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"Que Álvaro Cunhal seja suspenso"

No dia 5 de Novembro de 1968, Álvaro Cunhal reúne-se em Praga com os comunistas portugueses. A meio da reunião tensa, Cunhal expulsa da sala, aos gritos, o jovem Álvaro Bandarra, que procurava apresentar as razões para criticar a invasão soviética. Flausino Torres dirige-se então a Cunhal: " Jamais voltarei a apertar-te a mão! Mandaste sair aquele jovem. Pois tu é que deves abandonar o grupo, a direcção do grupo [o Partido]!(...)". Depois, escreveu uma carta ao Comité Central do PCP pedindo um inquérito e a suspensão de Cunhal do Partido.

Camaradas do C.[omité] C.[entral]

No dia 5 de Novembro de 1968, pela tarde, alguns camaradas residentes em Praga foram convocados para uma reunião com o Secretário-Geral. Nela se discutiram algumas questões (algumas por imposição dos convocados) relativas à ocupação da Checoslováquia; suas repercussões na Direcção e no corpo do P.[artido] C.[omunista] Português; assim como suas consequências em organismos de unidade.

Acerca da conversa dessa noite - realizada numa sala da Cruz Vermelha à Rua Zitna - entre as 20 e 15 e as 23 e 30, registem-se algumas observações e conclusões:

1.º - Para os documentos em que o Partido Comunista Português define a sua posição acerca dos acontecimentos que começaram a processar-se na Checoslováquia em 20 de Agosto passado, foram procuradas bases e informações apenas do lado do agressor. Ora isto tem um nome: parcialidade, desonestidade;

2.º - As 'provas' em que procuraram fundamentar-se os 'crimes anti-socialistas' do Povo, do Governo, do Partido Checoslovaco, não oferecem o mínimo valor - como se tem provado pelas contraprovas já difundidas na Rádio, Televisão, Imprensa checoslovacas;

3.º - A atitude do Secretário Geral para com os camaradas por ele convidados foi a do maior desrespeito - pois em altos gritos (que ecoavam pelo edifício, pois a porta da sala foi por ele aberta) de ditador alucinado chegou ao ponto de pôr fora da sala um deles;

4.º - Essa atitude não revelou a mínima consideração e estima da verdade e dos estudos - pois que a argumentos e documentos irrefutáveis respondia apenas com cara de troça, com sorrizinhos escarninhos, com argumentos os mais falaciosos e sofísticos, com perguntas e palavras de provocação as mais exemplarmente pidescas;

5.º - O teor da Declaração da Direcção do Partido, a sua falta de bases concretas e racionais (o Secretário Geral chegou a afirmar que não havia condições de impressão para a apresentação das provas!), mostram claramente que a Direcção e particularmente o redactor dos documentos não se fizeram e fazem cercar de informadores e estudiosos com um mínimo de capacidade intelectual e moral - mostram claramente que tudo dependeu e depende do arbítrio de indivíduos sem limites de poder e sem controlo;

6.º - Que tais declarações, comprometendo todo o Partido, lançam nódoas não apenas em seu autor e na Direcção do Partido, mas no conjunto dos militantes - que por vezes têm 'corado de vergonha';

7.º - Que o documento do Executivo datado de 23 não podia ter sido elaborado em Portugal (como informou o Secretário Geral) - a não ser que já estivesse preparado antes, o que não deixa de ser gravíssimo.

Conclui-se, portanto, que a actividade de agente de propaganda pró-socialismo autoritário a que o Sec.[retário] Geral do Partido se tem consagrado ultimamente, é criminosa politicamente e indigna de um homem sério; o seu papel de advogado internacional da conquista militar, da ocupação militar, política e económica; de justificação da sujeição de todo um povo, governo, partido, à tirania mais abjecta (aquela que se chama socialista, fraterna e amiga) -, é incompatível com o cargo que desempenha dentro do P.[artido] C.[omunista] Português.

Conclui-se que um Dirigente que trata seus camaradas como coisa sem valor, no próprio momento em que estes procuram desfazer um erro; que lhes responde com gritos de possesso, com esgares de farsa de feira, com incontrolada agitação (punha-se em pé, abria a porta, sentava-se, dobrava-se sobre a mesa ...), com palavras e guinchos de fingida dignidade ofendida - conclui-se que tal Dirigente é incapaz de comportar-se, dentro e fora do Partido, com a superioridade necessária.

Tomando em conta os factos decorridos na noite de 5 de Novembro; tomando em conta os processos de elaboração dos documentos da Direcção do Partido; tomando em conta a atitude do crê ou morres que temos presente

Proponho:

1.º - Que se faça um inquérito ao seu procedimento durante a conversa na Cruz Vermelha;

2.º - Que se convoque para data o mais próxima possível um amplo Congresso de militantes do Partido - em que tomarão parte não apenas os convidados da Direcção, mas todos os que quiserem nele participar, comprometendo-se a Direcção a proporcionar-lhes as necessárias condições;

3.º - Que até às decisões desse Congresso, Álvaro Cunhal seja suspenso de todas as suas actividades - para que no divisionismo do mundo socialista, na desorientação do Povo e dos militantes portugueses, não tome parte um português com a sua responsabilidade.

Flausino Torres, Carta ao Comité Central do PCP (de acordo com o rascunho existente no seu espólio), s-d [Novembro de 1968]

Extraído do livro "Flausino Torres, Documentos e fragmentos biográficos de um intelectual antifascista", de Paulo Torres Bento, editado pela Afrontamento

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Resto dossier

Primavera de Praga

Em 1968, a experiência checoslovaca de democratizar o socialismo, a Primavera de Praga, foi esmagada pela invasão dos tanques da União Soviética e de outros países do Pacto de Varsóvia. O Esquerda.net reuniu neste dossier artigos e reportagens a rememorar os acontecimentos e documentos da época, em particular um relato do português Flausino Torres, a carta de seis comunistas portugueses exilados criticando a invasão, e uma carta de Flausino Torres pedindo a suspensão de Álvaro Cunhal do PCP.

O buraco negro da memória

Nesta reportagem publicada há dez anos na revista Vida Mundial, Daniel Oliveira recorda os acontecimentos da Primavera de Praga e a "Revolução de Veludo", que ocorreu em 1989.

Só os tanques soviéticos pararam a participação popular

Em, 1968, a então Checoslováquia lançou o pânico no campo do "socialismo real". A reabilitação da crítica democrática e um verdadeiro levantamento pacífico viravam do avesso o bastião avançado do Pacto de Varsóvia na Europa. O Partido-Estado subvertia-se a partir de dentro. Uma revolução? Só os tanques soviéticos puderam parar a experiência de participação popular daqueles poucos meses.

Cronologia

1968 foi um ano intenso: a guerra do Vietname mobilizava exércitos de combatentes e uma opinião pública quase planetária; em França, o mês de Maio assinalaria a criação de uma frente ampla de estudantes e operários na contestação da exploração capitalista, Israel e o Líbano envolveram-se num aceso conflito, Marcelo Caetano Caetano substituiu Salazar. E a Humanidade conseguiu colocar uma nave na órbita da lua. Em Agosto, os tanques soviéticos irrompiam em Praga para pôr fim aos ímpetos reformistas do Socialismo de Rosto Humano proposto por Alexander Dubcek. Fica uma breve cronologia dos acontecimentos de Praga.

Exposição: 40 anos depois, checos revivem repressão da Primavera de Praga

Uma selecção de histórias e objectos da colecção de Palach integram a exposição que o Museu Nacional da República Checa inaugurou esta semana. Num "flashback" da invasão, a exposição inclui um tanque de guerra T-54 soviético na frente de um imponente edifício, ainda equipadas com as metralhadoras de 1968.

Dubcek: Um homem de boa vontade isolado no reino dos cínicos

Uma retrospectiva da trajectória política de Alexander Dubcek feita pelo diário francês Le Monde na edição de 5 e 6 de Janeiro de 1969, onde o autor dá conta que «Dubcek era um herói, um "estratega genial" ou um novato e um fraco? As opiniões continuam muito diferentes.»

"Que Álvaro Cunhal seja suspenso"

No dia 5 de Novembro de 1968, Álvaro Cunhal reúne-se em Praga com os comunistas portugueses. A meio da reunião tensa, Cunhal expulsa da sala, aos gritos, o jovem Álvaro Bandarra, que procurava apresentar as razões para criticar a invasão soviética. Flausino Torres dirige-se então a Cunhal: " Jamais voltarei a apertar-te a mão! Mandaste sair aquele jovem. Pois tu é que deves abandonar o grupo, a direcção do grupo [o Partido]!(...)". Depois, escreveu uma carta ao Comité Central do PCP pedindo um inquérito e a suspensão de Cunhal do Partido.

Carta dos portugueses exilados na Checoslováquia sobre a invasão soviética

Seis comunistas portugueses exilados na Checoslováquia acompanharam com angústia a invasão soviética. "Sem esperar as decisões de dirigentes de qualquer escalão", relata Flausino Torres, "declarando-nos imediatamente pelo lado da justiça, cumprindo um dever à luz dos princípios." A carta seria seguida por uma segunda, datada de 16 de Setembro, que já reage à "decisão vergonhosa da Direcção do Partido Comunista Português".

"Estamos a ser ocupados pelos nossos fraternos aliados"

A 10 de Setembro de 1968, o diário conservador francês Le Figaro publica uma carta de uma mulher residente em Praga e militante do Partido Comunista Checoslovaco, um documento que revela bem o medo e a perplexidade que tomou conta das ruas da cidade, causados pela intervenção militar soviética. Mas não deixa também de mostrar diversas formas originais de resistência que uniram o povo contra os ocupantes. 

"A invasão não teve o consentimento das autoridades constitucionais da Checoslváquia"

Esta declaração do presidente da República Socialista da Checoslováquia, general Ludvik Svoboda, aos microfones da rádio Praga no dia 21 de Agosto, deixa claro que não foram as autoridades constitucionais checoslovacas que fizeram qualquer pedido de intervenção militar, e chama os seus concidadãos a enfrentar o desafio e a manifestarem "a adesão ao socialismo, à liberdade e à democracia."

Declaração da agência TASS sobre a intervenção militar na Checoslováquia

No próprio dia 21 de Agosto, a agência Tass, a agência de notícias oficial da União Soviética, divulgou esta declaração, em que afirma que a invasão foi feita a pedido dos "militantes e homens de Estado da República Socialista Checoslovaca" e que o motivo foi a ameaça que as "forças contra-revolucionárias", em conluio "com as forças exteriores hostis ao socialismo" faziam pesar sobre o regime socialista checoslovaco.

Uma "Primavera" esmagada

A "Primavera de Praga" foi sufocada há 40 anos. As possibilidades de democratizar as "democracias populares" a partir do seu seio reduziram-se drasticamente; mas permanecerá o seu exemplo, como gesto colectivo de audácia e de combatividade, de entrega generosa, que encheu as ruas de Praga e de outras cidades e que levou muito mais longe a vontade de combater o estalinismo como forma pervertida e enquistada de um poder autoritário e burocrático.

"A Batalha de Praga", de Flausino Torres

A Primavera de Praga de 1968 foi testemunhada pelo historiador e militante comunista português Flausino Torres, pai do arqueólogo Cláudio Torres, que dava aulas na Universidade Karlova. Horrorizado, Flausino Torres assistiu aos tanques soviéticos esmagando a experiência de um "socialismo sem ditadura; socialismo com democracia, com minorias; socialismo sem censura à imprensa". É um extracto do relato que escreveu na altura, "A Batalha de Praga" que pode ser lido abaixo.