Porque é que as pandemias são o ambiente perfeito para as teorias da conspiração?

A cultura política dos últimos 50 anos falhou em oferecer à vasta maioria das pessoas um sentido do seu valor e em protegê-las contra o risco existencial de perderem os seus meios de subsistência. As teorias da conspiração alimentam-se de um sentimento de impotência face a um apocalipse. Por Nicolas Guilhot.

16 de maio 2021 - 22:05
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Adepto de uma teoria da conspiração sobre o coronavírus. Foto de Eden, Janine and Jim/Flickr

Um vírus criado por bio-engenharia, uma mutação genética induzida pela tecnologia 5G, uma conspiração da grande indústria farmacêutica, um plano orquestrado por Bill Gates ou Georges Soros. Desde o começo da pandemia do coronavírus, as teorias da conspiração espalharam-se como o próprio vírus.

A lufada de conspiração que inevitavelmente para acompanhar as pandemias não é nada de novo. Quando a pandemia de gripe de 1918 atingiu as américas, a culpa da disseminação do vírus foi atribuída aos submarinos alemães. Durante a peste de 1630, em Milão, uma combinação de superstições populares e ansiedade generalizada levou ao julgamento, tortura e execução de dois cidadãos falsamente acusados de espalhar a pestilência – um caso examinado com minúcia pelo escritor italiano Alessandro Manzoni.

No seu trabalho sobre bruxaria, conta as perseguições contra leprosos e judeus na França do século XIV. De acordo com algumas crónicas, o rumor era que os judeus, agindo em nome do príncipe muçulmano de Granada, tinham subornado os leprosos para que estes contagiassem fontes públicas e poços de forma a matar os cristãos. Claramente, as estórias contemporâneas de bioarmas virais estão construídas seguindo o mesmo velho tema.

Como as teorias da conspiração, as pandemias são sobre um inimigo invisível e poderoso que se esconde entre nós. Como as pandemias, as teorias da conspiração são contagiosas ou, como hoje se diz, “virais”. Mas, por detrás destas similitudes superficiais, estão ligadas por afinidades mais profundas.

Apocalypse now

As pandemias estão envolvidas num sentido de apocalipse iminente. Ao longo da história, foram percebidas como as atribulações finais, uma sinal do fim dos tempos. Em 1523, durante um surto de peste, enquanto os mais ricos habitantes de Florença fugiram para as suas casas de campo, aqueles que ficaram na cidade ficaram barricados em suas casas a tentar atribuir algum sentido à sua aflição.

O político florentino Niccolò Machiavelli, que testemunhou o episódio em primeira mão, observou:

“Muitos estão à procura da causa por detrás desta aflição, alguns dizem que as previsões dos astrólogos são ameaçadoras, outros que os profetas já tinham previsto isto; há alguns que recordam algum prodígio… de forma a concluir que não apenas a peste mas uma infinidade de outras calamidades irão cair sobre nós.”

Hoje em dia, apenas os fundamentalistas religiosos interpretam a pandemia de coronavírus como um sinal do juízo final ou como o fim dos tempos. Contudo, o pensamento apocalíptico não tem necessariamente de ser religioso ou de encarar o fim da existência terrena. O antropólogo italiano Ernesto de Martino propôs a ideia de “apocalipses culturais” para designar o sentimento que um mundo histórico específico está a acabar. Para ele e para os seus contemporâneos de meados do século XX, isto manifestava-se num sentido de crise existencial que permeava a cultura do pós-guerra e a possibilidade de aniquilação nuclear, mas ele pretendia que a noção se aplicasse a um espectro mais abrangente de situações históricas. Vivemos um destes apocalipses culturais hoje, à medida que se torna cada vez mais claro que o mundo como o conhecemos se está a tornar rapidamente uma coisa do passado e o que quer que esteja à nossa frente será totalmente diferente. Tornámo-nos espectadores de quarentena de uma catástrofe em andamento que sublinha a fragilidade do mundo tal como o dávamos como garantido e da nossa presença nele.

Quando a paranoia vence

A impressão de que o mundo se está a dissolver e a nossa impotência para travar isto pode fazer-nos sentir uma ansiedade paralisante, incompatível como qualquer forma de vida produtiva social e cultural. Para de Martino, as mitologias antigas, as religiões e mesmo as culturas seculares progressistas tinham contido este risco enfatizando a existência de um futuro no qual a comunidade poderia existir.

Sem isto, a experiência apocalíptica torna-se totalmente alienante. Quando todas as certezas que fundavam a nossa existência são abaladas, é fácil sentir-se paranoico. Ou, como de Martino o coloca, sentir forças hostis e sentir-se vítima de “conspirações, maquinações, maldições”. As teorias da conspiração e as visões paranoicas são o outro lado da moeda de um a crise cultural na qual a ideia de um futuro partilhado colapsou.

Num livro anterior, de Martino observou que situações extremas de “sofrimento e privação” poderiam despoletar tais crises existenciais. Mencionou as guerras, mas poderia também ter acrescentado as pandemias. O auto-isolamento e a quarentena resumem a ideia de ser removido do mundo e de qualquer sentido de comunidade. Nestas condições é fácil sucumbir à paranoia, especialmente se for acirrada por políticos cínicos e reacionários.

Ao contrário das ideias religiosas de apocalipse, a versão secular das teorias da conspiração não oferece nenhum elemento de redenção. As teorias da conspiração perpetuam o sentimento paranoico de desafeição e de impotência – a ideia de que forças malévolas estão a agir e de que pouco podemos fazer para as parar. Estas isolam ainda mais as pessoas e privam-nas do sentimento de que podem moldar o seu mundo, quanto mais de fazer dele um mundo melhor.

A cultura política dos últimos 50 anos falhou em oferecer à vasta maioria das pessoas um sentido do seu valor e em protegê-las contra o risco existencial de perderem os seus meios de subsistência – verdadeiramente, o seu mundo. A pandemia em curso empurra-nos para a fase terminal desta crise. A única forma de sair dela consiste em virar as ideias apocalípticas de cabeça para baixo e assegurar-se de que o fim a estamos a assistir não será uma agonia sem fim mas um novo começo.


Nicolas Guilhot é investigador no CNRS e professor visitante no City College de Nova Iorque.

Artigo publicado originalmente no The Conversation. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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