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A ‘epidemia’ de ideias falsas que ameaça o conhecimento e a democracia

Teorias falsas, fake news e manipulação política das crenças sempre existiram. Mas há uma onda de extrema-direita que lhes dá uma nova dimensão. Em entrevista ao Sul21, o filósofo Ernesto Perini Santos analisa as razões que fazem as pessoas acreditarem em ideias implausíveis.
Fake news e redes sociais. Imagem publicada no Outras Palavras.
Fake news e redes sociais. Imagem publicada no Outras Palavras.

A universidade está sob ataque. E não é só no Brasil. Centros de produção de conhecimento e comunidades de valores éticos e políticos que defendem a democracia, a liberdade de pensamento e o respeito pelas diferenças tornaram-se alvo da onda conservadora e de extrema-direita que atinge diversos países no mundo. A munição desse ataque conjuga o uso de fake news, informações falsas e crenças desprovidas de qualquer evidência, mas que funcionam como critérios identitários, com um mesmo objetivo: desmoralizar as universidades como centro produtores de conhecimento e de diversidade.

Para o investigador Ernesto Perini Santos, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais, o resultado conjugado desses ataques é desastroso para a produção do conhecimento. “Se a universidade perde a liberdade e passa a não funcionar mais com a sua própria dinâmica, nós perdemos a produção do conhecimento. A dinâmica de produção do conhecimento tem que funcionar livre de constrangimentos”, afirma.

Preocupado com o avanço obscurantista sobre a democracia, as universidades e contra a própria ideia de conhecimento, Ernesto Perini tem vindo a investigar alguns processos relacionados com o mundo das fake news, da pós-verdade e de crenças desprovidas de base evidencial como o terraplanismo, utilizando conceitos da Filosofia da Linguagem, Espistemologia e Filosofia da Mente, as suas áreas preferenciais de investigação. Em entrevista ao Sul21, ele avalia, entre outros temas, por que as pessoas passaram a tomar como verdadeiras coisas sobre as quais elas não têm prova nenhuma e são completamente implausíveis. Para Ernesto Perini, essa proliferação pode ser comparada a uma epidemia: “O nosso problema em relação a coisas como o terraplanismo, o criacionismo ou o negacionismo em relação ao aquecimento global é quase um problema de epidemiologia de ideias”.

 

Como surgiu o interesse em abordar os fenómenos da chamada “pós-verdade” e das fake news como objetos de uma reflexão filosófica?

Eu, como muita gente, estou muito preocupado com o que está acontecer no mundo, com a eleição de governos autoritários e antidemocráticos, cuja vitória foi resultado de campanhas que utilizaram informações falsas, sem nenhuma base evidencial e sem nenhuma razoabilidade. Trata-se de um fenómeno global. Nós vimos aqui no Brasil como a eleição de Bolsonaro se deu, em grande medida, baseada na difusão de notícias e informações falsas, mas isso aconteceu em outros lugares também, associado sempre a um determinado tipo de política. Não é uma coisa distribuída de maneira uniforme e homogénea no espectro político.

Tentei começar a pensar sobre esse tema utilizando as ferramentas conceptuais e teóricas das quais eu disponho. Eu não trabalho com Filosofia Política nem com Ciência Política. Estudo Filosofia da Linguagem, Epistemologia e Filosofia da Mente, que trazem um conjunto de temas que envolvem o conhecimento, a difusão de informação, a comunicação e questões como o que é ter uma crença. Comecei a ler e a ver como esses conceitos podiam ser trazidos para pensar esse tipo de fenómeno. Já existe uma literatura importante sobre isso, em particular na área de ciências cognitivas. Tentei trazer essa literatura, com a qual já tinha familiaridade, para pensar sobre esse conjunto de temas. Por que as pessoas passaram a tomar como verdadeiras coisas sobre as quais elas não têm evidência nenhuma e que são completamente implausíveis? Essa foi a origem do meu interesse. É uma tentativa de pensar sobre esses temas.

 

Em que medida, na tua avaliação, as novas formas de circulação da informação passaram a influenciar o processo de formação de crenças das pessoas?

Muita gente afirmou que, com as possibilidades de difusão de informação pela internet, toda a gente poderia produzir conteúdo, sem nenhum filtro institucional ou epistémico, e que isso seria bom para a produção do conhecimento. Em alguma medida isso é verdade. Hoje, o acesso a qualquer tipo de informação é muito maior do que antes. Você pode, praticamente sobre qualquer tema, achar informações sobre ele, das maneiras mais diversas e em diferentes níveis. A Wikipédia é só uma maneira de fazer isso. Há várias outras maneiras que realizam esse ideal de, digamos, democratização do acesso à informação. Mas há outros efeitos que também devem ser considerados.

Esses outros efeitos decorrem de um conjunto de factos conjugados. Em primeiro lugar, a difusão de informação na internet é muito mais barata que o modelo de difusão de informação anterior. E é mais barato em dois sentidos. Ela custa mais barato mesmo. Publicar um livro é muito mais difícil e caro, assim como publicar numa revista académica. Já na internet, qualquer um pode criar um site e publicar conteúdo sobre um tema qualquer. Mas há outro custo que é muito menor na internet, que é o custo reputacional. Numa comunidade pequena, seja no caso de uma cidade ou de uma comunidade académica determinada, se você defender uma tese que é manifestamente falsa, vai pagar o custo dessa defesa. Toda a gente da sua comunidade vai dizer que essa tese não tem sentido nenhum. Com isso, vou pagar um custo com a minha reputação. Já a internet faz esse custo praticamente desaparecer. Sempre haverá quem concorde com a sua afirmação. Algumas pessoas dirão que é uma estupidez, mas outras pessoas dirão que você está certo. Então, você pode escolher quem você escuta. Em certo sentido, a própria dinâmica da internet escolhe com quem você reage.

A segunda coisa que devemos considerar é que a oferta de produtos cognitivos na internet (teses e teorias) depende do interesse do ofertante e não da procura, justamente em virtude da diminuição do custo de difusão. Isso tem um efeito um pouco estranho. Quem tem interesse em defender uma tese determinada neste meio sem filtro da internet são pessoas para as quais as crenças têm valor na definição da sua identidade. O resultado disso é a criação de uma oferta viciada de um determinado tipo de crença, com duas dimensões diferentes. A primeira dimensão é que são teses que não são defendidas no espaço académico. Um terraplanista, por exemplo, não tem espaço para defender as suas teses na universidade, pois trata-se de uma tese completamente estapafúrdia, que não faz sentido nenhum. Mas ele pode criar um blog sobre isso e defender a sua tese num espaço sem filtro académico.

Por outro lado, essa tese pode desempenhar para ele um papel na definição da própria identidade dele. Isso acontece muito nas comunidades que defendem esse tipo de tese. Há uma ideia, nestas comunidades, que eles produziram um conhecimento contra o establishment, contra a universidade, os cientistas, etc., e isso tem um papel identitário. Se essas crenças têm papel identitário, as pessoas vão dedicar muito mais tempo à produção desse conteúdo. O resultado disso, à primeira vista contra-intuitivo, é que para qualquer tema estranho a oferta dessas teses contra o establishment é muito maior.

Um sociólogo francês, chamado Gérald Bronner, verificou que se você fizer uma pesquisa no Google sobre a “psicocinese” (a capacidade de mover os objetos com a mente), dos 30 primeiros sites listados na busca, 70% afirmam que ela existe. O mesmo padrão existe quanto à existência do monstro do Lago Ness ou para o terraplanismo. O que acontece, por um lado, é que essas crenças têm um valor identitário para as pessoas. Por outro lado, não faz sentido algum entrar nestes espaços para tentar refutar essas crenças. Isso não teria efeito nenhum para essas pessoas pois essas crenças têm um papel identitário. Tudo isso cria uma situação muito estranha que tem um efeito de retroalimentação, gerando uma ilusão de consenso que resulta em toda essa oferta viciada que existe na internet.

O terceiro fator está associado à tese inicial de que o facto de a oferta ser desregulamentada, sem filtro, resultaria numa ampliação do conhecimento. O resultado disso seria que as teorias científicas iriam prevalecer. No entanto, isso não está a acontecer por duas razões, em certa medida, independentes. A primeira razão é que as teorias científicas são de difícil acesso. Para você dominar uma teoria da física, química, biologia, genética ou seja lá que área do conhecimento for, é preciso ter um arsenal teórico importante. É preciso ter um instrumental matemático, ter acesso a dados que são eles mesmo apresentados de maneira complexa. Assim, uma teoria científica vai produzir, frequentemente, a sensação de frustração. Além disso, uma teoria científica pode ir contra valores que as pessoas já têm, contra imagens que elas têm do mundo, contra visões mais intuitivas. A tendência num mercado cognitivo totalmente aberto é que teorias mais simples, que não vão contra os valores das pessoas, prevaleçam. Essa difusão sem filtros no mercado cognitivo desestruturado da internet produz a proliferação e, talvez, a dominação de teorias sem nenhuma base evidencial.

 

A maioria das pessoas não conseguiria explicar, tecnicamente, os princípios da Lei da Gravidade, de Newton, ou de outras teorias científicas. Boa parte das nossas crenças em teorias científicas estabelecidas repousa também numa confiança na comunidade científica, num modo de fazer ciência. Parece que essa relação de confiança também está sendo atingida no decorrer desse processo de proliferação de crenças e teorias absurdas.

Sim. O conhecimento especializado exige muitos elementos. A gente precisa conhecer muita coisa para entender, por exemplo, debates envolvendo o tema da manipulação genética. Temos aí problemas éticos envolvidos, mas também conhecimento técnico que é dominado por quem estuda genética. Isso vale para tudo. Sobre esses temas a gente defere para especialistas. Fazemos isso o tempo todo. Quando você vai a um médico você defere conhecimentos técnicos para ele. Quando você contrata um engenheiro ou arquiteto, da mesma forma. Então, a falta da confiança no especialista terá um papel muito importante na ocorrência dos fenómenos que estamos a abordar aqui.

 

Nos casos envolvendo temas de género e de sexualidade, o facto de determinadas crenças assumirem um papel identitário fica claro. Já em casos, como o da terra plana, essa relação não parece tão óbvia. Em que medida a crença na teoria da terra plana pode desempenhar esse papel identitário? Por que essa teoria, que já é antiga, ganhou a proporção que ganhou, na tua opinião?

Na era moderna, a origem desse fenómeno remonta a um inglês do século XIX, Samuel Rowbotham, que escrevia sob o pseudônimo “Parallax”. Ele diz que quer tomar o conhecimento para o povo e desenvolve a tese de que cada um deve produzir o próprio conhecimento a partir da própria experiência e das ferramentas lógicas que cada um tem. Esse inglês está na origem do terraplanismo contemporâneo, que tem um movimento contínuo desde então, que foi potencializado pelo modo de circulação da informação permitido pela internet.

Como eu referi, as crenças têm um papel na marcação de identidades. Aquilo que eu acredito marca também o grupo com o qual me identifico e o tipo de pessoa que eu sou. Os terraplanistas são pessoas que têm como identidade a produção daquilo que tomam como verdadeiro, a partir das experiências que conseguem fazer e que podem ser mais ou menos articuladas e mais ou menos sofisticadas. Cada um é o mestre das próprias teorias, digamos assim. Eu acho que a identidade do terraplanismo é a identidade das pessoas que produzem o conhecimento contra o establishment, contra as autoridades. Isso cria uma identidade. Essa ideia passa a funcionar como marcador de pertença a um grupo contra especialistas. Isso desdobra-se em duas coisas. A primeira é que eles precisam ter uma teoria de porque as pessoas dizem que a terra não é plana, mas sim um globo. É uma teoria do complot associado, uma teoria da conspiração que abre espaço para uma série de outras teorias. A segunda é que essas teorias, frequentemente, se aliam com outras teorias, com outras visões diferentes em relação ao establishment. Pode ser o movimento contra a vacinação ou a história de que o homem nunca chegou à Lua. É como se dissessem: nós somos as pessoas que não acreditam naquilo que nos dizem para acreditar. Que cada um decida por si mesmo aquilo que é verdadeiro.

O problema dessa tese é que o saber não funciona assim. O saber é uma atividade cooperativa e muito assimétrica. Para quase tudo, você precisa ter um conhecimento especializado. Então, para quase tudo, você tem que confiar e deferir conhecimento a um especialista. Ao jogar a identidade delas contra o saber estabelecido, essas pessoas acabam não sabendo absolutamente nada. Elas não têm conhecimento nenhum. O que elas fazem é jogar a identidade de um grupo contra o establishment, contra a normatividade epistémica que está expressa nos especialistas.

O esforço que tenho feito é de tentar entender quais são as motivações dessas pessoas. Há uma motivação que é legítima, que é a motivação de participar, de produzir as próprias teorias, o próprio conhecimento. Não acho que isso seja ilegítimo. O problema é que é impossível fazer isso. É impossível que, para todas as coisas, você só aceite aquilo em que consegue avaliar a base evidencial. Se você não tiver uma formação científica específica, provavelmente não conseguirá fazer isso para coisa alguma. Esse é o caso dos terraplanistas. Eles identificam-se como as pessoas que produzem o próprio conhecimento contra o establishment.

 

Neste processo, a Universidade como instituição, especialmente as universidades públicas, tornaram-se um alvo de ataque, como se vê agora no governo Bolsonaro. Qual a dimensão desse ataque, na tua avaliação?

Acho que há duas coisas que se cruzam aí. A primeira é a existência desse movimento de cada um assumir para si a produção das teorias que são tomadas como verdadeiras, o que, como eu disse, é algo impossível de ser feito. Há um autor alemão, Hans Blumenberg, que escreveu um livro chamado “A Génese do Mundo Copernicano”. Neste livro, ele afirma que o surgimento da ciência moderna tornou aquilo de que tratam as teorias completamente inacessível à experiência vulgar. Falando noutros termos, a base evidencial é inacessível à experiência ordinária. Se você não for um especialista, você sequer sabe qual é a base evidencial a partir da qual determinada teoria é construída. Muitas vezes, trata-se de uma base matematizada, que envolve muitos dados, um determinado tipo de experiência laboratorial que não é a nossa experiência habitual. Um dos aspetos do ataque à universidade é a ideia de que a experiência tem que ser construída a partir de uma base evidencial comum a todos, o que não é verdade. O resultado disso seria a perda, virtualmente, de todo o conhecimento.

A segunda coisa, que é um fenómeno independente deste outro, é que as universidades representam, para além da produção do conhecimento, uma comunidade de valores éticos e políticos que são mais liberais e tolerantes. As universidades, em geral, são mais tolerantes e liberais no sentido de aceitar as diferenças, do que o ambiente não universitário. Muitos dos ataques às universidades no Brasil, mas também em países como Hungria, Estados Unidos, Turquia e Rússia estão relacionados com essa questão. Jason Stanley cita exemplos ocorridos nestes países no seu livro sobre o fascismo (“Como o Facismo Funciona – A política do “nós” e “eles”. L&PM. 2018.). O mote é sempre o mesmo: as universidades representam valores liberais, universalistas e globalistas que não devem ser aceites.

É por essa razão, por exemplo, que Orbán expulsou da Hungria a Universidade Centro-Europeia, que é a melhor universidade do leste europeu. Esta semana, essa universidade começou suas aulas em Viena. Orbán acusou George Soros, que é financiador da Universidade Centro-Europeia, de querer difundir valores liberais, de tolerância com imigrantes, etc., que seriam contrários ao espírito húngaro. Esse é um discurso recorrente. Na Turquia, Erdogan atacou as universidades também nesta base e assistimos a esse discurso também aqui no Brasil. As universidades representam um tipo de valor que essa onda conservadora e de extrema-direita no mundo é contrária.

O resultado conjugado desses ataques é desastroso para a produção do conhecimento. Se a universidade perde a liberdade e passa a não funcionar mais com a sua própria dinâmica, nós perdemos a produção do conhecimento. A dinâmica de produção do conhecimento tem que funcionar livre de constrangimentos. Para isso, a dimensão pública da universidade é fundamental.

 

Mais ou menos junto com o fenómeno das fake news, ganha espaço a noção de pós-verdade. Num recente seminário, referiu-se a essa expressão como um rótulo potencialmente enganador. Em que sentido, a pós-verdade é um rótulo potencialmente enganador?

Esse rótulo é, de facto, enganador. O conceito de verdade não foi substituído por nenhum outro conceito. Não existe um conceito diferente que desempenhe o mesmo papel que o conceito de verdade. Esse conceito é constitutivo da proposição, daquilo que a gente diz. A definição mais famosa da expressão pós-verdade está no Dicionário de Oxford: relativo ou referente a circunstâncias nas quais os factos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais. O que essa etiqueta inadequada capta é que as pessoas aceitam como verdadeiras coisas para as quais elas carecem de evidências e são completamente implausíveis.

Há três temas diferentes aí. O primeiro diz respeito à especificidade de hoje. Que as pessoas aceitem coisas contra as evidências, pelo apelo a emoções ou algo do tipo, é algo que sempre ocorreu. A aceitação de teorias falsas e a manipulação política são coisas muito antigas. Temos o exemplo tristemente celebre no final do século dezanove, início do século vinte, que é o livro “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, um documento forjado para atacar os judeus. Embora o rótulo de pós-verdade não existisse na época, a definição aplica-se. Estamos a falar de um documento forjado motivado por um grupo político e que teve a influência nefasta que se conhece. Não foi o primeiro nem será o último.

Em segundo lugar, assim como essa ideia da “pós-verdade”, as fake news também não são uma coisa nova. O facto de a imprensa mentir, por meio de notícias falsas, está longe de ser novo. O facto de as pessoas acreditarem em eventuais mentiras veiculadas na imprensa também é algo que está longe de ser novo. Devemos distinguir duas coisas aí. Num polo temos teorias como o terraplanismo ou ideias nefastas como a de que vacinação causa autismo. No outro polo temos, não teorias, mas informações sobre factos simples que são enunciadas. Nos Estados Unidos tivemos o caso “pizzagate”, que tratava do suposto envolvimento dos Clinton e dos democratas em tráfico sexual de crianças sediado numa pizzaria em Washington. Foi uma invenção completa, mas muitas pessoas acreditaram nela. No caso do Brasil, a coisa mais impressionante para mim foi a história da mamadeira de piroca. É quase incompreensível como alguém tomar algo assim como verdadeiro. O kit gay é outro exemplo.

Essas informações deveriam ser recusadas por duas razões. No caso do Brasil, elas circularam por veículos não oficiais e que não tem dimensão pública. Só isso já deveria levantar uma suspeita. A segunda razão é que são teses totalmente implausíveis. Há um mecanismo humano importante que é o mecanismo meta-cognitivo. É quando a gente verifica as informações de outras pessoas que chegam até nós, considerando nossas crenças de fundo. Quando alguém me diz alguma coisa no domínio da biologia, sobre cães, por exemplo, isso vai desencadear em mim tudo o que sei sobre cães. Neste domínio circunscrito de crenças eu vou avaliar o que é plausível e o que não é. Se for implausível vou descartar ou exigir uma prova muito maior. Aplicamos esse mecanismo naturalmente. Nos casos sobre os quais estamos conversando parece que houve um bloqueio desse mecanismo. Deveria ser evidente a todos que ninguém distribui um biberão com um bico de pénis. A pergunta importante neste caso é o que bloqueia esse mecanismo meta-cognitivo no caso das fake news?

O caso de teorias alternativas como o terraplanismo ou anti-vacinação é diferente. Nestes casos é mais difícil desencadear o mecanismo meta-cognitivo porque são teorias. No caso da suposta relação entre a vacinação e o autismo, por exemplo, uma pessoa que não é especialista não vai conseguir demonstrar que é verdadeiro nem que é falso. O conjunto das autoridades científicas reconhecidas afirma que não existe tal relação. Por outro lado, todas as pessoas que afirmam existir essa relação são outsiders. Isso é uma indicação de que essa tese é falsa, mas há um mecanismo de deferência aos especialistas que opera aí. No caso da mamadeira de piroca, cada pessoa deveria, individualmente, desencadear esse mecanismo.

Há uma investigadora italiana chamada Ana Elisabetta Galeotti, que fez uma análise do caso do “pizzagate”. Segundo ela, quando uma notícia ou uma informação é muito contrária à identidade ideológica da pessoa, ela bloqueia os mecanismos que permitem a reavaliação dessas crenças. Ela usa uma ideia da economia que se refere aos “custos afundados”. É mais ou menos quando você paga muito caro por uma coisa e, mesmo se ela não funcionar, você vai continuar a dizer que ela é boa pois já gastou uma boa quantia. Para a investigadora, há crenças que têm um valor identitário muito grande, de modo que, se essas crenças forem recusadas, a pessoa terá um custo muito grande.

 

Quais são os desafios que esse cenário coloca para os centros produtores de conhecimento, como as universidades e para os seus cientistas e investigadores?

Esses desafios são enormes. Em primeiro lugar, esse cenário traz um desafio para as democracias. Vários autores já disseram que, do ponto de vista individual, existe uma racionalidade neste comportamento de manter crenças que têm um papel identitário na comunidade contra a base evidencial. Agora, do ponto de vista coletivo, isso é desastroso. Existem decisões públicas que dependem do saber especializado e de um cálculo das relações meio-fim. Se eu quero obter um fim determinado tenho que saber quais os meios que devo dispor para obtê-lo. E isso depende do conhecimento científico. Para tomar essas decisões públicas, portanto, tenho que aceitar o que os cientistas dizem. Por outro lado, a compreensão das questões em jogo também depende da compreensão do enquadramento adequado das perguntas, o que também depende do conhecimento científico. A perda desse conhecimento faria com que perdêssemos tanto os meios adequados para atingir os fins que queremos, quanto o próprio enquadramento do problema.

 

Parece que entraríamos aí numa distopia que estaria hoje no domínio da ficção científica. Seria o colapso da própria ideia de conhecimento…

O conhecimento produzido na universidade vai continuar a existir. O que os biólogos, químicos, físicos ou astrónomos pesquisam vai continuar a existir. Os terraplanistas, os criacionistas e os adeptos do movimento antivacinação não têm efeito nenhum sobre a produção dessas áreas de conhecimento. O problema é como o resto da sociedade vai se relacionar com esse conhecimento. O “desaparecimento” do conhecimento pode expressar-se como a diminuição do espaço dos especialistas no espaço público decisório, o que seria desastroso pelas razões que já referi. O problema não é que o conhecimento vá desaparecer. O que pode desaparecer é o seu efeito social.

Há um tema que cobre tudo isso que é a origem do aquecimento global. Esse problema envolve um tipo de decisão ou um conjunto de políticas que dependem da deferência a especialistas e da qual depende a vida na Terra. Esse é o ponto mais sensível de todos. Não é certo que, aceitando a ciência envolvida, a humanidade consiga evitar os efeitos mais nefastos do aquecimento. Agora, se não aceitar, a hipótese de evitar efeitos destruidores que já se veem hoje é zero.

Há algumas coisas que talvez possamos fazer para evitar que cheguemos aí. A primeira é permitir que mais pessoas participem da produção do conhecimento e entendam como ela se dá. Isso pode ser feito de, pelo menos, três maneiras. A primeira é permitir que pessoas de diferentes origens participem na vida universitária, estudem, sejam professores e investigadores. Com isso, ficará mais claro que a produção de conhecimento não tem nenhuma ligação com pertença de grupos. Qualquer pessoa, de qualquer grupo, pode formar-se para produzir conhecimento. Por isso é muito importante que as universidades se abram e mostrem que qualquer pessoa pode formar-se para ser um cientista.

A segunda coisa importante é que as identidades elas mesmas são construídas e ninguém é uma coisa só. Ninguém pertence a só um grupo ou tem apenas uma identidade. Então, as pessoas precisam ter a oportunidade de criar para si e para os grupos dos quais participam identidades que sejam compatíveis com a produção de conhecimento. Agora isso tem um custo. Nos temas sobre os quais só houver razões epistémicas, essas razões devem prevalecer inteiramente sobre razões de pertença. Isso significa que um cientista pode ser cristão, judeu, muçulmano ou ateu, mas neste tipo de tema só deve valer aquilo que está de acordo com os critérios científicos, que excluem razões de pertença. O nosso problema em relação a coisas como o terraplanismo, o criacionismo ou o negacionismo em relação ao aquecimento global é quase um problema de epidemiologia de ideias.


Texto publicado originalmente no Sul 21. Editado para o português de Portugal pelo Esquerda.net.

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