passado colonial, de enfrentar e combater o racismo estrutural que por aqui impera. Mas não é esse o caso.

As pessoas racializadas continuam a ser alvo de todo o tipo de discriminações, seja na educação, emprego, saúde, justiça, entre outros setores. A violência racista, e especialmente aquela que é perpetuada pelas próprias forças de segurança, é uma das manifestações mais atrozes deste flagelo. E continua a matar em Portugal.

É preciso descolonizar as mentes, descolonizar os manuais escolares, descolonizar toda uma sociedade que não consegue sair do estado de negação em que se encontra e que resiste a abdicar do seu lugar de privilégio.

Não podemos aceitar que, em pleno século XXI, continuemos a ouvir dizer no meio académico que temos de perceber a colonização portuguesa à luz do seu tempo e reconhecer a sua vocação civilizadora. Terei também de me esforçar para compreender a boa vontade de Adolf Hitler, que presidiu à construção dos campos de concentração e das famosas câmaras de gás? Deixarei de classificar as suas ações como genocídio como pretendem que faça com o genocídio promovido pelos colonos alemães na Namíbia, que “só” matou oito a dez milhões de africanos?

Este dossier procura ser um contributo para abrir uma brecha no estado de negação em que nos encontramos. Será sempre limitado, na medida em que o racismo em Portugal tem tão profundas ramificações que não é possível ser abordado plenamente. E porque faltam os tão necessários dados étnico-raciais para o fazer.

Acresce que eu parto do meu lugar de privilégio. Ainda assim, a nível pessoal, não deixa de ser mais um exercício neste meu processo permanente de tentar descolonizar-me. Afinal, como diria Frantz Fanon, matar o homem branco, colonial, racista, que existe em nós continua a ser uma urgência.

Neste dossier encontrarás duas entrevistas. O dirigente do SOS Racismo Mamadou Ba explica-nos como “Não há luta contra o racismo sem luta contra o capitalismo” e o músico guineense Guto Pires fala sobre a violência policial atroz de que foi alvo: “Rebentaram comigo física e psicologicamente”. O dirigente do SOS Racismo José Falcão escreve sobre os “Descobrimentos” e a invenção das viagens low cost nos séculos XV/XVI e Beatriz Gomes Dias, fundadora e dirigente da Djass - Associação de Afrodescendentes e deputada do Bloco, sobre A descolonização que falta fazer. Já António Pedro Dores escreve sobre Discriminação, discriminação racial e encarceramento

Incluímos ainda um artigo com declarações dos ativistas Maria Gil e Piménio Ferreira sobre as múltiplas discriminações de que são alvo as comunidades ciganas no nosso país. No artigo Violência policial racista continua a matar em Portugal compilamos alguns dos casos de violência policial racistas mais gritantes. Damos ainda conta dos inúmeros relatórios de Organismos nacionais e internacionais que exortam Portugal a combater o racismo e fazemos uma compilação dos números da vergonha da discriminação racial em Portugal. Publicamos ainda alguns mitos e factos sobre o colonialismo português e relembramos alguns dos casos mais flagrantes de discriminação e violência racista em Portugal.

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