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Exposição: 40 anos depois, checos revivem repressão da Primavera de Praga

Uma selecção de histórias e objectos da colecção de Palach integram a exposição que o Museu Nacional da República Checa inaugurou esta semana. Num "flashback" da invasão, a exposição inclui um tanque de guerra T-54 soviético na frente de um imponente edifício, ainda equipadas com as metralhadoras de 1968.

Europe News

A mala preta com dois grampos metálicos podia ser de qualquer pessoa: pentes de plástico coloridos de marfim , uma carteira de couro, uma caneta turquesa de plástico, livros em latim e alemão, uma manta de lã, uma boina negra, outra carteira recheada de documentos.

"Quando se passa por estas coisas sentimos arrepios na espinha", diz a historiadora Marek Junek. Os objectos pertenciam a Jan Palach, estudante checoslovaco com 20 anos de idade, que se imolou pelo fogo para protestar contra a invasão soviética que esmagou a reforma comunista da Primavera de Praga, há 40 anos.

Neste aniversário, checos e eslovacos recordaram o conflito após as tropas do Pacto de Varsóvia invadirem o seu país nas primeiras horas de 21 de Agosto de 1968, matando 108 pessoas numa esmagadora demonstração de força.

Mais de 400 testemunhas partilharam as suas memórias, angustiantes e nostálgicas, com Junek, um curador do Museu Nacional, sentado no topo da Praça Venceslau, em Praga, onde decorreram os sangrentos combates.

Svetluse Zavorova tinha 30 anos e era médica de urgências, com o cabelo moreno e longo do fim dos anos 60. Pelas 7.30 da manhã, apressou-se a tratar os primeiros feridos do edifício da Rádio checoslovaca, um foco de resistência - principalmente por jovens chechoslovacos - contra os tanques soviéticos.

Um soldado soviético bloqueou o seu caminho. "Comecei a gritar em russo que sou médica", escreveu ela sete dias depois, numa carta que está agora em exposição, "e afastei a sua metralhadora".

As balas assobiavam em volta. Nenhuma das pessoas que tratou, vivos ou mortos, tinha mais de 28 anos. "As lágrimas caíam sobre os papéis do trabalho e eu não tinha tempo para os preencher", escreveu.

Frantiska Cokova era condutora do serviço postal de Praga em 1968. Saiu para a rua para convencer os soldados soviéticos que sua missão não tinha fundamento. "Só me diziam que havia uma contra-revolução aqui", escreveu a Junek. "Foi inútil conversar com eles".

As cartas dão uma visão mais humana duma crise que abalou o mundo.

O desafio começou a partir do início de 1968, quando uma nova geração de líderes comunistas impulsionou a reforma de uma economia em declínio e libertou a asfixia do partido sobre a vida civil. Mesmo que os tanques rolassem, os chechoslovacos sentiam-se unidos na luta por uma causa nobre.

"Nunca esquecerei aquele sentimento bonito quando a nação foi encantada pela liberdade", escreveu Cokova. "As pessoas mantinham-se unidas e comportavam-se gentilmente umas com as outras."

Para o aclamado fotógrafo Josef Koudelka, cujas imagens se encontram noutra zona da exposição, aquela unidade foi uma experiência única na vida. "Os ladrões emitiram uma declaração a dizer que não iriam roubar porque os polícias tinham coisas mais importantes para fazer", afirmou numa conferência.

Seguiram-se as represálias e a resistência enfraqueceu. Palach, um idealista, decepcionado estudante de história, foi o primeiro de vários jovens que deu a sua vida para tentar levantar novamente a nação. Ateou fogo em si próprio em 16 de Janeiro de 1969, na Praça Venceslau, e morreu três dias mais tarde, de queimaduras graves, tornando-se um mártir anti-soviético.

No seu escritório cheio de recordações da invasão, Junek abre a mala emprestada ao museu pelo irmão mais velho de Palach, Jiri. Enquanto arrancava as folhas esverdeadas dos cupões de refeição da cafetaria universitária - a de 16 de Janeiro foi a último a ser arrancada - o tempo parecia voar até 40 anos atrás.

Palach fala desde o leito de morte num CD em que a Rádio Checa compilou documentos sonoros recolhidos a partir de 1968. "Um homem deve lutar contra o mal que possa enfrentar no momento. E que aparentemente ainda não é possível", diz ele.

Tardaram mais duas décadas até à chegada da democracia à Checoslováquia, na Revolução de Veludo de 1989, e os soldados soviéticos partiram.

19 de Agosto de 2008

Tradução de João Romão

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Resto dossier

Primavera de Praga

Em 1968, a experiência checoslovaca de democratizar o socialismo, a Primavera de Praga, foi esmagada pela invasão dos tanques da União Soviética e de outros países do Pacto de Varsóvia. O Esquerda.net reuniu neste dossier artigos e reportagens a rememorar os acontecimentos e documentos da época, em particular um relato do português Flausino Torres, a carta de seis comunistas portugueses exilados criticando a invasão, e uma carta de Flausino Torres pedindo a suspensão de Álvaro Cunhal do PCP.

Cronologia

1968 foi um ano intenso: a guerra do Vietname mobilizava exércitos de combatentes e uma opinião pública quase planetária; em França, o mês de Maio assinalaria a criação de uma frente ampla de estudantes e operários na contestação da exploração capitalista, Israel e o Líbano envolveram-se num aceso conflito, Marcelo Caetano Caetano substituiu Salazar. E a Humanidade conseguiu colocar uma nave na órbita da lua. Em Agosto, os tanques soviéticos irrompiam em Praga para pôr fim aos ímpetos reformistas do Socialismo de Rosto Humano proposto por Alexander Dubcek. Fica uma breve cronologia dos acontecimentos de Praga.

Exposição: 40 anos depois, checos revivem repressão da Primavera de Praga

Uma selecção de histórias e objectos da colecção de Palach integram a exposição que o Museu Nacional da República Checa inaugurou esta semana. Num "flashback" da invasão, a exposição inclui um tanque de guerra T-54 soviético na frente de um imponente edifício, ainda equipadas com as metralhadoras de 1968.

Dubcek: Um homem de boa vontade isolado no reino dos cínicos

Uma retrospectiva da trajectória política de Alexander Dubcek feita pelo diário francês Le Monde na edição de 5 e 6 de Janeiro de 1969, onde o autor dá conta que «Dubcek era um herói, um "estratega genial" ou um novato e um fraco? As opiniões continuam muito diferentes.»

O buraco negro da memória

Nesta reportagem publicada há dez anos na revista Vida Mundial, Daniel Oliveira recorda os acontecimentos da Primavera de Praga e a "Revolução de Veludo", que ocorreu em 1989.

Só os tanques soviéticos pararam a participação popular

Em, 1968, a então Checoslováquia lançou o pânico no campo do "socialismo real". A reabilitação da crítica democrática e um verdadeiro levantamento pacífico viravam do avesso o bastião avançado do Pacto de Varsóvia na Europa. O Partido-Estado subvertia-se a partir de dentro. Uma revolução? Só os tanques soviéticos puderam parar a experiência de participação popular daqueles poucos meses.

"Estamos a ser ocupados pelos nossos fraternos aliados"

A 10 de Setembro de 1968, o diário conservador francês Le Figaro publica uma carta de uma mulher residente em Praga e militante do Partido Comunista Checoslovaco, um documento que revela bem o medo e a perplexidade que tomou conta das ruas da cidade, causados pela intervenção militar soviética. Mas não deixa também de mostrar diversas formas originais de resistência que uniram o povo contra os ocupantes. 

"Que Álvaro Cunhal seja suspenso"

No dia 5 de Novembro de 1968, Álvaro Cunhal reúne-se em Praga com os comunistas portugueses. A meio da reunião tensa, Cunhal expulsa da sala, aos gritos, o jovem Álvaro Bandarra, que procurava apresentar as razões para criticar a invasão soviética. Flausino Torres dirige-se então a Cunhal: " Jamais voltarei a apertar-te a mão! Mandaste sair aquele jovem. Pois tu é que deves abandonar o grupo, a direcção do grupo [o Partido]!(...)". Depois, escreveu uma carta ao Comité Central do PCP pedindo um inquérito e a suspensão de Cunhal do Partido.

Carta dos portugueses exilados na Checoslováquia sobre a invasão soviética

Seis comunistas portugueses exilados na Checoslováquia acompanharam com angústia a invasão soviética. "Sem esperar as decisões de dirigentes de qualquer escalão", relata Flausino Torres, "declarando-nos imediatamente pelo lado da justiça, cumprindo um dever à luz dos princípios." A carta seria seguida por uma segunda, datada de 16 de Setembro, que já reage à "decisão vergonhosa da Direcção do Partido Comunista Português".

Declaração da agência TASS sobre a intervenção militar na Checoslováquia

No próprio dia 21 de Agosto, a agência Tass, a agência de notícias oficial da União Soviética, divulgou esta declaração, em que afirma que a invasão foi feita a pedido dos "militantes e homens de Estado da República Socialista Checoslovaca" e que o motivo foi a ameaça que as "forças contra-revolucionárias", em conluio "com as forças exteriores hostis ao socialismo" faziam pesar sobre o regime socialista checoslovaco.

"A invasão não teve o consentimento das autoridades constitucionais da Checoslváquia"

Esta declaração do presidente da República Socialista da Checoslováquia, general Ludvik Svoboda, aos microfones da rádio Praga no dia 21 de Agosto, deixa claro que não foram as autoridades constitucionais checoslovacas que fizeram qualquer pedido de intervenção militar, e chama os seus concidadãos a enfrentar o desafio e a manifestarem "a adesão ao socialismo, à liberdade e à democracia."

Uma "Primavera" esmagada

A "Primavera de Praga" foi sufocada há 40 anos. As possibilidades de democratizar as "democracias populares" a partir do seu seio reduziram-se drasticamente; mas permanecerá o seu exemplo, como gesto colectivo de audácia e de combatividade, de entrega generosa, que encheu as ruas de Praga e de outras cidades e que levou muito mais longe a vontade de combater o estalinismo como forma pervertida e enquistada de um poder autoritário e burocrático.

"A Batalha de Praga", de Flausino Torres

A Primavera de Praga de 1968 foi testemunhada pelo historiador e militante comunista português Flausino Torres, pai do arqueólogo Cláudio Torres, que dava aulas na Universidade Karlova. Horrorizado, Flausino Torres assistiu aos tanques soviéticos esmagando a experiência de um "socialismo sem ditadura; socialismo com democracia, com minorias; socialismo sem censura à imprensa". É um extracto do relato que escreveu na altura, "A Batalha de Praga" que pode ser lido abaixo.