Está aqui

"A invasão não teve o consentimento das autoridades constitucionais da Checoslváquia"

Esta declaração do presidente da República Socialista da Checoslováquia, general Ludvik Svoboda, aos microfones da rádio Praga no dia 21 de Agosto, deixa claro que não foram as autoridades constitucionais checoslovacas que fizeram qualquer pedido de intervenção militar, e chama os seus concidadãos a enfrentar o desafio e a manifestarem "a adesão ao socialismo, à liberdade e à democracia."

Texto da declaração do presidente Svoboda à Rádio Praga (noite de 21 de Agosto de 1968)

Caros concidadãos,

É a segunda vez que me dirijo a vós neste triste dia. Atravessamos horas excepcionalmente graves da vida da nossa nação. Unidades militares da União Soviética, da República Popular da Polónia, da República Democrática Alemã, da Hungria, penetraram no nosso país. Fizeram-no sem consentimento das autoridades constitucionais do nosso Estado.

No entanto, estas autoridades, conscientes da sua responsabilidade diante da nossa pátria, devem encontrar uma solução rápida à situação criada, e devem obter a retirada rápida das forças estrangeiras.

Com este fim, desenvolvi hoje todos os esforços materialmente possíveis, dadas as presentes condições. Entre as medidas que tomei, podemos relevar a convocação da Assembleia nacional em sessão plenária. Esta tarde discuti com os membros do governo os problemas mais urgentes que concernem ao restabelecimento da vida normal no nosso país e à salvaguarda da sua integridade. As discussões vão continuar amanhã, espero que o primeiro-ministro possa também participar.

Tenho conhecimento de todos os problemas, de todas as dificuldades provocadas pela situação actual, e de novo apelo a vós, caros concidadãos, para vos pedir que exerçam a maior prudência possível e evitem tudo o que possa causar acções lamentáveis cujas consequências seriam irreparáveis. Este apelo sincero é particularmente dirigido à nossa juventude.

Apelo a todos, operários, camponeses e intelectuais e peço-vos que manifestem pela vossa atitude a adesão ao socialismo, à liberdade e à democracia. Não se trata para nós de um recuo.

O programa de acção do Partido Comunista checoslovaco e a declaração-programa do governo de Frente Nacional exprimem os interesses e as necessidades vitais de toda a população da nossa pátria. Precisamos continuar a obra que começámos.

Não nos deixemos desencorajar, consolidemos as nossas fileiras, unamo-nos com o Partido Comunista da Checoslováquia e com a Frente Nacional inteira, prossigamos os nossos esforços para chegar a uma vida melhor ao nosso país. Esta declaração do presidente da República Socialista da Checoslováquia, general Ludvik Svoboda, aos microfones da rádio Praga no dia 21 de Agosto, deixa claro que não foram as autoridades constitucionais checoslovacas que fizeram qualquer pedido de intervenção militar, e chama os seus concidadãos a enfrentar o desafio e a manifestarem "a adesão ao socialismo, à liberdade e à democracia."

Texto da declaração do presidente Svoboda à Rádio Praga (noite de 21 de Agosto de 1968)

Caros concidadãos,

É a segunda vez que me dirijo a vós neste triste dia. Atravessamos horas excepcionalmente graves da vida da nossa nação. Unidades militares da União Soviética, da República Popular da Polónia, da República Democrática Alemã, da Hungria, penetraram no nosso país. Fizeram-no sem consentimento das autoridades constitucionais do nosso Estado.

No entanto, estas autoridades, conscientes da sua responsabilidade diante da nossa pátria, devem encontrar uma solução rápida à situação criada, e devem obter a retirada rápida das forças estrangeiras.

Com este fim, desenvolvi hoje todos os esforços materialmente possíveis, dadas as presentes condições. Entre as medidas que tomei, podemos relevar a convocação da Assembleia nacional em sessão plenária. Esta tarde discuti com os membros do governo os problemas mais urgentes que concernem ao restabelecimento da vida normal no nosso país e à salvaguarda da sua integridade. As discussões vão continuar amanhã, espero que o primeiro-ministro possa também participar.

Tenho conhecimento de todos os problemas, de todas as dificuldades provocadas pela situação actual, e de novo apelo a vós, caros concidadãos, para vos pedir que exerçam a maior prudência possível e evitem tudo o que possa causar acções lamentáveis cujas consequências seriam irreparáveis. Este apelo sincero é particularmente dirigido à nossa juventude.

Apelo a todos, operários, camponeses e intelectuais e peço-vos que manifestem pela vossa atitude a adesão ao socialismo, à liberdade e à democracia. Não se trata para nós de um recuo.

O programa de acção do Partido Comunista checoslovaco e a declaração-programa do governo de Frente Nacional exprimem os interesses e as necessidades vitais de toda a população da nossa pátria. Precisamos continuar a obra que começámos.

Não nos deixemos desencorajar, consolidemos as nossas fileiras, unamo-nos com o Partido Comunista da Checoslováquia e com a Frente Nacional inteira, prossigamos os nossos esforços para chegar a uma vida melhor ao nosso país.

(...)

Resto dossier

Primavera de Praga

Em 1968, a experiência checoslovaca de democratizar o socialismo, a Primavera de Praga, foi esmagada pela invasão dos tanques da União Soviética e de outros países do Pacto de Varsóvia. O Esquerda.net reuniu neste dossier artigos e reportagens a rememorar os acontecimentos e documentos da época, em particular um relato do português Flausino Torres, a carta de seis comunistas portugueses exilados criticando a invasão, e uma carta de Flausino Torres pedindo a suspensão de Álvaro Cunhal do PCP.

Cronologia

1968 foi um ano intenso: a guerra do Vietname mobilizava exércitos de combatentes e uma opinião pública quase planetária; em França, o mês de Maio assinalaria a criação de uma frente ampla de estudantes e operários na contestação da exploração capitalista, Israel e o Líbano envolveram-se num aceso conflito, Marcelo Caetano Caetano substituiu Salazar. E a Humanidade conseguiu colocar uma nave na órbita da lua. Em Agosto, os tanques soviéticos irrompiam em Praga para pôr fim aos ímpetos reformistas do Socialismo de Rosto Humano proposto por Alexander Dubcek. Fica uma breve cronologia dos acontecimentos de Praga.

Exposição: 40 anos depois, checos revivem repressão da Primavera de Praga

Uma selecção de histórias e objectos da colecção de Palach integram a exposição que o Museu Nacional da República Checa inaugurou esta semana. Num "flashback" da invasão, a exposição inclui um tanque de guerra T-54 soviético na frente de um imponente edifício, ainda equipadas com as metralhadoras de 1968.

Dubcek: Um homem de boa vontade isolado no reino dos cínicos

Uma retrospectiva da trajectória política de Alexander Dubcek feita pelo diário francês Le Monde na edição de 5 e 6 de Janeiro de 1969, onde o autor dá conta que «Dubcek era um herói, um "estratega genial" ou um novato e um fraco? As opiniões continuam muito diferentes.»

O buraco negro da memória

Nesta reportagem publicada há dez anos na revista Vida Mundial, Daniel Oliveira recorda os acontecimentos da Primavera de Praga e a "Revolução de Veludo", que ocorreu em 1989.

Só os tanques soviéticos pararam a participação popular

Em, 1968, a então Checoslováquia lançou o pânico no campo do "socialismo real". A reabilitação da crítica democrática e um verdadeiro levantamento pacífico viravam do avesso o bastião avançado do Pacto de Varsóvia na Europa. O Partido-Estado subvertia-se a partir de dentro. Uma revolução? Só os tanques soviéticos puderam parar a experiência de participação popular daqueles poucos meses.

"Estamos a ser ocupados pelos nossos fraternos aliados"

A 10 de Setembro de 1968, o diário conservador francês Le Figaro publica uma carta de uma mulher residente em Praga e militante do Partido Comunista Checoslovaco, um documento que revela bem o medo e a perplexidade que tomou conta das ruas da cidade, causados pela intervenção militar soviética. Mas não deixa também de mostrar diversas formas originais de resistência que uniram o povo contra os ocupantes. 

"Que Álvaro Cunhal seja suspenso"

No dia 5 de Novembro de 1968, Álvaro Cunhal reúne-se em Praga com os comunistas portugueses. A meio da reunião tensa, Cunhal expulsa da sala, aos gritos, o jovem Álvaro Bandarra, que procurava apresentar as razões para criticar a invasão soviética. Flausino Torres dirige-se então a Cunhal: " Jamais voltarei a apertar-te a mão! Mandaste sair aquele jovem. Pois tu é que deves abandonar o grupo, a direcção do grupo [o Partido]!(...)". Depois, escreveu uma carta ao Comité Central do PCP pedindo um inquérito e a suspensão de Cunhal do Partido.

Carta dos portugueses exilados na Checoslováquia sobre a invasão soviética

Seis comunistas portugueses exilados na Checoslováquia acompanharam com angústia a invasão soviética. "Sem esperar as decisões de dirigentes de qualquer escalão", relata Flausino Torres, "declarando-nos imediatamente pelo lado da justiça, cumprindo um dever à luz dos princípios." A carta seria seguida por uma segunda, datada de 16 de Setembro, que já reage à "decisão vergonhosa da Direcção do Partido Comunista Português".

Declaração da agência TASS sobre a intervenção militar na Checoslováquia

No próprio dia 21 de Agosto, a agência Tass, a agência de notícias oficial da União Soviética, divulgou esta declaração, em que afirma que a invasão foi feita a pedido dos "militantes e homens de Estado da República Socialista Checoslovaca" e que o motivo foi a ameaça que as "forças contra-revolucionárias", em conluio "com as forças exteriores hostis ao socialismo" faziam pesar sobre o regime socialista checoslovaco.

"A invasão não teve o consentimento das autoridades constitucionais da Checoslváquia"

Esta declaração do presidente da República Socialista da Checoslováquia, general Ludvik Svoboda, aos microfones da rádio Praga no dia 21 de Agosto, deixa claro que não foram as autoridades constitucionais checoslovacas que fizeram qualquer pedido de intervenção militar, e chama os seus concidadãos a enfrentar o desafio e a manifestarem "a adesão ao socialismo, à liberdade e à democracia."

Uma "Primavera" esmagada

A "Primavera de Praga" foi sufocada há 40 anos. As possibilidades de democratizar as "democracias populares" a partir do seu seio reduziram-se drasticamente; mas permanecerá o seu exemplo, como gesto colectivo de audácia e de combatividade, de entrega generosa, que encheu as ruas de Praga e de outras cidades e que levou muito mais longe a vontade de combater o estalinismo como forma pervertida e enquistada de um poder autoritário e burocrático.

"A Batalha de Praga", de Flausino Torres

A Primavera de Praga de 1968 foi testemunhada pelo historiador e militante comunista português Flausino Torres, pai do arqueólogo Cláudio Torres, que dava aulas na Universidade Karlova. Horrorizado, Flausino Torres assistiu aos tanques soviéticos esmagando a experiência de um "socialismo sem ditadura; socialismo com democracia, com minorias; socialismo sem censura à imprensa". É um extracto do relato que escreveu na altura, "A Batalha de Praga" que pode ser lido abaixo.