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Dubcek: Um homem de boa vontade isolado no reino dos cínicos

Uma retrospectiva da trajectória política de Alexander Dubcek feita pelo diário francês Le Monde na edição de 5 e 6 de Janeiro de 1969, onde o autor dá conta que «Dubcek era um herói, um "estratega genial" ou um novato e um fraco? As opiniões continuam muito diferentes.»

Eram muito raros aqueles que, no estrangeiro, conheciam o nome de Dubcek. E na Checoslováquia? Um jovem engenheiro checo com quem falei no dia seguinte ao plenário de Janeiro dizia-nos que não experimentava qualquer interesse pela mudança que acabava de ocorrer na liderança do país. Para ele, Dubcek, Novotny e os outros pertenciam todos à mesma "clique", uma "clique" cuja primeira característica era de não ter "qualquer instrução". Foram precisas semanas de esforço, e sobretudo a grande "revolução cultural" de Março, para que o grande público começasse a "mexer". Mesmo depois disso, mesmo os especialistas precisaram de meses para conhecer o homem cujo nome se identificava com as conquistas da "Primavera de Praga". Hoje este conhecimento é ainda muito imperfeito, sem medida comum à sua popularidade. Dubcek era um herói, um "estratega genial" ou um novato e um fraco? As opiniões continuam muito diferentes.

No entanto, dispomos hoje de melhores pontos de observação que há um ano, e não apenas por causa dos acontecimentos de 1968. A publicação parcial, no Verão passado, da intervenção de Dubcek na sessão do comité central de fim de Outubro de 1967 - a que abriu a crise - mostra amplamente que a renovação estava inscrita no topo do programa, muito antes de ter começado. Desde esta época, com efeito, ele pedia uma "mudança fundamental" dos métodos da direcção e denunciava o conservadorismo em termos que já abriam o flanco às acusações de "complacência direitista" que lhe serão lançadas mais tarde. Quando afirmava: "O perigo do conservadorismo e do sectarismo é não menos agudo para o partido, em particular durante um período de mudança, que o das tendências liberais", antecipava o que seria a sua atitude no momento em que os adversários "ortodoxos" denunciariam o crescimento das forças "anti-socialistas". Igualmente, punha em causa toda a política soviética actual de inflexibilidade ideológica quando declarava: "É natural que a defesa da nossa sociedade contra as influências capitalistas... figure entre os nossos deveres fundamentais. No entanto, não podemos satisfazer-nos com uma atitude defensiva, porque é aí que podem se esconder as sementes da estagnação e do conservadorismo." Ou ainda: "Seria um erro sério confundir as consequências com as causas. Nem os emigrantes nem os agentes imperialistas podem-nos criar problemas maiores; é por isso que não devemos dar-lhes a honra de uma propaganda tão poderosa, desmerecida e para nós nefasta." É interessante notar que tudo isto foi dez semanas antes de Brejnev vir a Praga para investigar a situação. O secretário-geral do PC soviético, que deu a sua benção à mudança, não pode culpar senão a ele mesmo se a "heresia" se desenvolveu.

Uma inimizade tenaz por Novotny

No entanto, em 5 de Janeiro de 1968, quando se instala na liderança do partido, Dubcek não prevê, como ninguém, o que se vai passar em seguida. Reformista certamente, talvez mesmo um pouco "revisionista", mas de forma alguma o "liberal" que se vai tornar depois, no espírito do público. E se ele desencadeia, ou, mais bem, deixa desencadear o processo de liberalização, é evidentemente em nome de uma concepção nova do papel do partido - um papel fundado na confiança das massas e não no comando -, mas também por dois motivos mais precisos.

- Em primeiro lugar, uma inimizade tenaz por Novotny, os seus homens e o seu regime. Aqui, Dubcek volta a ser apparatchik e, sabendo que não há lugar na direcção do partido para duas equipas rivais, adianta os seus peões com a arte consumada de um táctico. Aliás, é Novotny que abre as hostilidades, pondo em causa, num discurso pronunciado numa fábrica de Praga no fim de Fevereiro, as conclusões do plenário de Janeiro. Imediatamente, Dubcek abandona à sua sorte o antigo primeiro secretário do Estado. A necessidade de renovar os quadros explica numa grande medida o grande movimento de fundo da Primavera;

Ao mesmo tempo, o novo chefe do partido não quer afastar-se da ala progressista, dos intelectuais principalmente, que contribuíram mais que outros a levá-lo ao poder e de quem ele continua a precisar para eliminar definitivamente os homens do passado. Os ortodoxos do estrangeiro acusam-no logo de não ver o "perigo principal", de renunciar à "luta nas duas frentes" e de se tornar prisioneiro da "direita". De facto, os seus detractores estão bem colocados para saber que a luta "em duas frentes" só é realmente possível, nos seus sistemas, num período de equilíbrio, quando o poder do momento estiver bem consolidado. O único país que pode dar exemplo sob este ponto-de-vista é talvez a Hungria, mas certamente não a URSS, onde Brejnev se apoia cada vez mais nos elementos estalinistas para desenvolver a sua ofensiva anti-revisionista. Na Checoslováquia, Dubcek escolheu o curso inverso: a principal característica da sua acção no curso deste período será, se não encorajar expressamente os progressistas radicais, pelo menos não querer atacá-los.

Observar a situação

Mas o seu papel limita-se a isto. Quanto ao resto, parece limitar-se a observar a situação, a deixar os problemas decantarem-se. Procuramos em vão nos seus discursos avaliações frontais sobre os problemas concretos da hora: cala-se sobre a federação no momento em que a questão se decide, nas primeiras semanas da Primavera; simula ignorar durante muito tempo as pressões soviéticas, ainda não disse publicamente o que pensa do XIVº Congresso do partido, realizado clandestinamente depois da invasão. A seu lado, homens sobem e descem - sucessivamente Kolder, Smrkovsky, Cernik, Mlynar, de novo Cernik, Husak, Strougal, etc. - que se agitam mais e parecem definir a "linha". Esta táctica - se é realmente - dá a Dubcek a vantagem de não se "molhar" demasiado nas viragens sucessivas e conservar a sua popularidade. Em contrapartida, ela expõe-no às críticas daqueles que desconfiam que vão ser ultrapassados pelos acontecimentos, incertos, sem estratégia a longo prazo.

Dizem-no sensível às influências dos que o rodeiam, sejam "progressistas", como na Primavera, ou "ortodoxos", como depois do 21 de Agosto. O público dá-se conta disso. No fundo, ele tem a sua estima não pelo que decidiu ou quis, mas pelas transformações que ocorreram no regime e pelas qualidade pessoais que lhe são geralmente reconhecidas: honestidade, boa vontade e espírito de aventura.

A entrada na lenda

A sua verdadeira hora de glória chegou em Julho, quando vemos o "pequeno homem tranquilo" levantar subitamente a espinha e rejeitar, sempre calmamente e sem bravatas inúteis, as exigências tornitruantes do seu todo-poderoso "aliado". Será que esperava o que viria a seguir? Parece que não, e uma das suas fraquezas terá sido sem dúvida a de subestimar, apesar da longa convivência com a URSS, apesar das relações pessoais que lhe são atribuídas com Brejnev, a brutalidade dos seus parceiros. Seja como for, o rapto violento na madrugada de 21 de Agosto, o regresso doloroso a Praga, concluem a sua entrada na lenda, mas quebram também o impulso.

Com efeito, é, em primeiro lugar, como ele mesmo dirá, a consumação de um "drama pessoal" (passa por um verdadeiro afundamento físico), mas é também o início de um extraordinário equívoco político. Porque depois dos famosos "acordos de Moscovo" - acordos que lhe terão, tal como a Smrkovsky, merecido reticências - Dubcek não encontra o seu lugar. Tenta, é verdade, pôr-se em uníssono com o ambiente de "realismo", como o mostra a firmeza do seu último discurso. Mas não está suficientemente desfeito para ser um Kadar, é demasiado humanista para ser um Gomulka. Além disso, permanece, até nova ordem, demasiado popular para ser derrubado, mas não tem energia suficiente para tomar as rédeas fortemente; de todas as formas, é um pouco tarde para resistir com sucesso às pressões soviéticas. Assim, deixa os "realistas" ocupar a boca de cena, tal como fazia, seis meses antes, com os "progressistas". Apesar de tudo, a história julgará sem dúvida com indulgência este "homem de boa vontade" isolado no reino dos cínicos.

M. T.

Tradução de Luis Leiria

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Resto dossier

Primavera de Praga

Em 1968, a experiência checoslovaca de democratizar o socialismo, a Primavera de Praga, foi esmagada pela invasão dos tanques da União Soviética e de outros países do Pacto de Varsóvia. O Esquerda.net reuniu neste dossier artigos e reportagens a rememorar os acontecimentos e documentos da época, em particular um relato do português Flausino Torres, a carta de seis comunistas portugueses exilados criticando a invasão, e uma carta de Flausino Torres pedindo a suspensão de Álvaro Cunhal do PCP.

Exposição: 40 anos depois, checos revivem repressão da Primavera de Praga

Uma selecção de histórias e objectos da colecção de Palach integram a exposição que o Museu Nacional da República Checa inaugurou esta semana. Num "flashback" da invasão, a exposição inclui um tanque de guerra T-54 soviético na frente de um imponente edifício, ainda equipadas com as metralhadoras de 1968.

Dubcek: Um homem de boa vontade isolado no reino dos cínicos

Uma retrospectiva da trajectória política de Alexander Dubcek feita pelo diário francês Le Monde na edição de 5 e 6 de Janeiro de 1969, onde o autor dá conta que «Dubcek era um herói, um "estratega genial" ou um novato e um fraco? As opiniões continuam muito diferentes.»

O buraco negro da memória

Nesta reportagem publicada há dez anos na revista Vida Mundial, Daniel Oliveira recorda os acontecimentos da Primavera de Praga e a "Revolução de Veludo", que ocorreu em 1989.

Só os tanques soviéticos pararam a participação popular

Em, 1968, a então Checoslováquia lançou o pânico no campo do "socialismo real". A reabilitação da crítica democrática e um verdadeiro levantamento pacífico viravam do avesso o bastião avançado do Pacto de Varsóvia na Europa. O Partido-Estado subvertia-se a partir de dentro. Uma revolução? Só os tanques soviéticos puderam parar a experiência de participação popular daqueles poucos meses.

Cronologia

1968 foi um ano intenso: a guerra do Vietname mobilizava exércitos de combatentes e uma opinião pública quase planetária; em França, o mês de Maio assinalaria a criação de uma frente ampla de estudantes e operários na contestação da exploração capitalista, Israel e o Líbano envolveram-se num aceso conflito, Marcelo Caetano Caetano substituiu Salazar. E a Humanidade conseguiu colocar uma nave na órbita da lua. Em Agosto, os tanques soviéticos irrompiam em Praga para pôr fim aos ímpetos reformistas do Socialismo de Rosto Humano proposto por Alexander Dubcek. Fica uma breve cronologia dos acontecimentos de Praga.

"Estamos a ser ocupados pelos nossos fraternos aliados"

A 10 de Setembro de 1968, o diário conservador francês Le Figaro publica uma carta de uma mulher residente em Praga e militante do Partido Comunista Checoslovaco, um documento que revela bem o medo e a perplexidade que tomou conta das ruas da cidade, causados pela intervenção militar soviética. Mas não deixa também de mostrar diversas formas originais de resistência que uniram o povo contra os ocupantes. 

"Que Álvaro Cunhal seja suspenso"

No dia 5 de Novembro de 1968, Álvaro Cunhal reúne-se em Praga com os comunistas portugueses. A meio da reunião tensa, Cunhal expulsa da sala, aos gritos, o jovem Álvaro Bandarra, que procurava apresentar as razões para criticar a invasão soviética. Flausino Torres dirige-se então a Cunhal: " Jamais voltarei a apertar-te a mão! Mandaste sair aquele jovem. Pois tu é que deves abandonar o grupo, a direcção do grupo [o Partido]!(...)". Depois, escreveu uma carta ao Comité Central do PCP pedindo um inquérito e a suspensão de Cunhal do Partido.

Carta dos portugueses exilados na Checoslováquia sobre a invasão soviética

Seis comunistas portugueses exilados na Checoslováquia acompanharam com angústia a invasão soviética. "Sem esperar as decisões de dirigentes de qualquer escalão", relata Flausino Torres, "declarando-nos imediatamente pelo lado da justiça, cumprindo um dever à luz dos princípios." A carta seria seguida por uma segunda, datada de 16 de Setembro, que já reage à "decisão vergonhosa da Direcção do Partido Comunista Português".

"A invasão não teve o consentimento das autoridades constitucionais da Checoslváquia"

Esta declaração do presidente da República Socialista da Checoslováquia, general Ludvik Svoboda, aos microfones da rádio Praga no dia 21 de Agosto, deixa claro que não foram as autoridades constitucionais checoslovacas que fizeram qualquer pedido de intervenção militar, e chama os seus concidadãos a enfrentar o desafio e a manifestarem "a adesão ao socialismo, à liberdade e à democracia."

Declaração da agência TASS sobre a intervenção militar na Checoslováquia

No próprio dia 21 de Agosto, a agência Tass, a agência de notícias oficial da União Soviética, divulgou esta declaração, em que afirma que a invasão foi feita a pedido dos "militantes e homens de Estado da República Socialista Checoslovaca" e que o motivo foi a ameaça que as "forças contra-revolucionárias", em conluio "com as forças exteriores hostis ao socialismo" faziam pesar sobre o regime socialista checoslovaco.

Uma "Primavera" esmagada

A "Primavera de Praga" foi sufocada há 40 anos. As possibilidades de democratizar as "democracias populares" a partir do seu seio reduziram-se drasticamente; mas permanecerá o seu exemplo, como gesto colectivo de audácia e de combatividade, de entrega generosa, que encheu as ruas de Praga e de outras cidades e que levou muito mais longe a vontade de combater o estalinismo como forma pervertida e enquistada de um poder autoritário e burocrático.

"A Batalha de Praga", de Flausino Torres

A Primavera de Praga de 1968 foi testemunhada pelo historiador e militante comunista português Flausino Torres, pai do arqueólogo Cláudio Torres, que dava aulas na Universidade Karlova. Horrorizado, Flausino Torres assistiu aos tanques soviéticos esmagando a experiência de um "socialismo sem ditadura; socialismo com democracia, com minorias; socialismo sem censura à imprensa". É um extracto do relato que escreveu na altura, "A Batalha de Praga" que pode ser lido abaixo.