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Quem se lembra do negacionismo da SIDA?

Os atuais negacionistas da Covid acham-se verdadeiros iluminados em terra de carneirinhos. Mas os seus argumentos nem sequer são originais. Alguns parecem cópia de outro movimento negacionista que chegou a ter grande importância: o do VIH/SIDA, hoje praticamente inexistente. Por Luis Leiria.
Manifestação de pessoas HIV positivas na Cidade do Cabo em 2002, no âmbito da Treatment Action Campaign que defrontou Thabo Mbeki o presidente negacionista da SIDA. Foto de Louis Reynolds/Flickr.
Manifestação de pessoas HIV positivas na Cidade do Cabo em 2002, no âmbito da Treatment Action Campaign que defrontou Thabo Mbeki o presidente negacionista da SIDA. Foto de Louis Reynolds/Flickr.

Os negacionistas da atual pandemia de Covid-19 gostam de se apresentar como os que não se deixaram contaminar pela alegada “campanha do medo” promovida, segundo eles, pelos governos da maioria dos países do mundo, bem como pela OMS e outras instituições internacionais. Eles, os negacionistas, seriam os únicos a manter a clarividência e o pensamento crítico. Os que não pensam da mesma forma, dizem, deixam-se levar pela propaganda de uma falsa pandemia, chegando ao ponto de aceitar e justificar “os mais graves atentados aos direitos humanos”, como usar uma máscara ou respeitar regras de confinamento.

O que muitos deles talvez não saibam é que as suas posições negacionistas nem sequer são muito originais e que os seus argumentos apresentam semelhanças com os de outros negacionismos, nomeadamente o da VIH/SIDA.

Tirar lições da História

Por isso, quando algum dos meus amigos e das minhas amigas negacionistas vaticina para breve o dia em que toda a realidade por mim supostamente ignorada irá explodir-me na cara, eu respondo: em vez de fazerem vaticínios, melhor seria tirarem lições da história. Vejam o que aconteceu ao negacionismo do VIH/SIDA, que teve os seus defensores e chegou mesmo a ser doutrina oficial num país importante, a África do Sul. O que explodiu aos olhos de todos foram os óbitos causados pela doença e que poderiam ter sido evitados. Por isso, esse movimento negacionista entrou em declínio e quase desapareceu.

Covid-19 e VIH/SIDA são duas doenças epidémicas muito diferentes: pelas características dos próprios vírus, o SARS-Cov-2 transmite-se de forma muito mais rápida e abrangente que o VIH. Ainda assim, passados 39 anos desde o surgimento de uma deficiência imunitária desconhecida, depois batizada Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA), os números são assustadores: segundo a OMS, quase 33 milhões de pessoas morreram, desde o seu surgimento; no final de 2019, estimava-se a existência de 38 milhões de infetados, dos quais 26 milhões usavam a terapia antirretroviral. A OMS calcula que entre 2000 e 2019, esta terapia salvou a vida de 15,3 milhões de pessoas.

Apesar do sucesso do tratamento com antirretrovirais, a OMS estima em 690 mil o número de óbitos provocados pela doença, em todo o mundo, em 2019.

A SIDA não existe”

Entramos no universo dos negacionistas do VIH/SIDA e ficamos impressionados com a semelhança dos mecanismos da negação.

Negação ou desvalorização da doença. Qual a primeira afirmação dos negacionistas da Covid? Negam a importância da doença provocada pelo vírus SARS-CoV-2, chegando ao ponto de afirmar que não existe uma pandemia.

Vejam a semelhança com os negacionistas da SIDA: para eles, essa não era uma nova doença, e nem existiria enquanto SIDA. Haveria sim uma coleção de 29 doenças bem conhecidas: infeções fúngicas, herpes, diarreia, algumas pneumonias, cancros e tuberculose.

Estas doenças, garantiam, não são causadas pelo vírus VIH. Esta tese foi apresentada, pela primeira vez, em 1987, pelo principal inspirador dos negacionistas, o biólogo germano-norte-americano Peter Duesberg, professor da Universidade de Berkeley, Califórnia. Para ele, a causa da SIDA seria o consumo prolongado de drogas recreativas.

Apesar de se tratar de um cientista com contribuições importantes para a investigação do cancro, as suas teses sobre a SIDA nunca foram provadas, ao mesmo tempo que se multiplicavam estudos e se formava um consenso científico confirmando a relação do VIH com a SIDA. Hoje, as teses de Duesberg são marginais.

Negação das medidas de contenção. Os negacionistas da Covid afirmam que medidas como o confinamento são “medievais” e não têm qualquer efeito sobre a transmissão da doença, e que o uso da máscara é inútil e pode mesmo ajudar a propagá-la. Os negacionistas da VIH/SIDA afirmavam que usar preservativo não prevenia a contaminação, uma vez que a causa da doença era o uso de drogas.

Rejeição das vacinas ou tratamentos. Os negacionistas da Covid são contra as vacinas. Alguns porque apoiam o movimento antivacinas e outros porque acusam as farmacêuticas, os governos e as entidades de Saúde de usarem milhares de mulheres e homens como cobaias para as suas experiências. Argumentam que é impossível garantir, nos poucos meses decorridos entre a ocorrência dos primeiros casos e o surgimento das vacinas, que estas são seguras. Rejubilam diante de problemas como os que recentemente ocorreram com a vacina da AstraZeneca.

Já os negacionistas da VIH/SIDA opuseram-se desde o início aos tratamentos por antirretrovirais, tendo mesmo Duesberg afirmado que o primeiro destes fármacos a ser usado, o AZT, poderia provocar SIDA no paciente. Esta posição contrária aos tratamentos com antirretrovirais acabou por ditar a derrota dos negacionistas. De facto, ultrapassada a toxicidade dos primeiros medicamentos, o uso dos antirretrovirais tem demonstrado ser seguro e efetivo, evitando mortes e prevenindo também a transmissão do vírus às pessoas não infetadas. Não é a cura, mas reduziu drasticamente a mortalidade e aumentou a qualidade de vida de quem tem a infeção.

Adoção de teorias da conspiração. Essas teorias são um elemento fundamental da argumentação de ambos os movimentos negacionistas, que as usam para explicar o esmagador reconhecimento internacional das doenças que eles desvalorizam, bem como a adoção generalizada dos tratamentos que eles rejeitam. Os responsáveis nunca são os cientistas; estes são meras marionetas nas mãos da CIA, do governo chinês, do bilionário e especulador George Soros ou do fundador da Microsoft, Bill Gates, entre muitos outros. A indústria farmacêutica também é presença constante nestas conspirações. Mas os delírios conspirativos acabam por diluir as verdadeiras responsabilidades da indústria farmacêutica. Isso fica evidente com os negacionistas da Covid. Em vez de defenderem a quebra de patentes para aumentar a produção das vacinas de modo e imunizar rapidamente toda a população do planeta, fornecendo-a gratuitamente aos países mais pobres, os negacionistas preferem opor-se às vacinas e fazer, eles sim, uma “campanha de medo” em torno dos possíveis efeitos secundários que estas possam trazer às pessoas vacinadas.

Os únicos iluminados. Tal como os negacionistas da Covid, os da SIDA também se achavam os únicos iluminados num mundo de carneiros. “Reconquistei a minha sanidade mental quando compreendi que a ciência da SIDA era um discurso religioso. A única coisa que irei para o túmulo sem conseguir compreender é como foi possível que todos aceitassem tão rapidamente como verdadeiro tudo o que o governo dizia”, diz uma pessoa citada num dos livros dos negacionistas.

A tragédia sul-africana

Tal como o Brasil de Bolsonaro, em relação à Covid, a África do Sul teve entre 1999 e 2008 um presidente negacionista da VIH/SIDA, Thabo Mbeki, o sucessor de Nelson Mandela. Em maio de 2000, Mbeki reuniu um painel de aconselhamento sobre a SIDA, formado por cientistas com uma forte presença de negacionistas, entre os quais Duesberg. O painel não chegou a acordo e, por isso apresentou duas posições diferentes. A dos negacionistas defendia que a doença não fosse tratada com drogas antirretrovirais, mas sim com vitaminas, terapias alternativas e complementares, incluindo massagens, terapia musical, yoga, homeopatia, medicina ayurvédica e outros tratamentos.

Os negacionistas mantinham que a SIDA não é causada pelo VIH, mas adaptaram o discurso sobre as causas da doença, que foram atribuídas a problemas de nutrição e às más condições de saúde, e já não ao consumo de drogas. Mbeki abraçou estas posições e afirmou que a sua prioridade era vencer a pobreza do país e não prosseguir os caríssimos tratamentos com antirretrovirais. O seu ministro da Saúde sustentou que o combate à doença passava não pelo AZT, que começava a ser usado, mas pelos tratamentos tradicionais à base de alho, beterraba e sumo de limão.

Um estudo realizado por investigadores da Harvard School of Public Health em Boston comparou a evolução da VIH/SIDA na África do Sul com a dos vizinhos Botswana e Namíbia, que adotaram os tratamentos com antirretrovirais, e concluíram que a morte de 330.000 pessoas na África do Sul, nesse período, poderia ter sido evitada, e que 35.000 bebés nascidos já com a infeção poderiam ter sido protegidos do vírus.

Jacob Zuma, sucessor de Mbeki fez uma viragem de 180 graus e implantou um massivo programa de tratamento com antirretrovirais. Hoje, o negacionismo praticamente desapareceu do país e Mbeki, num artigo de 2016, tentou demarcar-se dele, afirmando nunca ter defendido que o VIH não era a causa da SIDA.

Mas os custos do negacionismo não podem ser apagados e hoje a África do Sul é o país com maior número de pessoas com VIH/SIDA: cerca de 7,7 milhões. No ano de 2019 registou 72.000 óbitos relacionados com a SIDA. O segundo país com mais pessoas a viverem com SIDA é o vizinho Moçambique, mas muito abaixo da África do Sul, com 2,2 milhões de infetados.

Num momento em que o Brasil ultrapassa 4.000 mortes de Covid por dia, os negacionistas deveriam refletir bem sobre as consequências das suas posições. Não sabemos qual será o tamanho da ferida que o Brasil terá quando, de uma forma ou de outra, conseguir dominar a pandemia de Covid-19: mas sabemos quem será responsabilizado por essa ferida. O genocida Jair Bolsonaro, um negacionista na presidência do maior país da América do Sul.

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Neste dossier:

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